Música Popular Brasileira

No final dos anos de 1970 e início dos de 1980, Rita Lee perpetrou a música: “Arrombou a festa”, em parceria com o “mago” Paulo Coelho: “Ai! Ai, meu Deus! O que foi que aconteceu com a Música Popular Brasileira?”.

Era uma crítica ácida e bem humorada ao então cenário musical brasileiro.

Pois é… Comparando com o que se divulga e ouve por aí, os criticados de então seriam considerados gênios musicais!
Não querendo ser nostálgico, eu adorava os festivais da Excelsior e, principalmente, os da Record. Neles, Jair Rodrigues, Gil, Caetano, MPB4, Nana Caymmi, Nara Leão, Chico Buarque e outros, quase todos extremamente jovens, defendiam músicas memoráveis, bem cantadas e tocadas, entoadas apaixonadamente por plateias e telespectadores. No dia seguinte, a gente já as assobiava nas ruas!

Era um tempo de repressão e patrulhamento, mas os autores tinham inteligência para protestar nas entrelinhas. Tempo em que, parafraseando Gil, a gente louvava o que bem merecia e deixava o ruim de lado.

O Brasil já tinha a tradição de grandes autores, instrumentistas e intérpretes, além de próprios ritmos: chorinho, seresta, sambas de todo tipo, as incomparáveis marchinhas de Carnaval, baião…

Carmem Miranda foi um ícone desse tempo em que a música brasileira era cantada nas rádios, nos cinemas e, sobretudo, nas ruas. Era tão famosa, que foi parar nos EUA, como parte da política de “boa vizinhança” dos EUA.

Ela partiu dizendo “Adeus à batucada”, mas, num de seus retornos ao Brasil, lamentou que dissessem que ela ficara “americanizada”.

O saudoso Jackson do Pandeiro admitia, sob certas condições, um intercâmbio cultural. Afirmava que só botaria “bebop” no seu samba se o “Tio Sam” tocasse um tamborim, coisa que os gringos nunca quiseram ou souberam fazer. “Cada um no seu quadrado”…

Mas a globalização cultural era patente, até os anos de 1960: músicas em inglês, francês, espanhol e italiano tocavam diariamente nas rádios AM. Havia uma diversidade hoje rara nas emissoras FM.

A bossa nova adotou um pouco dessa visão cosmopolita, misturando o samba-canção, jazz e os bons ares dos “Anos Dourados”. Jovens compositores de classe média pegaram um pouco de bom de cada coisa para encantar o mundo. Foram aos morros buscar inspiração nos grandes compositores das escolas de samba.

O Brasil continuou assim, criativo e virtuoso, embora já “pisando no freio”, até os anos de 1980, quando ocorreu o último movimento musical que merece destaque: o BRock, que reuniu bandas como: Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha…

Agora, novamente: “Ai! Ai, meu Deus! O que foi que aconteceu com a Música Popular Brasileira?

As vozes foram substituídas por bundas! Os instrumentos musicais, que antigamente eram “sobrenome” de mestres dos morros, viraram “percussão vocal”! Os temas são sempre os mesmos: mulheres que só pensam em dançar, beber e namorar! Os sambas e músicas sertanejas são tão iguais que mal dá para identificar quem canta! Jovens de classe média criticam hipocritamente sua própria condição social e vão aos morros não mais para buscar inspiração, mas aspiração, se é que me entendem. E o “Arrastão”, antes sucesso de Edu Lobo, hoje, em vez de aplausos, arranca dinheiro, colares, vidas…

Antes, grandes músicos surgiam a todo instante, nos morros e subúrbios: gente simples que tinha música na alma e vontade de vencer na vida, pelo bem.

Mesmo o “classe média” Noel Rosa admitia: “A gíria que o nosso povo criou, bem cedo a cidade adotou e usou”, evidenciando a democracia cultural.

Mais tarde, Martinho da Vila celebrou a mobilidade social: “Eu nasci no morro e me criei na cidade. Saí do submundo e penetrei no seio da alta sociedade”.

Ironia: hoje o submundo está no seio da alta sociedade, e esse sonho foi substituído pelo de um fuzil automático e o conformismo: “Eu só quero ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci!”, pois, com raras exceções, morro virou área de duplo risco.

Com tanta tradição musical, hoje importamos ritmos ruins para piorá-los ainda mais!

A violência e o mau-gosto dominam a mídia e o país qual uma epidemia, quase sem nenhuma opção, sem antídoto.
Para isso, não há censura: a liberdade é total para qualquer “legítima manifestação cultural” que não afete outros “interesses”!

E, como dizia Rita Lee: “Quanto a gente fala mal, a turma toda cai de pau, dizendo que esse papo é besteira”. Afinal, “É proibido proibir!”, mesmo que só um lado tenha direito a expressão, democraticamente perseguindo quem critica esse “senso comum”.

Para os críticos desse novo “status quo” sobra o alerta da “Rainha do Rock”: “Corre, que lá vem os ‘home'”!

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