“Entrevero Instrumental” de talentos

Frederico Bezerra

Em busca das novas sonoridades da música catarinense, resolvi percorrer as veredas da música instrumental. E o que encontrei? Música de primeira linha, criativa e bem arranjada.“Entrevero Instrumental” surge do encontro de Rodrigo Moreira (baixo-elétrico) e Filipe Maliska (bateria) em Barcelona, onde se conheceram cursando o L’aula de Música Moderna e Jazz, do Berklee School of Music del Conservatori del Liceu, daquela cidade. Já em terras brasileiras, resolveram consolidar o grupo, com a entrada de Arthur Zucchi Boscato (violão) e Diego Guerro (acordeom). Ouça: “Passos Largos”, Grupo Entrevero Instrumental. A música passada a limpo.

Onde moram? Joinville, Florianópolis, Curitiba… Mesmo cada um em sua cidade, reuniram-se para investir em composições próprias dando origem ao primeiro CD do grupo – “Siri al presto” – lançado em agosto deste ano. O disco, gravado no Rio de Janeiro conta com a produção e o violão de Daniel Santiago, Gabriel Grossi (harmônica), Alessandro Bebê Kramer (acordeom) e Mafran do Maracanã (percussão).
 
Em 2010, o grupo foi convidado a participar do Circuito Sesc Santa Catarina, da 8ª edição do Joinville Jazz Festival e selecionado para o Projeto Rumos Música 2010-2012 (Itaú Cultural), na categoria Mapeamento.
 
Esse merecido reconhecimento que o quarteto começa a receber se deve à construção de um trabalho consistente e original. Eis mais um tabu a ser quebrado nesse espaço: há muito que a música brasileira produz grandes talentos da vertente instrumental, nos libertando dos domínios da palavra, amplamente respeitada em nosso cenário musical.
 
Wagner Tiso, Sivuca, Hermeto Paschoal, Hamilton de Holanda, Guinga, Paulo Moura são grande nomes da nova ou antiga geração que vemos muitas vezes desapercebidamente nos jornais e revistas de música. O destaque que tais nomes recebem está longe de corresponder ao real valor de sua trajetória e importância para a música e a cultural brasileira em geral.
 
Por tudo isso, trago à baila o conjunto que foi muito bem definido por um de seus integrantes:

“Entrevero é um prato típico do sul do Brasil, que tem como essência a mistura de ingredientes marcantes, os quais, em harmonia, se unem formando um sabor especial e mestiço. O grupo Entrevero Instrumental é a representação musical desta receita. Através da fusão de ritmos do sul do Brasil, com a infinitude de sons dos demais cantos do país, expressa a riqueza da cultura brasileira sem perder o sotaque regional. O grupo prima pelo rigor técnico e abre espaço à criatividade de cada integrante, sendo influenciado pelo jazz e pela música instrumental brasileira.

Certa vez um crítico musical, ao assistir um concerto do compositor romântico alemão Richard Wagner proferiu: “a orquestra fala”. Sim, caros leitores, a música instrumental pode nos dizer e nos tocar tão profundamente quanto às nossas canções prediletas. A composição sugerida pelo grupo foi “Passos largos”, segunda faixa do CD de abertura do conjunto.

Seguindo aos moldes do jazz, temos em princípio a apresentação do tema que será depois retomado algumas vezes, sucedido por momentos de destaque deste ou aquele instrumento. O acentuado sotaque sulista pronunciado pela melodia inicial – entregue ao violão e em seguida, ao acordeom – ganha uma roupagem moderna e se transmuta no decorrer da gravação.

A boa performance dos instrumentistas não nos deixa perceber que os minutos se passam. De um requinte e sutileza admiráveis, a obra tem tudo para receber a total atenção do público. Eis, meus amigos, uma face da música sulista enraizada no Estado, representando-o com inteligência ao mesmo tempo em que apresenta “rumos” para nossa arte.

1 responder
  1. Rodrigo Moreira says:

    Obrigado pelo belo texto Frederico e parabéns por sua coluna no Caros Ouvintes, estou certo que o site ganha muito com sua colaboração, grande abraço!

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