“Por que no hablas, señor?”

Neste mês de abril (reta final da minha estada aqui em Braga!), minha vida tem sido estudar de domingo a sexta-feira e no sábado, passear, já que ninguém é de ferro. Nesta semana, conheci mais um belo recanto do norte de Portugal, a vila de Ponte de Lima. Meus anfitriões foram, mais uma vez, o casal Alessandra e Paulo, ela é brasileira e ele, português. Gostaria que você, leitor do Caros Ouvintes, tivesse também a sorte de conhecer pessoas tão bacanas como estes dois.
Por Nair Prata

Começamos nosso passeio pelo Santuário de Nossa Senhora do Sameiro, um dos mais famosos de Portugal e que fica aqui em Braga.

Eu já perdi a conta de quantas igrejas bonitas já vi nesta minha viagem, mas esta é especial. Além da igreja, há todo um aparato para receber grande número de fiéis e a imagem de Nossa Senhora do Sameiro se parece muito com a de Nossa senhora da Conceição. A grande festa do santuário é no dia 12 de junho.
 
Depois fomos para Ponte de Lima, terra da família do Paulo. É uma típica vila portuguesa, com casario que lembra muito a nossa Ouro Preto. Mas tem uma coisa que é a cara de Portugal: uma praça com vários cafés e confeitarias. Como já é primavera aqui na Europa, o tempo está bem mais quente, então a praça estava cheia de gente curtindo um delicioso sol, depois de tanto frio e chuva.


A cidade se debruça ao longo do rio.

A vila Ponte de Lima obviamente tem uma bela ponte sobre o rio Lima. É um lugar medieval e, durante a Idade Média, atuou na defesa da Região do Minho contra os ataques dos mouros. No final da ponte há a igreja de Santo Antônio. Na entrada, uma placa de pedra tem a seguinte inscrição gravada: “Reina o mui nobre Dom Pedro na era de 1359 mandou cercar esta vila e fazer estas torres por Álvaro Pais que era seu corregedor e começaram a botar (juntar) a pedra a 8 dias de março e começaram a afundar aos 6 de julho”. A vila também tem o Museu dos Terceiros, de arte sacra e ainda fortificações medievais, como uma antiga torre-prisão e o Palácio dos Marqueses.
 
Cartazes espalhados pelo comércio da vila me chamaram a atenção. A população de lá prepara-se para uma interessante festa gastronômica, o “Fim de Semana do Sarrabulho”, que será realizada de 5 a 7 de maio. O sarrabulho é um prato típico português. Aqui em Braga, aos domingos, vejo sempre nos restaurantes placas informando “Há Papas de Sarrabulho”. O prato é uma mistura de carne de porco desfiada e arroz bem cozido, tudo isso empapado no sangue de porco talhado.
 
Mas a grande festa da vila acontece mesmo em setembro e é realizada na faixa de areia do rio Lima. A festa tem o nome de Feiras Novas e é realizada desde 1125! Na realidade, é uma feira que mistura religião e folclore, com espetáculo pirotécnico, shows musicais e uma atração muito interessante, os concertineiros, que no Brasil nós chamamos de repentistas.
 
Como aqui em Portugal ninguém faz um passeio sem uma bela refeição, depois voltamos para Braga para o jantar. Já estou aqui há quase quatro meses e ainda não conhecia o restaurante Abade de Priscos, um lugar aconchegante que serve um bacalhau gratinado que é um manjar dos céus. De sobremesa, comemos o famosíssimo Pudim Abade de Priscos, que é feito com ovos, açúcar, toucinho, vinho do Porto, casca de limão e um pau de canela. Depois de misturar tudo, é cozido em banho-maria em forma caramelada. Sentiu o gostinho daí, meu leitor? Hoje não vou me esquecer de falar da bebida (viu Hamilton?). Já contei aqui na coluna que eu não tomo nada de álcool, mas o Paulo e a Alessandra beberam um legítimo vinho alentejano chamado “Tinto da Talha”. É um vinho que segue a tradição romana de ser envelhecido em talhas de barro, ao invés dos tradicionais tonéis de madeira.
Depois deste passeio pelas terras e comidas portuguesas, nosso assunto radiofônico de hoje, leitor do Caros Ouvintes, é Januário Carneiro, umas das pessoas mais importantes da história do rádio em Minas Gerais. Ele foi o fundador da Rádio Itatiaia e transformou a pequena emissora numa estação que figura hoje entre os maiores faturamentos da mídia nacional.


Selma Sueli Silva: jornalista / produtora do
programa “Rádio Vivo”. Novembro de 2004.

O jornalista Januário Carneiro nasceu em Patrocínio do Muriaé, Minas Gerais, em 1928 e morreu em Belo Horizonte, em 1994. A família mudou-se para a Capital no final da década de 30. Januário começou a trabalhar no jornal O Diário, como repórter esportivo, mas foi com seus boletins para a Rádio Continental do Rio que começou a arquitetar o sonho de ter uma emissora própria, fugindo dos padrões tradicionais de programação.

A Rádio Itatiaia nasceu, na realidade, em Nova Lima, cidade a 30 quilômetros de Belo Horizonte. Uma pequena emissora estava à venda e Januário reuniu seus poucos recursos com os de alguns amigos e efetuou a compra. Hoje, 53 anos depois das primeiras transmissões experimentais, a Itatiaia faz parte da vida do povo mineiro, prepara-se para as transmissões digitais e emite em tempo real pela Internet, no www.itatiaia.com.br.

A partir de 1952, quando a Itatiaia conseguiu autorização para operar em Belo Horizonte, disputavam o mercado da capital três grandes estações: Inconfidência (de propriedade do governo de Minas Gerais), Guarani e Mineira (ambas pertencentes aos Diários e Emissoras Associados). As três trabalhavam da mesma forma com elenco de atores, grandes orquestras, programas de auditório. Sobre a Itatiaia, a população de Belo Horizonte comentava: “É uma emissora que fala para o centro e cochicha para os bairros” fazendo uma crítica à má qualidade do som e à falta de potência das transmissões.
Januário Carneiro pretendia implantar na Itatiaia um esquema diferente do que se conhecida até então a respeito de programação de rádio. A Rádio Continental  do Rio já trilhava este novo caminho de identificação com o esporte e a Itatiaia tentava repetir a mesma fórmula, atraindo principalmente os apaixonados pelo futebol.
Januário Carneiro definia assim o rádio: “O rádio tem que ser amado, passionalmente, pelos que o realizam. Sem isso, nada feito. Os que são verdadeiramente do rádio estão dispostos a todas as lutas, a todos os sacrifícios, aceitando com naturalidade as frustrações, os desafios. Esse trabalho fascinante oferece muita compensação, mas exige suor todos os dias, pois o rádio nos coloca dentro das casas, na intimidade dos lares. Pode ser até que o rádio não encha os bolsos, mas é rigorosamente certo que enche os corações. Só quem está no rádio sabe como isso é verdade” (PINTO JÚNIOR e SALLES, 1993:05).
Até o início da década de 60, a Itatiaia baseou sua programação sobre dois pilares: esporte e jornalismo, a partir de grandes coberturas locais e internacionais. No final de 1960, a emissora decidiu ampliar sua programação, com a criação de quadros musicais voltados para o ouvinte que não tinha tanto interesse pelo noticiário e pelo futebol. Na década de 70, a Rádio Itatiaia já estava consolidada como emissora importante no cenário radiofônico mineiro, mas só no final da década de 80 conseguiu chegar ao primeiro lugar de audiência.
Muitos episódios da vida e do trabalho de Januário Carneiro merecem ser contados, mas vou destacar apenas um, que inclusive é título de um livro, Habla, Señor, de André Carvalho e Kao Martins. Em 1959, a Rádio Itatiaia preparava-se para realizar com exclusividade a primeira transmissão internacional do rádio mineiro.
Uma pequena equipe viajou para a Argentina, para cobrir a abertura do Campeonato Sul-Americano de Futebol, jogo entre Brasil e Peru. Nos estúdios da Itatiaia, em Belo Horizonte, era grande a expectativa com a transmissão, que todos sabiam ser histórica. Para abrir solenemente a cobertura, Januário encheu o peito e falou ao microfone: “Senhores ouvintes, boa noite. Este boa noite significa o grito de independência do rádio mineiro. Depois de quase 35 anos de existência, o rádio de Minas faz hoje a sua primeira transmissão própria de caráter internacional. Estamos falando de Buenos Aires, de onde vamos transmitir o jogo de abertura do Campeonato sul-americano de Futebol, entre Brasil e Peru.” (CARVALHO e MARTINS,  1992:09)
Januário fez uma pausa e, antes de continuar, ouviu a voz da telefonista: “Habla, señor. Por que no hablas, señor?” Sem entender nada, Januário repetiu sua abertura, que escrevera com tanto carinho. O pessoal da equipe se assustou quando o chefe começou tudo de novo. E a telefonista continuava : “Por que no hablas, señor? Por que no hablas, señor?” Nos estúdios, em Belo Horizonte, o locutor de plantão aguardava a voz de Januário, sem imaginar o que estava acontecendo. Januário gritou para a telefonista que estava “hablando”, mas nada acontecia. O tempo foi passando, as equipes começaram a se aquecer no gramado e a transmissão não se concretizava. “Será que tantas semanas de trabalho serão perdidas? Será que o sonho cairá por terra?”, pensava Januário. Por fim, descobriu-se o problema: Januário não conseguia “hablar” porque não havia ligado o microfone. Ligado o botão, foi feita, enfim, a primeira transmissão internacional própria do rádio mineiro.
Sites relacionados:
http://www.cm-pontedelima.pt/
www.itatiaia.com.br


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Por Nair Prata

Jornalista formada pela UFMG, Mestre em Comunicação pela Universidade de São Marcos e Doutora em Língua Aplicada pela UFMG. Trabalhos 18 anos em rádio. É professora do Centro Universitário de Belo Horizonte onde leciona no Curso de Jornalismo. Escritora, tem vários livros publicados.
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