… E eu sobrevivi a Glauber Rocha

Carlos Braga Mueller

Glauber. Acervo Tempo

A Editora Objetiva lançou em outubro o prometido livro “A Primavera do Dragão”, uma exaltação ao cineasta Glauber Rocha, escrita por Nelson Motta, autor também, entre outras obras, de “Noites Tropicais”, uma crônica da música popular brasileira, e de “Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia”, um relato muito pessoal da vida atribulada deste cantor. Nem bem o livro foi pré-lançado, com exemplares-cortesia enviados pela Objetiva a pessoas que conviveram com Glauber Rocha e que, por isso, são personagens da história, o autor começou a ser apedrejado pelos remanescentes de um grupo baiano dos anos 50, do qual Glauber Rocha fazia parte na juventude.  Mentiras, disseram alguns; invenção, asseveraram outros, sobre o texto de Motta…

Nelson Motta sentiu o petardo, mas não se abalou. Até curvou-se ao admitir que não queria escrever uma biografia, mesmo que parcial, do grande cineasta baiano, mas apenas contar fatos interessantes de um período da vida de Glauber Rocha (a história só avança até o Festival de Cannes de 1964, no qual “Deus e o Diabo na Terra do Sol” concorre à Palma de Ouro de Melhor Filme, disputa o prêmio com “Vidas Secas” de Nelson Pereira dos Santos, e acaba perdendo para “Os Guarda Chuvas do Amor” de Jacques Demy).

Munido de entrevistas gravadas há 20 anos, Motta comprova que o que conta pode até não ser verdade, mas foi o que os personagens da história contaram um dia para ele. Não há como negar que o autor escreve muitíssimo bem e cativa os leitores. Mas o que o livro traz também, além de fatos ainda desconhecidos da maioria, são algumas fotos inéditas do genial diretor brasileiro, das fases quase sempre críticas da curta vida que viveu.

Os tempos de rádio de Glauber

Se na juventude acompanhei as peripécias cinematográficas de Glauber Rocha, é porque sempre me identifiquei com a data em que ele nasceu: 14 de março de 1939. Isto porque, exatamente 52 dias depois eu nascia. Então, éramos contemporâneos mesmo!
Mas as coincidências não param por aí.

Lendo o livro, descubro que Glauber, adolescente,  assistia aos domingos no Cine Conquista, de Vitória da Conquista, sua terra natal, os bang-bangs e seriados de bandidos e mocinhos, os mesmos que eu via em Blumenau, no tradicional Cine Busch.

E de tanto gostar de cinema, ambos acabamos apresentando programas de rádio voltados para a chamada “sétima arte”, o cinema!
Aos 15 anos Glauber Rocha, já morando em Salvador, apresentou durante algum tempo na Rádio Excelsior, às terças-feiras a tarde, o programa “Cinema em Close Up”, onde falava sobre os filmes em cartaz, divulgava a programação dos cinemas e lia noticiário sobre filmes e artistas.

Eu, com 14 anos comecei em rádio apresentando o programa “Cine Atualidades” na PRC-4 Rádio Clube de Blumenau, onde coincidentemente eu falava sobre os filmes em cartaz, divulgava a programação dos cines Busch, Blumenau, Garcia e Mock, lia noticiário sobre filmes e artistas do cinema. E o programa daqui era apresentado também  às terças-feiras, só que a noite!
Se Glauber sonhava com filmes, eu sonhava com filmes também.

Resultado:  antes de concretizar o sonho de ter uma câmera na mão, quando alugou a primeira filmadora e produziu o documentário “Pátio”, Glauber exultou  ao constatar que o CEPA – Círculo de Estudos Permanentes em Ação comprara um velho projetor tcheco de 16 mm, com o qual os seus associados começaram a assistir, e discutir, alguns filmes em Salvador.

Eu exultei quando consegui comprar um modesto projetor de 16 mm da marca Movicor para exibir em casa os filmes que alugava do Sr. Willy Sievert, que mantinha uma filmoteca na sua casa comercial.

E acabei sendo um dos fundadores do Cineclube Carlitos, de Blumenau. Se Glauber conseguiu sucesso fazendo filmes, seu sonho maior, eu também fiquei feliz quando, anos depois, gerenciei cinemas. Mas que pretensão a minha:  querer traçar um paralelo com uma dignidade cultural como Glauber!

É verdade. Quem sou eu!

Mas o que se demonstra, e isto me veio a lembrança lendo “A Primavera do Dragão”, é que se vive feliz fazendo aquilo que se gosta de fazer. Se Glauber morreu jovem, aos 42 anos, mesmo assombrado por embates com a ditadura militar e por problemas psíquicos, o importante é que, filmando (uma idéia na cabeça e uma câmera na mão), nos deixou um acervo cinematográfico pequeno mas significativo, produzido com muita eficiência e amor. Acho que muitos dos que me lêm agora também se identificarão, em algum momento, com a vida e a época de Glauber, descritas no livro  “A Primavera do Dragão”.

O lançamento desse livro é uma homenagem aos 30 anos da morte do cineasta.

Como integrante da classe de 1939, posso dizer: … eu sobrevivi a Glauber Rocha!

Categorias: , Tags: , , ,

Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *