Raiz da violência contra a mulher

No Brasil a cada 15 segundos uma mulher é agredida. E o fato de que a cada 18 minutos uma mulher é espancada nos Estados Unidos não ameniza o que fazemos.
Ivaldino Tasca
A violência contra a mulher tem raízes mais profundas do que minha ignorância imaginava. Há cerca de um ano o martelar de denúncias, como essas da semana que passou, despertou minha curiosidade e bastou rápida olhada na história da humanidade para constatar a tragédia que vigora. É algo que remonta à invenção da agricultura e a domesticação dos bichos, quando o homem constata que é ele quem coloca a semente para a mulher gerar vida. No macho, até então gentil, cresce a unha: ele assume o controle, sua opinião vira lei, na marra. E passa a escrever todas as regras, inclusive em nome de Deus, como senhor que espera ser obedecido sem contestação.

Quando os sumérios (2.000 a.C.) legislam que “a mulher que se negar ao dever conjugal deverá ser atirada ao rio” dão partida ao processo insano que persiste. Em coro afinado os machos colocam as fêmeas em situação de extremo constrangimento. “A mulher é o que há de mais corrupto e corruptível no mundo”, disse Confúcio (520 a.C.), filósofo chinês. Sócrates, da decantada civilização grega amplia: “Deve-se temer mais o amor da mulher, do que o ódio do homem.” Aristóteles, outro grego famoso completou: “A natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem inferior”. Outros, também tidos como grandes, disseram dessas barbaridades: Lutero, Rousseau, Montaigne, La Bruyére, Baudelaire, Voltaire, Kant, Hegel…

Como isso vai repercutindo na cabeça das pessoas na caminhada terrestre? Hoje o resultado é perverso. Com a força dos ensinamentos das religiões escritos por homens – judaísmo (Torá), cristianismo (Bíblia), islamismo (Corão) – a mulher fica em posição subalterna e torna-se sinônimo de pecado. Há algo mais cruel? Se a mulher não pecasse ainda estaríamos no paraíso! Há pregação sobre mudanças ao longo da história, mas o estrago se perpetua. O homem sempre tem uma desculpa esfarrapada para bater!

Depois de Eva comer a maçã e de Pandora abrir a caixa de todos os males o inquisidor da Idade Média não usa subterfúgio: a mulher encarna o demônio. Assim, sem meias palavras, milhares foram queimadas em nome de Deus. E o que dizer dos pés atrofiados das mulheres da China? E sobre a viúva cremada com o marido, na Índia? E a respeito da extirpação do clitóris de africanas e asiáticas?

Como chegamos ao terceiro milênio? Antes de fincar o olhar cínico em Uganda, Moçambique, Afeganistão, Paquistão, Somália, Birmânia registre-se que as mulheres são violentadas física, sexual e psicologicamente em todos os países da América Latina, independente de sua origem social, racial e étnica, conforme o estudo “Nem uma a mais! O direito de viver uma vida livre da violência na América Latina” apresentado na Cepal aos dirigentes da ONU. Ironia: entre os que pediam igualdade de gênero está Mao Tse Tung (pedófilo que fazia sexo mesmo tendo doença venérea) e por isso mais da metade dos 65 milhões de vitimas do genocídio que patrocinou era do sexo feminino.

Ah, sim, e no Velho Mundo hipócrita? Mencione-se que, na Europa, só em Portugal as mulheres são mais espancadas do que as suecas. Pela estatística, metade das portuguesas foi surrada pelo menos uma vez na vida. E a França romântica? Na França, 95% das vítimas de violência são mulheres; 51% são agredidas pelos próprios maridos.

E nós, brasileiros? Bem, não temos do que nos orgulhar: no Brasil a cada 15 segundos uma mulher é agredida. E o fato de que a cada 18 minutos uma mulher é espancada nos Estados Unidos não ameniza o que fazemos. A pergunta é: como se faz para extirpar algo que se tornou doentiamente endêmico?

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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