Tecnologia, progresso, humanidade

Rodolpho Motta Lima *

Foi  Chaplin quem  cunhou, em belíssimo discurso que finaliza o filme  “O Grande Ditador” (1940),   a frase exortativa: “Não sois máquinas, homens é que sois!”. Tais palavras revelavam o pressentir  dos paradoxais perigos do progresso,  então marcado pela  presença das novas máquinas , não apenas as de guerra, mas as que, na “terceira revolução industrial”, ameaçavam , mais do que anteriormente,  substituir  tarefas humanas, com  as evidentes “vantagens” para os capitalistas e as previsíveis perdas para os operários. Aquele era, obviamente, um contexto bem diferente do que hoje experimentamos, mas, até porque os gênios são mesmo  premonitórios,  a frase, vista sob a ótica contemporânea, não perdeu atualidade e, certamente, mereceria estar presente, hoje,  nos introitos de todas as constituições do mundo,  em cada rua das cidades do globo, em cada cômodo de todas as casas do planeta, ao mesmo tempo como uma advertência e como uma exortação.

O que estamos deixando de herança para as gerações que virão? Que legado o mundo de hoje está preparando para os nossos filhos, netos e bisnetos? Em que medida se estabelece um efetivo compromisso entre as conquistas do progresso e o crescimento dos seres humanos? Será que, acima de qualquer reflexão, temos mesmo que identificar cegamente  o crescimento tecnológico com o crescimento da humanidade? Há ou não há o que discutir a respeito?

Só um empedernido jurássico negaria, em termos absolutos, aplausos aos avanços tecnológicos dos tempos atuais, verdadeiros milagres que a inventiva humana vem   disseminando pelo  planeta em escala exponencial. Não há como rejeitar  esses avanços,  principalmente quando voltados para o campo da saúde, do aprimoramento da qualidade de vida.  Mas há a outra face dessa moeda. A sede mercadológica dos  ganhos crescentes, gerando obsolescências progressivas  e provocando/estimulando/impondo renovações constantes do consumo,  dissemina o supérfluo pelo planeta e,  como consequência, um lixo tecnológico que deteriora as condições saudáveis do mundo, principalmente para o futuro.  E esse processo , dados seus  objetivos, nos acena com um moto contínuo, apontando para uma tragédia anunciada.

Estamos ou não exagerando? Precisamos mesmo dessa parafernália de coisas que se  oferecem ao consumo nosso de cada dia, e a cada segundo? Temos mesmo que promover o descarte do que está funcionando e cumprindo seus objetivos, apenas porque surgiu algo rotulado de “novo”, que nos colocará, diante dos outros, como alguém ”diferenciado”?  Precisamos ser assim diferenciados pelo ter, pelo possuir?  É disso que necessita a humanidade para crescer? É valido um crescimento que sepulta valores mais caros em nome das exigências    de um mercado sequioso pelo lucro e calcado no desapego ao ser  humano?

Não estará em curso paradoxal  um progressivo   empobrecimento humano em meio ao enriquecimento da tecnologia , pela  excessiva dependência assumida por indivíduos que elegem a máquina como sua companhia permanente, em detrimento até das mais caras relações afetivas?  Quem de nós ainda não assistiu à lastimável cena de pessoas que, lado a lado, deixam de se comunicar para interagir tão somente com  o computador,com o celular? Ocupados com o celular, com o tablet, o  Ipad, o Ipod , vinculados freneticamente ao twitter, ao orkut, ao facebook, muitos de nós , na ânsia de capturar cada momento, queremos  aprisionar a realidade a cada segundo, mas esquecemos de refletir sobre ela, de vivê-la.

Recentemente,  ao provocar  uma discussão com alguns alunos sobre o atual nível da participação dos jovens nos problemas nacionais, ouvi deles a confissão de que se admitiam alienados em relação a isso. Provocando-os, refutei-os, ao mencionar o fato de que sua participação existia, sim, nas diversas redes sociais.  Ouvi de um deles, com a aprovação dos demais,  uma seca argumentação: “ O que temos nas redes é muita exposição e pouquíssima ação”. Prosseguindo o debate, prevaleceu o reconhecimento, por parte do grupo,  de que a máquina  estava provocando, na realidade, uma imensa passividade…

Nossas crianças, nativos digitais, já nascem  interagindo com as máquinas. É  surpreendente – até admirável –  verificar a facilidade com que o fazem . Mas é somente isso que queremos delas?  Queremos crianças tecnológicas, que desconsiderem , como sepultados , todos os seculares hábitos da infância, inclusive os de socialização?  Que tipo de sociedade desejamos para os descendentes?

É claro que não se quer a volta ao passado, nem se pretende , aqui, demonizar o progresso, ou  as máquinas. Afinal, máquinas  jamais serão culpadas dos males que possam vir a gerar , porque os responsáveis somos nós mesmos, seus inventores, os homens, com o uso que fazemos delas ou que permitimos que tenham.

Voltando a Chaplin, e copiando-o acintosamente, “criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela”. A inteligência humana pode e deve reagir a isso. A educação deve entrar aí, preparando as pessoas para algo mais do que o aprendizado tecnológico ou profissional. Deve prevenir sobre os perigos de uma vida robotizada, fútil, esvaziada de afetos, tendente à solidão e à depressão. Ela deve priorizar valores como a paz, a convivência, os cuidados ecológicos, a superação das desigualdades e injustiças, a fraternidade.  O de que precisamos, hoje, e com urgência, é de humanidade. E essa também é uma frase que está lá, no formidável discurso do adorável vagabundo…

*  Advogado formado pela UFRJ-RJ (antiga Universidade de Brasil) e professor de Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, formado pela UERJ , com atividade em diversas instituições do Rio de Janeiro. Com militância política nos anos da ditadura, particularmente no movimento estudantil. Funcionário aposentado do Banco do Brasil.

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