32 Locutor a força

De locutor a dublador
Washington, D.C. nas décadas de 70 e 80,  foi um período conturbado politicamente – e quando é que não foi? – mas muito tranquilo para se viver e ganhar dinheiro.
Por Aguinaldo José de Souza Filho

A ‘colônia de jornalistas/radialistas brasileira era praticamente limitada a um grupo reduzido de profissionais  – nós da Voz da América. Abundavam narrações e dublagens na capital norte-americana, assim como em outros cantos da costa leste dos Estados Unidos. Como free-lancer, José Roberto Dias Leme, um dos pioneiros da VOA, fuçava tudo que podia cheirar a gravação, o que nos levava regularmente a estúdios em Washington, D.C. e principalmente a Nova York.
Era rara a semana que não estávamos a caminho de N.Y. de carro ou na ponte aérea. Quatro horas de carro ou 50 minutos de avião. No início dos anos 80 fui convidado a ir a Akron, Ohio, para um teste de voz. A partir dessa data eu passava um fim de semana por mês em Akron dublando o pastor evangélico Rex Humbard, e às quintas-feiras ia a N.Y. para dublar Ben Kinchlow, o braço direito do titular do Clube 700, Pat Robertson, que era dublado por Ricardo Gardeazabal Neves – o que me fechou a vaga em Tóquio e me tomou a vaga na VOA, mas que acabamos trabalhando juntos por muito tempo.

Akron, a antiga capital da borracha, mais ou menos o equivalente a Manaus no tempo áureo da borracha, ficou também meio abandonada, com casarões fabulosos fechadas e mofando. Foram cinco anos com essa rotina, até Rex Humbard se afastar do Brasil por motivos que até hoje desconheço. Desaparecia a galinha dos ovos de ouro. Dizem que quando Deus fecha a porta sempre deixa uma janela aberta.
Surgiu no cenário Moris Cerullo, um pastor judeu carismático, que gritava pelos quatro cantos do mundo. Dublá-lo significava ficar sem voz por dois a três dias. Logo no primeiro show ele anunciou a sua audiência: “Jesus me mandou ficar no Brasil até sua segunda volta”. Imediatamente pensei que havia conseguido emprego para o resto da vida… Seis meses mais tarde ele tirava seus show do ar! No fim de 1986 um desastre – o divórcio bateu à minha porta!
Um momento de decisão se apresentou. a ex-esposa trabalhava no mesmo prédio, os encontros quase que diários eram uma realidade e inconfortáveis. Depois de quase 14 anos na VOA decidi que era hora de – move on! Como fotografia sempre foi um hobby desde a infância, nada mais lógico que um curso superior do assunto. A minha pesquisa me levou para a melhor escola de fotografia dos Estados Unidos, Brooks Instituto de Fotografia, na Califórnia. Quatro anos depois, com um
curso superior de cinematografia, fui bater nas portas dos estúdios de cinema em Los Angeles.
Passei um ano dando aulas de leis de transito da Califórnia e gastando sola de sapato. Entra em cena Ted Turner, fundador da CNN, que estava lançando a TNT para a América Latina e estavam procurando profissionais que soubessem redigir, produzir e narrar em português. “Hmmm, estão me procurando”, pensei cheio de confiança. Mandei cartas para todos os nomes de executivos citados no artigo do jornal. Como eu não havia parado de fazer vozes – começava a me enturmar com os estúdios de gravações de Los Angeles – eu costumava mandar cartões promocionais para todos os estúdios no país, oferecendo meus serviços. Algumas semanas mais tarde,  o então diretor criativo da TNT-Latin América, Luis Estrada, ao terminar um trabalho de post-production num estúdio particular, mencionou ao editor que procurava produtores e locutores brasileiros para a TNT. O editor lhe entregou um dos meus cartões promocionais que alguém havia deixado ali.
Imaginem só, e eu sabia que não havia mandado para aquele estúdio!  Luis me telefonou e passei a gravar algumas chamadas para a TNT, até o dia que ele me convidou a ir a Atlanta para uma entrevista. Em dezembro de 1990 comecei a minha carreira na televisão americana como produtor criativo e a voz da estação, o que durou dez anos, tendo sido um dos fundadores da TNT, começando dia 11 de dezembro de 1990, e a estação foi ao ar no dia 29 de janeiro de 1991, quando da primeira guerra do golfo.
Entre as chamadas (promos) e outras vozes, eu era também o tradutor simultâneo de todos os Award Shows da estação, como o American Music Awards, os Gremmys, Emys, Dove, SAG Awards, todos ao lado da admirável Laura Lustosa, que eu conheci ao lhe contratar para fazer uma  narração em Los Angeles. Laura hoje brilha nas novelas da Globo, como Mulheres Apaixonadas, entre outras. TNT foi uma fonte infinita de experiências e crescimento como radialista dentro do mundo da televisão.


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1 responder
  1. Osmar Couto says:

    Ter dublado o tele-evangelista Rex Humbard por tanto tempo (6 anos) teve algum tipo de influencia religiosa em sua vida. ? Muito agradecido por respoder.

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