Memórias da rádio de vanguarda

Paulo Clóvis Schmitz | Perfil | ND | Carminatti Júnior

Foto: Janine Turco/ND

Carminatti, direto da Boate Plaza, 1955. Acervo Caros Ouvintes

A voz privilegiada foi a senha para o primeiro emprego de Florentino Carminatti Júnior, em 1953, quando ele superou outros oito postulantes e conquistou a vaga de locutor na Rádio Guarujá. A comissão que o elegeu era composta pelos veteranos radialistas Acy Cabral Teive, Aldo Silva e Oscar Berendt, que desconsideraram a falta de experiência do candidato, seus 16 anos de idade e o fato de ainda estar cursando o científico do Colégio Catarinense. Era o início de uma carreira que incluiu também passagens por Joinville (rádios Colon e Cultura), Blumenau (Clube e Nereu Ramos) e Curitiba (rádio Colombo, onde ele apresentou Nos Bastidores da Música, o primeiro programa de disc-jóquei do Brasil). Em 1955, a Diário da Manhã inovou ao investir no radioteatro, gênero que tinha audiência similar às das telenovelas nos dias de hoje. Para lá foram muitos profissionais de outras rádios, que passaram a atuar em ovelhas de Janete Clair e Gustavo Neves Filho. Quem ficou na locução cumpria uma rotina comum aos comunicadores daquele tempo: escrevia e apresentava os próprios programas. Carminatti Júnior tinha os seus, como Itália Eterna, o primeiro do Brasil falado em idioma italiano, Relembrando, com coisas do folclore gaúcho, Rosa de Tangos e duas atrações que marcaram época, Quando a Cidade Adormece e Ritmos da Madrugada – este transmitido diretamente do Sabino’s Bar do pianista Luiz Fernando Sabino, no ático do edifício IPASE, na Praça Pereira Oliveira. Daquela fase, ele guarda lembrança da perfeição das novelas e das “atrizes e atores maravilhosos” que entravam, pelas ondas do rádio, na casa das pessoas. E cita grandes figuras como José Nazareno Coelho, Souza Miranda, Antunes Severo, Darci Costa e Cláudio Alvim Barbosa, o Zininho, que trabalhava na sonoplastia da Guarujá.

Aposta na carreira jurídica

Enquanto vivia os dias gloriosos do rádio, Carminatti Júnior cuidou do futuro e fez a faculdade de direito e ciências neolatinas. Depois foi superintendente da exportadora de couros Belgabras; em São Paulo, trabalhou como consultor jurídico da Fundição Tupy, deu aulas na faculdade de Economia e na Fundação Ana Maria Harger, ambas em Joinville.

Também passou pela Secretaria de Comunicação da presidência da República e foi consultor da Fundação Roquette-Pinto e da Rádio MEC.

No primeiro retorno a Florianópolis, sua cidade natal, em 1967, Carminatti construiu o Bem Bolado, boliche com nove pistas na subida do Morro da Cruz e empregou-se na Celesc como advogado. Mudou-se depois para Blumenau, onde morou durante 12 anos e trabalhou na TV Coligadas, a primeira televisão do Estado, na Artex e na Eletro Aço Altona, como chefe da área de exportações. Voltou a residir na Capital em 1979, advogando e atuando junto ao Besc (Banco do Estado de Santa Catarina). Por fim, prestou concurso e foi aprovado para o cargo de procurador geral do Estado e da Fazenda junto ao Tribunal de Contas, onde se aposentou. Hoje, ainda exerce a advocacia, junto à Justiça Federal e aos tribunais superiores.

Ouvinte não é levado em conta

Florentino Carminatti Júnior tem um pendor literário, expresso no livro de poemas Sol de Sal e no volume de crônicas Brasil meio século de Imprensa – A era do Rádio e reminiscências da cidade. No momento, prepara o terceiro, Contos do dia, versos da noite, com poesias, crônicas, histórias jocosas do rádio e da televisão e relatos de casos jurídicos. Como leitor, mescla os franceses Guy de Maupassant e Victor Hugo com os chilenos Pablo Neruda e Gabriela Mistral, e também não abre mão de Fernando Pessoa e Ferreira Gullar.

A família tem origens nas regiões de Bergamo e Carmona, na Itália, e se instalou no Saco dos Limões em 1864. O bisavô de Florentino comprou uma grande chácara que ia da Vila Operária até perto da atual igreja do Bairro, que depois foi loteada e vendida aos poucos pelo avô Francesco Carminatti. Aos75 anos com três filhos e três netos ele lamenta que o rádio atual seja mais frio e computadorizado. Hoje não é o ouvinte que determina a programação, constata. Mesmo assim, curte as FMs Antena 1 e Itapema embora admita que estão muito longe do que deveriam ser.

Na sua opinião o rádio tem as sublimes missões de transformar o ouvinte num ser humano melhor e aprimorar a cultura do povo.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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