50 ANOS DA RÁDIO GUAÍBA: FLÁVIO ALCARAZ GOMES

Lá pelas tantas em sua longa e algo atribulada vida, o jornalista – ele prefere a palavra “repórter” – Flávio Alcaraz Gomes cismou em andar pelos campos dos antepassados. Era a volta às origens. Dizem que todo ibérico tem um lado Quijote e outro Sancho. Talvez, do primeiro, tenham vindo algumas aventuras perseguidas nos horizontes do Flávio. Por Luiz Artur Ferraretto

A maior delas, sem dúvida, a da Guaíba, aquela das grandes conquistas, das coberturas internacionais, do som privilegiado e de um profundo bom gosto. Esta é a rádio do Flávio, diretor comercial lá pelos primeiros anos da emissora ligada, então, aos jornais Correio do Povo, Folha da Tarde e, tempos depois, à Folha da Manhã. Diretor comercial, diga-se de passagem, algo metido para os assépticos padrões administrativos de hoje. Diretor comercial que pensa e interfere muito com várias bem-sucedidas idéias no dia-a-dia da rádio e criações na programação.


Mendes e Flávio na Copa da Suécia.

É dele o Trabalhando com Música, inspirado no Travaillant en Musique, da Radiodifusion Française, que o Flávio conheceu nos anos passados às margens do Sena, quando foi descobrir se o tradutor brasileiro de Ernest Hemingway estava certo ou não. Afinal, tanto faz! A Moveable Feast, no original em inglês, ou Paris é uma Festa, em português. Ah, e o Dê Asas à sua Inteligência, um quiz show réplica do The $64,000 Question, atração televisiva da Columbia Broadcasting System, dos Estados Unidos.  Como a Guaíba não possuía auditório, o programa de perguntas e respostas ocupava o intervalo entre a primeira e a segunda sessões das noites de terça-feira no Cinema Imperial. E lá está a Cidade Luz de novo. Como a Guaíba não tinha verba para prêmios milionários, o Flávio negociou passagens aéreas com a Panair do Brasil. A cada etapa ultrapassada, o patrocinador oferecia viagens para capitais de estados cada vez mais distantes até chegar ao prêmio máximo – e internacional –, Paris, com as despesas de transporte aéreo e de estada pagas. Apresentado por Jorge Alberto Mendes Ribeiro, o Dê Asas é, na época, como o Flávio lembraria, na sua coluna do Correio do Povo, “um sucesso de arrasa-quarteirão”.
São só dois exemplos. Óbvio que tem mais. Há a cobertura da Copa do Mundo de 1958, o som da torcida sueca na final, ecoando no estádio – “Eia Eia Svenska! Eia Eia Sverige!”– e chegando ao Brasil pela novata Guaíba, que mal completara um ano. E, depois, gol a gol, a primeira conquista, quatro anos de Taça Jules Rimet em terras tupiniquins. E vieram outras copas, outros conflitos, menos alegres, menos festivos…


Flávio na Guerra do Vietnã.

Sangue nas areias do Oriente Médio. Guerra do Seis Dias. Sangue nas selvas asiáticas. Guerra do Vietnã. Pedras e gás lacrimogênio nas ruas de Paris. Paris, maio de 1968. Uma fantástica conquista, o ser humano na Lua, visto por um pequeno monitor no centro de imprensa montado pela Nasa:
– Nós divisamos apenas a sua silhueta, mas não há dúvida nenhuma: é uma silhueta de um bípede, de um homem, de um homem como nós, de um representante da espécie humana tomando posse, em nome da humanidade, da Lua!


Anúncio da Rádio Guaíba (maio de 1968).

E mais guerras como a do Yom Kipur. Tensão em Montevidéu com o seqüestro do cônsul Aluísio Dias Gomide. Ah, e os programas. Quem viveu no final dos 60, primeira metade dos 70, lembra, com certeza, do 2001. O Flávio, esperto como só ele, aproveita o sucesso do filme 2001: uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, para dar nome a um quase documentário de teor didático. Explora recursos radiofônicos e, por vezes, recorre à entrevista como único instrumento. Marca época a abertura do 2001 com uma espécie de bordão do programa, em texto e sonoplastia, fechando a breve introdução do assunto do dia:
– …para os que nos ouvem hoje e para os que nos ouvirão mesmo depois de…
E, após uma pausa, para que se escute o mesmo trecho de Also sprach Zarathustra, de Richard Strauss, usado nas cenas iniciais da produção cinematográfica de Kubrick:
– … 2001.
Tem também o Agora, uma revolução no rádio do Rio Grande do Sul, com o Flávio dividindo microfone com Adroaldo Streck e introduzindo, no cotidiano das emissoras do Rio Grande do Sul, a participação – ao vivo ou gravada – de entrevistados, repórteres e correspondentes, por telefone ou no estúdio.
 
Pois é, quando a Guaíba surgiu o Flávio estava lá no Theatro São Pedro, assistindo à inauguração com seus quase 30 anos de idade. Hoje, cinco décadas depois, segue, com a mesma vitalidade, de ficar nervoso em casa nos feriados e finais de semana, quando não comanda o seus Guerrilheiros da Notícia. Segue acordando cedo, descendo o morro Santa Tereza, onde está sua casa, e, de segunda a sexta, fazendo a história dos protagonistas dos fatos, dos ouvintes e de si próprio. Com a mesma vitalidade de sua coluna no Correio do Povo e da outra versão dos Guerrilheiros, a da televisão. Prova de que, naquela viagem de volta às raízes ibéricas, seu primo Constantino tinha mesmo razão. Como ele dizia, os Alcaraz são mesmo de “buena madera”. E sem o Flávio não haveria um porquê de ser a Guaíba, a dos 720 Khz com aquele som que só a Guaíba tem, uma tradição do Rio Grande do Sul.

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