50 ANOS DA RÁDIO GUAÍBA: OSMAR MELETTI E FERNANDO VERONEZI

O gosto musical era mesmo o de Breno Caldas, mas a precisa escolha de intérpretes e orquestrações passava por Osmar Meletti e Fernando Veronezi, este último ainda hoje por lá em uma sala atulhada de discos. Desta combinação, em cinco décadas, a música da Guaíba transforma-se em um estilo próprio de veiculação, um segmento à parte, corporificado nos últimos anos na programação da emissora em freqüência modulada inaugurada em 1980. Por Luiz Artur Ferraretto

Na velha Guaíba, aquela dos primeiros anos, a seleção musical baseada em orquestrações conferia ainda mais credibilidade na associação da emissora ao tradicional e austero Correio do Povo. Daquela música da Guaíba, denominação genérica deste tipo de conteúdo na então ZYU-58, não fazia parte nem mesmo o sucesso do quarteto inglês The Beatles, uma novidade na primeira metade da década de 60. De fato, as canções do grupo vão ser executadas somente após uma autorização do diretor da rádio, Arlindo Pasqualini, e, assim mesmo, incluídas apenas nos programas em que Meletti ou Veronezi, além de rodarem músicas, fazem comentários sobre o assunto e entrevistam artistas locais ou de passagem pela cidade, inclusive do cinema, do teatro, da literatura e das artes em geral.
A mais importante destas atrações estréia em março de 1963. É o Discorama, apresentado por Osmar Meletti. Na abertura, serve de característica ao programa O Barquinho, com a música de Roberto Boscoli sem a letra de Roberto Menescal transformada em sucesso por João Gilberto. Discorama vai marcar as tardes de segunda a sexta-feira, trazendo para o estúdio gente como o maestro francês Paul Mauriat, que chega a dedilhar músicas, ao vivo, no piano da rádio, ou o cantor italiano Sergio Endrigo, a responder em português às questões propostas por Meletti.


Osmar Meletti (1958)

Com freqüência, o radialista, abrindo espaço sempre à cultura brasileira, convida, também, intérpretes e compositores nacionais – Agostinho dos Santos, Beth Carvalho, Carlos Lyra, Clara Nunes, Dalva de Oliveira, Dick Farney, Elis Regina,
Elizete Cardoso, Lupicínio Rodrigues, Tito Madi… –, além de ser o responsável pela transmissão do primeiro grande festival de música regionalista, a Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul, de Uruguaiana. O Discorama, fato raro para um programa dedicado à música, conquista ainda o primeiro lugar do Prêmio ARI de Jornalismo no ano de 1977 com uma homenagem ao escritor gaúcho Erico Verissimo.
Colega de Meletti durante anos, inclusive na Gaúcha, de onde ambos se transferiram para a Guaíba, Fernando Veronezi, como registrou o Correio do Povo nos 45 anos da emissora, é uma espécie de guardião da memória musical da rádio. Em várias ocasiões, como em 1961, 1962 e 1963, recebeu o prêmio de Melhor Sonoplasta. No ano de 1994, foi condecorado pelo prefeito da capital gaúcha, Tarso Genro, com a medalha Cidade de Porto Alegre, em função do seu trabalho de pesquisa musical.


Fernando Veronezi (1997)

Responsável pela programação da Guaíba FM, para onde a música se transferiu com o crescimento do jornalismo nos 720 kHz da estação em amplitude modulada, Veronezi parece fazer jus a uma frase sua:
– Nasci dentro de uma vitrola.
É claro que não se tratava de uma vitrola qualquer, a julgar pela Música da Guaíba, que se escreva assim mesmo, com maiúscula a indicar o denominativo de um estilo próprio, aquele de Osmar Meletti e deste Fernando Veronezi, ensinando música, ainda hoje, com seu Noturno Guaíba, de segunda a sexta, da meia-noite à 1h, lá na Guaíba, a dos 720 kHz, que completou 50 anos de funcionamento neste ano de 2007.

5 respostas
  1. Paulo says:

    Acredito que como eu, eles estejam com o coração em frangalhos ao verem incompetentes de baixo nível tripudiarem em cima da qualidade que foi sedimentada em 52 anos. Eu cresci ouvindo a Guaíba, ouvia a Guaíba FM desde o primeiro dia e estou pasmo, ainda não consegui aceitar o que fizeram. Realmente esse é um vácuo criado que não sei ainda como será preenchido. Estamos na era do mau-gosto total, e pessoas como eu são “dinossauros” já na fase final da extinção. Basta ouvir a “nova” Guaíba…

  2. Ademar Petry says:

    Paulo ,

    Concordo plenamete contigo, pois acabaram com um gênero musical que nos fazia sentir bem, e com essa nova administração da Guaiba FM, simplesmente acabaram com os bons momentos de música apreciável.

    Estou fazendo a minha parte, pois onde posso faço minha crítica, só que esse pessoal que está na Guaiba FM, nenhum respeito tiveram por quem fez a rádio crescer, pois sequer respondem os apelos para que, pelo menos, em alguns momentos, retomem o padrão inigualável da nossa Guaiba FM.

    Parabéns.

    Se souber de outra rádio que tenhaesse padrão, me retorne.

    Abraço.

    Ademar

  3. Vitor Hugo Grossi says:

    Pobre de nós, Gaúchos. A Rede Record chegou aqui, metendo os pés pelas mãos, na questão da Guaíba FM. Transformaram-na em uma radiozinha qualquer, com as mesmas músicas de todas as outras, com futebol(vejam só!). Com relação ao futebol, quero expressar ao meu repúdio, não ao futebol, mas o fato de a Rádio Guaíba tirar-me a chance de escolha: se eu quiser escutar futebol, escuto a Guaíba AM; se eu quiser escutar música, escuto a Guaíba FM. Não tenho mais este tipo de escolha. É futebol e futebol. Ah, mas e o site da Guáiba FM que eles dizem que posso acessar enquanto tem futebol no rádio? Ora, caso eu esteja dirigindo como fica o tal acesso ao site, já que no carro só tenho rádio e não um computador. Enfim, acabaram com um patrimônio dos Gaúchos. Achavam que estavam mexendo numa rádio qualquer… Saudades da Música da Guaíba!

  4. JOÃO CASTELLO says:

    É lamentável terem retirado do ar o Programa Noturno Guaíba. Conseguiram acabar com um programa de elevada qualidade cultural, remontando à época em que nossa música foi fundamentada, desde os tempos de Carmem Miranda até os nossos dias… Eram noites de romantismo, de paixão e alegria aquelas noites eternas pelas quais percorríamos os caminhos da história da música brasileira e universal. Penso que um verdadeiro estilo guaíba, gabaritado e elegante, está encerrando seu ciclo. Foi-se o Noturno Guaíba, deixando marcado em nosso coração, a lenda VERONEZE! (João Castello, professor e jornalista)

  5. Nilo Peña says:

    Concordo dom todos os comentarios acima, moral da estoria, mudei-me para a Princeza (musica com emoção, fazer o que? ouvi a Guaiba desde os primeiros sinais de fase experimental, na AM e depois na FM, lamentável.

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