83 Anos no ar

O rádio renovado com força digital
O rádio brasileiro chega aos 83 anos com novidades tecnológicas que lhe garantem manter um importante espaço no cardápio da mídia e na vida dos cidadãos.
Luiz Carlos Ramos
Observatório da Imprensa, 27/9/2005

Desde que a primeira transmissão de rádio ocorreu no Brasil, no alto do Corcovado, no Rio, durante as comemorações do Centenário da Independência, muitas coisas mudaram no país e no mundo. O som pioneiro, de tantos chiados, naquele 7 de setembro de 1922 foi do discurso do então presidente Epitácio Pessoa, comprovando que, apesar das mudanças havidas nas décadas seguintes, a política personalista já prevalecia naquele tempo.

A iniciativa de colocar o Brasil no ranking da vanguarda do rádio coube a Edgar Roquette Pinto, que em 1923 lançou a primeira emissora brasileira, a Rádio Sociedade, do Rio. Hoje, em tempos de mensalão e de Café com o presidente, milhares de rádios levam informação, cultura e lazer para milhões de brasileiros, rebatendo previsões de que o surgimento da televisão e da internet acabaria com esse maravilhoso veículo de comunicação.

E mais: se domingo, 25 de setembro, dia do 121º aniversário do nascimento de Roquette Pinto (Rio, 1884-1954), foi mais uma vez comemorado o Dia da Radiodifusão, desta vez há motivos concretos para festas, já que finalmente chegou ao Brasil, após vários adiamentos, o rádio digital – fórmula capaz de dar nova e incrível força às emissoras AM.

O jornalismo, constantemente presente nas rádios desde os anos 1930, também ganha com a novidade. As rádios Bandeirantes, Jovem Pan e Eldorado, de São Paulo, o Sistema Globo de Rádio (CBN e Globo) e o grupo gaúcho RBS começaram na segunda-feira (26/9) os testes de transmissão digital. Inicialmente, a experiência autorizada pelo Ministério das Comunicações está restrita às regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre e Curitiba. O governo deu às rádios pioneiras uma concessão provisória de seis meses, mas com possibilidade de prorrogação. Outras empresas já fazem planos.

Comerciais e comunitárias

Pelo novo sistema, é possível ouvir emissoras AM sem as indesejadas interferências. Ou seja: com a qualidade de som de um rádio FM ou de um CD. A moderna fórmula permite também distribuir o áudio com informações no formato de texto: autor e intérprete de músicas, principais notícias, previsão do tempo, situação do trânsito e outros serviços.

Os novos aparelhos de rádio digital, que estarão à venda dentro de um mês, mostrarão essas informações num visor. Será ainda possível acompanhar a imagem de shows pelo visor, tornando o rádio multimídia: rádio, TV e internet. A previsão é de que o avanço prosseguirá nos próximos cinco anos, rumo à consolidação comercial da novidade.

O presidente da Associação das Emissoras de Rádio do Estado de São Paulo (AESP), Edilberto de Paula Ribeiro, explica que a tecnologia agora adotada no Brasil é a IBOC – sigla de in band on channel. Tal sistema permite difundir os sinais analógico e digital na mesma faixa, sem a necessidade de alocar novos canais para a digitalização. Segundo Edilberto, a fórmula agora usada no Brasil é democrática, pois pode ser operada tanto no modelo digital como no analógico. Não haverá, assim, a aposentadoria dos antigos aparelhos que os brasileiros utilizam há muitos anos.

Outros padrões de rádio digital já usados no mundo são o europeu – DAB (digital audio broadcasting) para FM e DRM (digital radio mondiale) para AM – e o japonês ISDB (integrated services digital broadcasting) ou ISDB-T (terrestrial).

O presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), José Inácio Pizani, comenta que a transmissão digital, já existente nos Estados Unidos, México e Canadá, é uma tendência mundial irreversível e representa uma nova era para o rádio brasileiro: “Essa nova tecnologia permitirá um renascimento da música na rádio AM”, diz.

Francisco Paes de Barros, atual diretor da Rádio Capital, de São Paulo, com mais de 30 anos de experiência no comando das rádios Globo, Record, América, Excelsior (atual CBN) e 9 de Julho, explica que o rádio brasileiro precisava de um grande estímulo, e isto ocorreu com a chegada do sistema digital: “O rádio é um fantástico veículo de comunicação, com história marcante em todo o país. A introdução da nova tecnologia representa um avanço capaz de beneficiar não só o lado musical do rádio, mas também o do jornalismo. Está provado que o rádio instrui e informa as pessoas nos momentos mais importantes”.

Impossível deixar de concordar com Paes de Barros. Já no início da década de 1930, foi pelos microfones da Rádio Record que o locutor César Ladeira incentivava as tropas paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932. Em 1961, quando Jânio Quadros renunciou à presidência e ministros militares ameaçavam impedir a posse do vice-presidente João Goulart, foi constituída no Rio Grande do Sul a Rede da Legalidade, a partir da Rádio Guaíba, exigindo respeito à Constituição.

Os noticiosos das rádios comerciais e das emissoras comunitárias asseguram, hoje em dia, informação a uma grande parcela da população brasileira. E pensar que, em 1950, com a chegada da televisão ao Brasil, e na década de 1990, com a consolidação da internet no mundo, houve pitonisas que anunciassem o iminente fim do rádio…

Conceitos e lições

O rádio, de fato, não acaba: ele se transforma. Transforma-se em todos os sentidos: dos antigos e enormes aparelhos com válvulas dos anos 1930 a 50, que ajudavam os cidadãos brasileiros a acompanhar a transmissão pioneira da Copa do Mundo de 1938 e notícias da Segunda Guerra Mundial, ao pequeno rádio de pilha e ao rádio de automóvel. Como decorrência, as mudanças alcançaram também as técnicas de produção e apresentação, e o estilo dos programas.

O rádio estimula a imaginação. Por isso mesmo, técnicos de som e sonoplastas conseguem milagres com vozes históricas. O rádio brasileiro teve, por exemplo, o tempo das radionovelas e dos programas humorísticos do Rio e de São Paulo, nos anos 1940 e 50, que ajudaram a revelar talentos mais tarde aproveitados na TV. Vão longe os tempos do Repórter Esso, informativo que marcou época. Mas o jornalismo continua vivo no rádio, por mais evidente que seja o critério político de concessão de emissoras e por maior que seja a crise financeira da mídia, responsável pelo enxugamento e empobrecimento de equipes.

Independente dos recursos financeiros das emissoras, fica à disposição dos bons jornalistas de rádio o velho ensinamento do idealista Fernando Vieira de Melo, responsável pelo sucesso da Rádio Jovem Pan a partir dos anos 1970 e pelo lançamento da Rádio Trianon, na década de 1990. “No caso de não haver certeza de que uma informação é correta, a divulgação precipitada pode provocar danos em pessoas, empresas, instituições e governos. Portanto, se houver dúvida, é melhor segurar a notícia até que haja completa segurança sobre ela”, dizia Fernando. Não por acaso, equipes comandadas por ele não incorreram no erro de episódios como o da Escola Base. Fernando faleceu há cinco anos, deixando conceitos, lições e discípulos.

Assalto radiofônico

Na década de 1990, o rádio ganhou o reforço da internet. A informática faz com que internautas do Brasil tenham acesso a emissoras do mundo inteiro. Da mesma forma, emissoras brasileiras podem ser sintonizadas na China ou no Quênia, graças a esse avanço da tecnologia.

Aliás, determinados portais e sites da internet recorrem aos princípios básicos do rádio para veicular informações de modo instantâneo. Sim: agilidade é o forte do rádio. E, neste detalhe, o rádio é copiado ou serve de apoio aos veículos mais modernos.

Quando a Rede Globo interrompe sua programação normal para lançar notícia de última hora, por meio de um apresentador ou apresentadora, o lindo rosto de Fátima Bernardes é mera formalidade. Naquele momento prevalece o estilo rádio: a informação, a voz. E isso já é mesmo suficiente, até que, alguns minutos depois, apareçam as imagens do fato.

A história diz que o rádio começou a ser inventado no fim do século 19, com o alemão Heinrich Hertz, em 1887, e com o italiano Guglielmo Marconi, em 1896. Mas é preciso fazer justiça ao padre brasileiro Roberto Landell de Moura (1861-1928), um gaúcho que fez experiências em Campinas, em 1892. Assim como Alberto Santos Dumont na aviação, Landell de Moura era um homem à frente de seu tempo e sem apoio político e financeiro para divulgar as conquistas.

Em 1922, por influência de Marconi e de Roquette Pinto, a transmissão pioneira do Corcovado acelerou o surgimento de emissoras brasileiras e permanece como ponto de referência para o rádio digital – do presente e do futuro.

Resta esperar que, concomitante ao avanço tecnológico, o rádio cumpra à risca um papel democrático e patriótico, resistindo à constante tentação de favorecer caciques da comunicação que fabricam mitos e destroem esperanças. O jornalismo faccioso, evidente em algumas coberturas e colunas de jornais e revistas, assim como em programas de TV, é também claramente percebido em determinadas emissoras de rádio.

O ouvinte, porém, vai superando a fase de ingenuidade e percebe que, assim como já foi tão enganado por políticos mentirosos, a mentira pode chegar à sua casa ou ao seu carro por meio das ondas hertzianas, as ondas do rádio.

Neste caso, diante de qualquer sinal de assalto radiofônico, o cidadão pode virar as costas sem medo de levar tiro: é só mexer o dedo. Isso mesmo: com um simples dedo, mudar de emissora. Ou desligar o aparelho.


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