90 Minutos de Solidão*

A unanimidade das emissoras que realizaram a cobertura do jogo da Seleção Nacional na última quarta-feira abriu o microfone fazendo uma exigência para a equipe: que entrasse em campo como numa Final, sem deixar para definir o apuramento sob a pressão psicológica dos últimos jogos. A Seleção correspondeu plenamente, como se viu. Mas as transmissões pelo rádio não alcançaram a importância do espetáculo que as próprias emissoras definiram.

O comunicólogo catalão Armand Balsebre, num livro agora lançado, define as transmissões esportivas pelo rádio como uma espécie de “dramaturgia da realidade”. Com isso, quer chamar a atenção para o fato da linguagem radiofônica não servir apenas para transpor uma realidade referencial (o jogo) para o cérebro do ouvinte, mas também para interpretar de uma maneira única, afetiva e estética, os elementos que fazem a grandeza do espetáculo. É o que explica a persistência dos ouvintes de rádio, mesmo diante das telas da TV ou nas arquibancadas dos estádios.

Intuído pelos profissionais, esse aspecto do rádio como meio de expressão – tanto quanto de comunicação – se manifesta hoje numa verdadeira obsessão em imitar o que seria um bem sucedido “estilo brasileiro” de relatar as partidas. Mas, sem a mesma estrutura de apoio com que contam as estrelas das grandes emissoras do Rio de Janeiro e de São Paulo, a imitação de seus trejeitos resulta inócua. A dramaturgia permanece pobre, e a realidade transmitida fica diminuída.

Nenhum desses profissionais imitados do radiojornalismo brasileiro vai para o estádio sozinho, em jogo de seleção nacional. Seja onde for o jogo, terá a seu lado, na cabina, pelo menos um comentarista, que ficará observando os lances sem bola, os conjuntos, para contar o que o relato principal e a imagem da TV deixaram escapar. Repórteres de campo – atrás das balizas – vão dissecar os principais lances, vistos de mais de um ângulo, e captar o som dos protagonistas sempre que houver oportunidade. No estúdio da emissora, o plantão terá por trás um respeitável banco de dados para informar, segundos após um evento qualquer na partida, uma série de fatos que o vão contextualizar na vida do jogador, do técnico, do árbitro ou da equipe.
Para enfrentar a dura concorrência da imagem, o rádio precisa utilizar sua agilidade para informar melhor do que a TV. Comentaristas confinados nos estúdios limitados a ver o jogo pelo televisor, dificilmente podem dizer mais do que aquilo que o torcedor já concluiu.

Condenados a 90 minutos de solidão em Belfast, os profissionais que relataram o jogo de quarta-feira fizeram o que estava a seu alcance: Paulo Sérgio, da TSF, muitas vezes atrasou-se em relação à bola, preocupado em contar sozinho todos os detalhes. Num outro extremo, Nuno Matos, da Antena 1, e Fernando Emílio, da Comercial, preferiam jogar com a voz na frente das palavras, num recurso que funcionaria, para dar conta da rapidez do jogo, se houvesse alguém mais para fazer os contrapontos, completando o sentido. Ribeiro Cristóvão, da Renascença, optou por se resguardar numa calma monotonia, indicada talvez para a audição de cardíacos, não fosse pela absoluta surpresa com que surgem os gols.

O fato da bola ter sido desviada ao tabelar num defensor, no lance do primeiro gol, passou desapercebido em todos os relatos, e só foi recuperado dos estúdios, com o que o público já havia visto na TV. O lance polêmico do jogo – o pênalti – existiu para os ouvintes da TSF, foi absolutamente inexistente para os da Antena 1, e deixou em dúvida os da Comercial, onde o comentador desmentiu o que havia sido relatado. Não foi a única dúvida com que ficaram os ouvintes da Comercial, já que Fernando Emílio enfeitou todo o jogo a contrapor “protestantes e cristãos” irlandeses, numa exibição desnecessária de ignorância.

A falta de estrutura e de investimento deixou o rádio português aquém do futebol nacional nessa estréia no Campeonato Europeu. Perderam os ouvintes, perdeu o esporte, mas perdeu principalmente o rádio, como um todo. Para completar, a RDP perdeu mais: a emissora oficial perdeu o início da segunda parte do jogo, para ler uma nota do Secretário de Estado do Desporto dizendo que apoiava a Seleção. Com um critério editorial assim, não dá para o aperfeiçoamento.

*O texto é uma versão abrasileirada feita pelo Editor, a partir do original veiculado no jornal Público de Lisboa, na década de 1990.

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