A ALMA DO NEGÓCIO

Na década de sessenta o conceito dos publicitários não era dos melhores. Grande parte dos comerciantes entendia que publicidade era um gasto desnecessário que atendia somente o interesse “desses corretores de anúncios” que alguns chamavam de picaretas.
Por Jamur Júnior

Para eles a melhor propaganda era feita de boca em boca. Os profissionais que atuavam na prospecção de novos clientes eram freqüentemente mal recebidos e  muitas vezes nem recebidos eram. Gino era um destes. Amante da musica erudita, era cantor nas horas vagas. Tenor e dos bons. Nos finais de semana participava de apresentações publicas, cantava no rádio e em alguns programas de televisão.
Cantava muito e ganhava pouco. Para se manter exercia a atividade de publicitário. Falava bem, conhecia o assunto e sabia como poucos conquistar um cliente com simpatia e bons argumentos. Durante algum tempo vendeu publicidade para a Rádio Colombo de Curitiba. Depois de passar por uma serie de outros veículos resolveu montar sua agencia de publicidade. Uma empresa individual que na época chamavam de “Agencia de Sovaco”. Uma pasta embaixo do braço, sem escritório, funcionários e apenas um telefone, quase sempre o da residência para alguns contatos iniciais e receber recados.
Nos meios publicitários, especialmente entre  os proprietários de empresas maiores, melhor organizadas, os publicitários que operavam com suas ” Agencias de Sovaco”  eram chamados de “Picaretas” . Muitos desses chamados “picaretas” tiveram grande sucesso na atividade publicitária criando agência de bom porte, bem estruturadas  e invejável credibilidade no mercado.
Certa ocasião foi a Rio Negro na divisa com Santa Catarina, tentar a conquista da conta de uma pequena industria local. Chegou cedo à cidade e foi direto para tentar uma entrevista com o diretor proprietário, um alemão de poucas palavras, nenhum simpatia e mal humorado. Gino entrou na empresa, perguntou por “Seo” Heinz.
– Esta lá pelo fundo – informou um funcionário com cara de poucos amigos.
    
Depois de caminhar por um longo corredor encontrou “Seo” Heinz, embaixo de um carro, sujo de graxa e o rosto muito vermelho no meio de manchas de óleo. 
– Eu sou o Gino, o publicitário de Curitiba que telefonou avisando que estaria aqui para um contato. Depois de ouvir o pequeno discurso, Heinz levantou , limpou as mãos sujas, olhou para o publicitário e pronunciou com carregado sotaque alemão uma frase que encerrou a visita.
-Quer dizer que a senhor é propagandista, não? Então estou diante de um picarrrretas, não?
 


{moscomment}

Categorias: Tags: , ,

Por Jamur Júnior

Radialista e jornalista e foi apresentador noticiarista de rádio e televisão em emissoras de Curitiba e Florianópolis. É autor dos livros Pequena História de Grandes Talentos contando os primeiros passos da TV no Paraná e Sintonia Fina – histórias do Rádio. Jamur foi um dos precursores do telejornalismo em Curitiba.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *