A arte da palavra

O velho amigo Dicionário, discordo de quem o chama de pai dos burros, e se fosse, não negaria ser seu filho, mas não gosto dessa definição.

Encaro-o como Pai dos pesquisadores; dos que não se dão por contentes ao encontrarem uma palavra da qual não sabem o significado. Ter vergonha de não saber algo ou perguntar alguma coisa não é o meu forte. Há muitas dúvidas nessa cabeça hiperativa e enquanto mais dúvidas tenho maior é a vontade de descobrir algo novo, ou mesmo olhar algo por outro ângulo. Quem assistiu ao filme – Sociedade dos Poetas Mortos, 1989, com o saudoso e brilhante ator Robin Williams deve lembrar a cena onde ele pede aos alunos para subirem em suas mesas da sala de aula. O professor a quem Williams interpreta quer mostrar aos alunos que quando tudo parece estar perdido precisamos como que “subir na mesa”, ver de outro ângulo. Linda cena, incrível filme.

Imagino quantas pessoas preferem ficar no seu aparentemente cômodo ou torturante lugar em vez de ir “a um lugar mais alto” e enxergar saídas, entradas, meios, caminhos, palavras, vida etc. Arte, segundo o pai dos pesquisadores significa entre várias definições: Aptidão inata para aplicar conhecimentos, usando talento ou habilidade. A palavra – Literatura, em poucas palavras e direta definição é isso: Arte da palavra. Usar a “palavra”, a escrita como obra, seja poesia, romance, conto, crônica entre outras.

A arte da palavra também está ligada à comunicação, e comunicação envolve ouvir. Há um ditado: “Diga-me com quem andas e direi quem tu és”. Ou seja, é necessário ouvir. Frase maravilhosa, escrita há quase 2 mil anos: “Todos devem ser prontos para ouvir, mas devem demorar para falar…”. Bíblia. Tiago 1:19. A arte da palavra está a disposição de todos, mas não são muitos os que a usam. E não se trata de eloquência, antes, de usar palavras boas nas horas certas. Manter a boca fechada nos momentos que pedem o nosso silêncio.

Alguns parágrafos para dizer que aprender é essencial. Subir na mesa, mesmo que literalmente, com o devido cuidado, pode dar inspiração. Reconhecer nossas falhas nem sempre é fácil e para muitos de nós mais difícil ainda é reconhecer nossos talentos. Não temos uma cultura, e não é culpa dos nossos pais, que não tivemos possíveis talentos percebidos e incentivados. A própria escola ou nossa educação até hoje não supre esse papel. Quem sabe seja por isso a apatia de mais de 80 ou 90% dos alunos. Falta-lhes paixão, garra, motivação. Quando não são as drogas ou o álcool os dispositivos eletrônicos parecem servir como fuga, um lugar para ficar; aparentemente bem entretido.

Enquanto o governo tem na educação seu meio de manter os jovens alienados, os professores travam uma luta diária para os fazer mudar de direção. A maioria dos pais não toma conhecimento nem de uma coisa nem de outra. São espertos em saber sobre seu time do coração, que tanto acrescenta a sua vida, mas poucos são os pais que realmente se interessam e acompanham o andamento dos filhos em escolas. A história do filme mencionado no início se passa em 1959. Quantas coisas mudaram. Quantas coisas não mudaram. A arte da palavra está ligada a arte da vida. Pelas nossas palavras construímos ou destruímos. Use-a bem, e se for preciso, suba na mesa.

Deixo algo de presente aos amigos leitores: um poema de Manuel Bandeira.

Neologismo

Beijo pouco, falo menos ainda
Mas, invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana
Inventei, por exemplo o verbo teadorar
Intransitivo
Teadoro, Teodora

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