A BBC se intimida

José Inácio Werneck – Bristol *

Neste último domingo vi a maior parte de um excelente documentário da BBC chamado “Frozen Planet”, o Planeta Congelado. Devo dizer que havia assistido ao primeiro programa da série, uma série de sete, mas depois não mais conseguira achá-lo nas telas de minha televisão. A culpa tinha sido minha mesmo, pois vinha procurando os programas no canal PBS, o sistema público de televisão, que geralmente passa muitos documentários sobre a natureza, mas eu havia simplesmente esquecido que a série da BBC seria exibida no canal Discovery. É o que resulta em se ter tantos canais disponíveis: o espectador acaba confundindo alhos com bugalhos.

Mas a BBC, autora do documentário, também parece ter confundido causas com consequências, ou ao menos ter falado destas sem se referir àquelas.

Neste último domingo vi a maior parte do resto da série e até saí lucrando, pois a narração  vinha no original inglês, com o naturalista David Attenborough, e não na versão americana, com o ator Alec Baldwin.

Entretanto, foi decepcionante ver o ilustre Sir David, Commander of the Order of the British Empire e muitos outros títulos nobiliárquicos, plantado no Polo Norte, a declarar: “O aquecimento global pode até ser uma coisa boa”.

Ele disse isto e explicou que o degelo da calota polar levará à exploração de petróleo no Oceano Ártico e a rotas marítimas mais curtas entre os países setentrionais,  como  Rússia,  Canadá,  Estados Unidos, Noruega, Suécia, Finlândia, Reino Unido e outros.

Um contraste chocante com tudo o que ele mostrara anteriormente, com o impacto sobre ursos polares, baleias, leões marinhos, focas, pinguins, populações da região, como os esquimós (agora chamados inuits) e lapões, além de consequências negativas sobre o clima de todo o planeta.

Custaria a David Attenborough ter dito que a vasta maioria dos cientistas acredita que é a atividade humana, justamente por causa da exploração de combustíveis fósseis, que vem causando o aquecimento global, lançando gases do efeito estufa, mudando o clima do planeta, elevando o nível dos mares, com consequências para o futuro da humanidade?

É uma pergunta mais do que cabível agora que, por exemplo, se aproxima a realização do Rio+20, os 20 anos do aniversário do Earth Summit, a Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, no Brasil.

A produtora da série, Vanessa Berlowitz, aparentemente acha que não se deve tocar no assunto, para não provocar a ira dos políticos da extrema-direita nos Estados Unidos, que consideram as notícias de mudanças climáticas uma “mentira”, “fraude” e “heresia”.

Estão, é claro, todos no bolso do Big Oil que, segundo David Attenborough, será beneficiado pelo derretimento da calota polar.

É pena que a BBC, até hoje conhecida por sua independência, se tenha deixado intimidar. (Direto da Redação)

* José Inácio Werneck – Bristol. É jornalista e escritor com passagem em órgãos de comunicação no Brasil, Inglaterra e Estados Unidos. Publicou “Com Esperança no Coração: Os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos”, estudo sociológico, e “Sabor de Mar”, novela. É intérprete judicial do Estado de Connecticut. Trabalha na ESPN e na Gazeta Esportiva.

 

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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