A bossa apurada de Luiz Henrique Rosa

Há 25 anos a cultura catarinense perdia um de seus maiores expoentes. Hoje, A música passada a limpo apresenta a primeira das duas crônicas em homenagem ao grande músico catarinense Luiz Henrique Rosa. Temo afirmar que muito pouco se tem feito e dito sobre Luiz Henrique, talvez o maior compositor popular catarinense. Suas mais de duzentas composições pairam num vazio histórico que tentará ser reparado, mesmo que minimamente, nessa coluna. Nascido em Tubarão, acolhido em Florianópolis desde cedo, ganhou o mundo após o sucesso mais que merecido no Rio de Janeiro, local para onde o artista mudou-se em 1961, gravando seu primeiro compacto com as canções “Garota da Rua da Praia” e “Se o amor é isso”, em parceria com Zininho, figura de grande vulto artístico da capital catarinense. “Se o amor é isso”, com Luiz Henrique Rosa. “A música passada a limpo”. 

Seu Lp o coloca como um protagonista do estilo denominado “Bossa Nova”, que surgirá em praias cariocas e logo ganharia ares mais distantes. O disco “A Bossa Moderna de Luiz Henrique” fez sucesso no Brasil e o projetou para o cenário internacional. Mas o caro leitor já percebe a esta altura, que esse espaço não pretende tratar da trajetória histórica de artistas, e sim, das trajetórias de estilo musicais e suas obras-chave nesse contexto.
 
Pois bem, cinco anos após o lançamento de “Chega de saudade”, por João Gilberto, o LP gravado pela Philips traz verdadeiras pérolas musicais que, para este observador, não deixam em nada a desejar aos expoentes baianos e cariocas daquelas terras. Sete das doze canções são autorais e é possível sentir o pulsar bossa-novista nos arranjos, o instrumental bigband e o estilo de cantar característico, já afeito à meia-voz, aliada ao bom gosto, dosagem perfeita do volume e um certo “cantar-falado” agradável de se ouvir, totalmente pertinente.

Sua alma litorânea flui maravilhosamente nas composições, e faz consonância com os demais litorais banhados por esse novo estilo. Entre os instrumentos, o piano e bateria jazzística se sobressaem, mas a “displicência” – com muitas aspas – no canto ameniza e dá balanço ao álbum.

Na quarta faixa, “Minha terra Itaguaçu”, podemos notar a afirmação do artista que “toma coragem” para se impor e cantar sua terra, que começa assim:

“Sinto pena de não termos
Um Caymmi pra cantar
Um Tom Jobim pra musical
Para Vinícius versejar
Mas todos cantam a sua terra
Também a minha vou cantar
Preste atenção, tomei coragem
Vou começar” (…)

Chama-me à atenção a desenvoltura e segurança artística de um jovem de 25 anos, onde podemos perceber uma letra deliciosamente bem construída, um lirismo melódico absolutamente impecável, difícil de se cultivar. “Se o amor é isso” tem um tom caymmiano, uma brisa que beija o rosto, um não-sei-quê que flui como as idas e vindas do mar. Sem dúvida, se fosse obra do grande menestrel baiano Dorival Caymmi, estaria entre as suas obras mais executadas.
“Paz de amor” traz a clara impressão que esse homem seria capaz de começar um comentário e musicá-lo espontaneamente, de pronto. As palavras vêm naturalmente, sem rima, sem apelos piegas. Nada.

Para deixar nosso compositor à vontade, à sós com seu violão, ouviremos  “Se o amor é isso”, obra-prima digna representante de sua discografia, que demonstra o apuro e domínio técnico de uma linguagem musical brasileira.  Com o auxílio de Zininho, parceiro na canção, nos despedimos da fase suave e despojada do artista. Novos ares mudam os rumos composicionais de Luiz Henrique, aflorando novos horizontes para seu estilo e sua obra. Mas isso é estória para futuras páginas…

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