A brevíssima vida da ´Rádio Duarte Schutel´

Desde que me conheço por gente sou apaixonado por rádio, e, mesmo até hoje, integro a espécie “rádio-dependente” assumido. Acho, contudo, que o ápice da minha paixão ocorreu num dado momento que, sem pejo nenhum, resolvo contar aqui, em seguida.
Por Cesar Luiz Pasold

A brevíssima vida da “Rádio Duarte Schutel”
Desde que me conheço por gente sou apaixonado por rádio, e, mesmo até hoje, integro a espécie “rádio-dependente” assumido. Acho, contudo, que o ápice da minha paixão ocorreu num dado momento que, sem pejo nenhum, resolvo contar aqui, em seguida.
Por Cesar Luiz Pasold

Estávamos em novembro de 1957, eu com meus 12 para 13 anos, vindo de Indaial há nove anos, residia na Ilha de Santa Catarina. Mais precisamente morava numa modesta casa de fundos, ladeada por um retorcido Pé de Araçá e um frondoso Pé de Ameixa amarela, respectivamente localizados à direita e à esquerda da casa, na Rua Duarte Schutel, nº 45-A, “nos altos da Felipe Schmidt” como se dizia à época.

 

Num fim de semana, quando ouvia a Rádio Nacional do Rio de Janeiro em meu “Philco” preto (movido a seis pilhas grandes) , tive uma bela idéia: iria montar um auto-falante na janela da sala de visitas da nossa casa e através dele colocar no ar a minha “ Rádio Duarte Schutel”.

 

Quando partilhei este “projeto” com meus Pais, Ralf e Erna recebi um sorriso muito simpático. Meu Pai, após uns 10 minutos de silêncio na cozinha onde estávamos, perguntou: por que na sala de visitas?

 

Respondi que exatamente daquela janela o som atravessaria o quintal da casa de frente e chegaria à rua, o que significa uma audiência maior, pois além das casas vizinhas eu seria ouvido pelas pessoas que transitassem ali. Mais gente ouvindo o meu alto falante significava que eu poderia ter mais “patrocinadores”, porque poderia fazer mais propagandas, expliquei, muito seriamente.

 

O assunto ficou fora de nossa agenda por exatos três meses, mas só até então. É que em fevereiro de 1958 nós fomos, em 15 dias de férias, para Rio do Sul, visitando o Tio-avô José, prático-dentista, um gênio de coisas elétricas e um obcecado em deixar garotos felizes!

 

Por isto, apesar dos educados protestos de meus Pais, nossa camioneta Rural Willis verde, quando voltamos da visita, trazia em seu bagageiro interno um alto falante conectado a um emissor/ modulador de som e a um microfone imenso. Recebi de Tio José as devidas instruções de como fazer a geringonça funcionar, e isto não era difícil, bastando conectar os fios certos e ligar o principal em tomada!

 

No retorno a Florianópolis, antes de instalá-lo, eu sai em busca de patrocinadores. Na Rua Duarte Schutel, então, havia apenas dois comércios: o Armazém do “Vrê” (de propriedade do imigrante grego Georgius) e uma lavanderia (de propriedade da Mãe dos meus Amigos Luiz Carlos e Caio).

 

Minha conversa com os dois foi muito simpática, mas eles não tinham condições de anunciar em minha Rádio. Não me deixei abater: resolvi que colocaria a Rádio no ar, sem patrocinador, porque estava convencido que os teria, logo que a repercussão dela ocorresse.

 

Não me esqueço da data: 25 de fevereiro de 1958 separei nossa vitrola portátil, dois discos 78 RPM, um deles contendo a música que escolhi para a abertura da Rádio (“Only You” com The Platters, os originais, obviamente) e o outro não me lembro mais qual foi. Montei toda a parafernália. A coisa funcionou: com minha voz de menino/adolescente informei que estava no ar a “Rádio Duarte Schutel”.

 

Coloquei o microfone bem em cima do pequeno alto falante da vitrola e por quase um minuto a rua pode ouvir aquela música que era sucesso unânime. E, estava eu pensando no que diria logo que a música finalizasse, quando minha Mãe chegou em casa, colocou as compras no chão da sala, e, com sua tradicional serenidade e firmeza, olhando-me com seus olhos impressionantemente azuis, me convenceu de que, na verdade, eu não tinha o direito de incomodar os vizinhos.

 

Digo aqui que não chorei quando recolhi a parafernália que ficou guardada por anos – num rancho do bondoso Seu Francisco – vizinho e locador de nossa casa.

 

Fui chorar só quando, vinte anos depois, em 25 de fevereiro de 1978, meu Tio José morreu!

 


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Por Cesar Luiz Pasold

Escritor, advogado e professor catarinense, é autor de 15 livros técnicos e co-autor de mais nove. Especificamente na área da comunicação, Cesar Pasold escreveu: Personalidade e Comunicação (2005), Técnicas de Comunicação para o Operador Jurídico (2006) e O Jornalismo de Moacir Pereira (2012).
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