A carta anônima

Decanos do jornalismo, que durante muitos anos comandaram a imprensa de Florianópolis, costumavam se reunir todas as tardes na Casa do Jornalista, na rua Deodoro, para avaliação do noticiário do dia e formalizarem as devidas cobranças, pois a turma tinha fácil acesso às administrações municipal e estadual. Essas chacrinhas de fim-de-tarde, quando a política local era passada a limpo, resultaram em vitórias da classe, como a implantação de assessorias de imprensa nos órgãos governamentais, obviamente que muitos deles legislaram em causa própria, assegurando empregos que reverteram em bem-sucedidas aposentadorias.

E foi numa dessas reuniões vespertinas, que o presidente da Casa, Narbal Vilela, deparou-se com uma estranha correspondência anônima, que logo foi colocada na mesa para avaliação de seus pares. A carta se resumia num desabafo de um conhecido jornalista meio colunista social – que só não assumiu a profissão por falta de oportunidade -, frustrado por não ter sido nomeado para a direção do Teatro Álvaro de Carvalho, antiga aspiração, depois de tentar viabilizar a sua indicação através de padrinhos políticos como avalista e plantado algumas notas nos jornais através de um colunista de sua intimidade.

A carta trazia críticas pesadas à administração do sisudo Celso Ramos, mas não teria maiores conseqüências, pois seria guardada a sete chaves na Casa do Jornalista, cujos diretores eram favorecidos com as benesses do governo. E os alegres rapazes da imprensa ainda teriam em mãos, um forte argumento na hora necessária para novas reivindicações da “classe.”

Entretanto, um dos diretores da instituição, que não havia sido privilegiado no rol das benesses, aproveitou para ir à forra. Entregou uma cópia da carta ao colunista Celso Pamplona e este entrou em defesa do colega, parceiro de festas entre quatro paredes em sua casa. O “platinado” fez dezenas de cópias e passou a colocar embaixo da porta das casas, juntamente com o matutino A gazeta, no qual assinava uma coluna social.

Nereu Ramos subiu nas tamancas e exigiu providências urgentes, com promessa de destituir o diretor do DOPS do cargo. O policial vasculhou a cidade inteira para prender Celsinho e mostrar serviço ao governador, mas não o encontrou. O colunista estava muito bem escondido, enclausurado na casa de uma conhecida e folclórica cartorária.

AN Capital | Fala Mané | Terça-feira, 13 de abril de 1999 | Aldírio Simões

[email protected]

Categorias: , Tags: , , ,

Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *