A chuva vem aí!

A claridade desmaia lentamente. A luz cede lugar a um indefinível tom, na paleta de que são feitas as cores do dia. O ar se torna mais denso.

Um vento brando e cálido começa aos poucos sua brincadeira séria com as folhas: movem-se, a princípio com lentidão, os galhos, os ramos, as hastes, até que as folhas entram numa cadência especial na dança da mudança do tempo.

Muitas flores caem, no que aparentemente é apenas um belo suicídio; na verdade, isso significa uma celebração da beleza do ciclo vital, nas mutações inevitáveis para o viço da natureza e perpetuação da vida.

Tudo muda, com uma expectativa indefinível: os pássaros voam daqui para ali, antecipando a busca de abrigo; as pessoas apressam-se, também procurando guarida.

A essa altura, sobre o mar, uma espécie de cortina de neblina interpõe-se entre nosso olhar e a vista das montanhas distantes e dos prédios lá longe. O que parece tão sólido nos dias claros e de sol transmuta-se em algo que surge leve, quase inefável: um monte, um edifício, um veículo – todas essas massas de solidez que nos cercam aparecem agora leves, como que flutuando nessa bruma.
As narinas já podem sentir um odor diferente, antecipando a umidade que dentro em pouco vai predominar. Tudo antecipa a chuva que vem aí.

Aos poucos, o vento aumenta seus movimentos, fazendo sua parte nessa transformação. As rajadas se intensificam. Mas, isso dura pouco, apenas até que a umidade se apresente, antecipando a chegada das primeiras gotas de chuva. Essas primeiras gotas são apenas as mensageiras da chuva. Parecem vir, precursoras, explorar ruas, casas, coisas, gente. Um pingo aqui, outro acolá, nossa pele começa a tomar contato com o final da transformação, que traz a realidade da chuva.

Há muita gente que consegue saber, antecipadamente, sobre chuva. Existem os cientistas, com sua meteorologia, fazendo um esforço de previsão, necessário para os que plantam e colhem; para os que desejam saber se conviverão amanhã, depois, nos dias que se seguem, com a chuva, nas viagens, no trabalho; para quem tenta evitar os transtornos, maiores ou menores causados pela chuva.

Há os homens da terra, caboclos curtidos na lida da vida, envolvidos a existência inteira com as manhas da natureza. Sua vivência lhes dá uma capacidade de prever às vezes mais precisa que a possibilitada pela parafernália inventada pela ciência. Existem ainda as pessoas comuns, como eu e você, caro ouvinte ou leitor, que sentem nas juntas pelo corpo sintomas que indicam que o tempo vai mudar, que a chuva já vai chegar. Esse sentimento no corpo existe desde sempre para todos os animais, inclusive o animal humano.

Em momentos assim, aproximamo-nos de nossos ancestrais, sentindo literalmente na pele e pelo corpo todo as sensações causadas pela mudança do tempo. Gosto de observar esses momentos em que o tempo se transforma, garantindo que a chuva vem aí. São momentos mágicos em que a mensagem da mudança, da transformação é traduzida por um dia ensolarado, afogado em luz, que mergulha, primeiro num lusco-fusco, depois na aquosa realidade da chuva.

Sentir-se que se está vivo é maravilhoso. Quando a chuva se aproxima, podemos nos sentir assim, pelo olhar, pelo cheiro, pelo tato, com todo o nosso ser, enfim. Que beleza! A chuva vem aí!

Categorias: Tags: , ,

Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

4 respostas
  1. ALBERTO ROCHA says:

    QUE BELEZA, TANTO A CHUVA QUANTO A PÁGINA ESCRITA E LIDA POR VOCÊ.
    ABRAÇOS
    ALBERTO E CLEIA

  2. J. Carino says:

    Alberto e Cleia, casal querido e amigo, obrigado por prestigiar a crônica, com sua sensibilidade.
    Cordial abraço.

  3. Celia Vasques says:

    Querido Carino,

    Espero que você, sua querida Lulica e filhos estejam bem de saúde, paz e alegria.

    Tenho lido as suas crônicas, como sempre, impecáveis, como falam os portugueses!

    Hoje em Portugal se comemora Camões. Parabéns, afinal vocês são “colegas” de ofício.

    Beijos
    Celia

  4. J. Carino says:

    Obrigado, Celia. Vamos bem; esperamos que você também.
    Só sua generosidade de amiga para me situar em tão ilustre companhia!
    Beijos agradecidos.

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *