A cigarra na tarde

Monótono, grave, encorpado, de timbre inconfundível – eis o canto da cigarra.

cigarra

O suor poreja em nossa pele. O verão cobra seu preço, tornando o ar abafado. Ah, como sonhamos com cascatas de águas frias entre árvores numa serra! Quem dera agora uma bebida ou sorvete bem gelados!

Nosso corpo sofre com o calor, mas nossa alma recebe, pelos ouvidos, o monocórdio som produzido pelas cigarras.

O verão expressa-se tanto em calor quanto em luz. O amarelo do sol, a vermelhidão dos fins de tarde. Porém, essa estação do ano tem também sua perfeita tradução no canto desse animalzinho de nome científico complicado: homóptero da família dos Cicadídeos.

Gosto desse romantismo sonoro. E gosto do mistério que faz com que as cigarras, com seu mimetismo de alta qualidade, raramente sejam vistas por nós ao primeiro olhar. É quase sempre difícil encontrá-las, confundidas com a cor e a rugosidade dos troncos e galhos.

No entanto, sendo dissimuladas ao se mostrar, são as cigarras mais do que exibidas com seu chiado característico, seu zunido diferente de tudo.

Lembro-me bem das tardes suburbanas, nos tempos em que ainda me era possível flanar por ruas de terra, no descompromisso de meninice. Aqui e ali, sobretudo vindos das mangueiras, como era gostoso ouvir o canto das cigarras. Em certos momentos, uma orquestra cigarreira, em uníssono, irrompia na tarde, com a maestrina Natureza executando a sinfonia de um dia de verão.

Dizem os cientistas entendedores que somente os machos produzem o som das cigarras. Se é mesmo assim, estou certo que esse cantar único tem, de qualquer modo uma alma sonora fêmea a modular-lhe a aspereza do tom grave, tornando-o, a um tempo, firme, forte e doce, agradável.

A luz da tarde vai perdendo lentamente a batalha diária para as sombras da noite. Cede lugar à beleza também contida na escuridão – desde que a saibamos encontrar.

Dentro em pouco, vai-se apagando o canto da cigarra que, dizem, anuncia sempre sol no dia seguinte. Com o emudecer do seu canto, a cigarra despede-se da vida. Mas, com a generosidade contida nas coisas e nos animais, e a necessidade intrínseca de fazer girar a roda da vida e da morte, na sábia renovação de tudo, com a inevitabilidade da impermanência de tudo, despenca o corpo da cigarra do meio das folhas e dos galhos.

Jazendo morta, a cigarra já libertou de há muito sua alma para a amplidão, onde, talvez, exista um céu das cigarras, embalado pelo som inconfundível que também pode fazer de nossas tardes de verão um céu de gostosas sensações sonoras. Para isso, talvez baste sabermos ouvir as cigarras – com os ouvidos e com o coração.

Março de 2012

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Por J. Carino

Professor aposentado de Filosofia da UERJ. Escritor, dedica-se a crônicas e contos. Publicou “Olhando a cidade e outros olhares”. Desde a infância, foi embalado pelas ondas do rádio. Foi locutor de rádio, atividade que ainda exercita narrando seus próprios escritos e outros textos. Empenha-se no momento em implantar a Web “Rádio Sorriso” em Niterói, RJ, cidade onde mora.
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