A cultura da pioréia

Não importa se pioréia não exista como palavra oficial. Ela está entre nós disfarçada de Michel Teló, de empreguetes cheias de charme, daqueles repórteres policiais da nossa tevê e do nosso rádio, disfarçada no trânsito pelas ruas em fim de tarde, na batalha dos candidatos pela conquista de nossos votos, no fracasso da Rio+20, no modelo capitalista falido… De sã consciência, aparentemente, nossas maiorias são aquele sapo que entrou na panela por curiosidade, sentiu as primeiras sensações da água morna e agora não têm capacidade de optar por saltar fora antes de ser cozido. Nós somos cruéis com nosso corpo ao esquecer que ele é o veículo de nossa alma; ao imaginar que a estética adquirida na academia seja a moldura do ser eterno; ao apostar tudo na conquista imediata de algo que me diga que eu sou o melhor: vale para o carrão, vale para a velocidade, vale para a droga, a bebida, a adrenalina.

Nós somos cruéis com a sociedade e com o planeta ao oferecer respaldo a qualquer armação que traga lucros imediatos e riscos futuros; ao esperar que o outro faça aquilo que nos cabe fazer imediatamente: vale para os apoios que damos a qualquer armação, principalmente política, cujo objetivo seja apenas o poder.

Nós somos cruéis com nossa alma ao conseguir dar atenção a qualquer coisa imediata e fútil e ao esquecer que ela existe e que reside nela o nosso futuro eterno: vale por não questionarmos os objetivos da corporação de fé que pertence às tradições de nossa família e que por desencanto nós nos distanciamos dela e somos covardes para buscar outra coisa melhor.

Somos perfeitos estúpidos ávidos em reivindicar direitos até onde eles não existem e ao delegar para o vizinho a obrigação de cumprir com os deveres: vale para as nossas omissões em relação aos nossos filhos, nosso condomínio, nosso modo de dirigir no trânsito, de votar e, muitas vezes, dar atenções ao nosso próprio corpo.

Somos muito melhores para lidar com cavalos, cachorros, gatos, cobras e somos extremamente piores para lidar com nossos semelhantes. Conversamos por longas horas com o animal de estimação e entramos em choque, de imediato, ao falar com outra pessoa.

Nessa maratona da pioréia, boa parte de nossa sociedade busca o glamour, outra boa parte busca a ostentação e um terceiro grupo busca a auto-promoção. Resta um razoável grupo que se deslumbra com o glamour alheio e até se diverte com a desgraça alheia e própria.

A indústria do entretenimento vai a mil por hora. A da indústria de tranqüilizantes também. Nossas cidades têm mais bares, farmácias, lan houses, clínicas médicas, bancos, agências de carros e shoppings do que quaisquer outros empreendimentos.

É evidente que há uma silenciosa parcela de anônimos à margem dos holofotes lutando para a sobrevivência própria e de outros, onde se incluem os profissionais da saúde, da educação, da segurança, das indústrias, da coleta do lixo, mães, pais, avós, segurando a peteca…

Deles nada se diz. Talvez esteja aí o substrato que garantirá à Fênix vindoura o recomeço de uma nova civilização.

Essa civilização que ocupa o tempo da gente não tem mais jeito. Perdeu-se. Está morrendo doente, envenenada, drogada, assassinada, acidentada.

Não posso concluir este triste desabafo sem perguntar a você que me lê: por acaso você se vê entre eles? Se sim, pule fora antes que a panela ferva. Se não, faça alguma coisa para tirar dali aqueles a quem você ama.

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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