A cultura do paizão

A morte de Hugo Chávez recoloca em pauta a cultura do líder paizão, algo que não é exclusividade destas bandas do mundo, mas que caracteriza de modo especial os governantes dos povos latino-americanos – a começar pelo México, passando pela América Central e o Caribe até chegar à Argentina (obviamente com escala no Brasil).

Deixo de lado, propositalmente, termos como caudilho e populista, por exemplo, com os quais poderia referir-me ao ex-presidente da Venezuela para evitar a armadilha do blá-blá-blá de ter que definir quem é (foi) de esquerda ou é (foi) de direita. Creio que falar paizão define com clareza maior um estilo de governo cuja maior obra foi a formação de uma nano cidadania entre as populações do território citado. Esse é o traço mais comum entre todos os governantes desta parte do globo, o que impede a edificação de Nações realmente poderosas, deixando-nos ao sabor do aventureiro que assumirá o próximo plantão.

O fazendeiro Getúlio Vargas, um ditador que é tido pai dos pobres entre nós foi um dirigente de esquerda ou de direita? Fulgêncio Batista, que ficou quase 20 anos no poder em Cuba e os irmãos Castro, que vão ficar mais de 60 anos comandando a Ilha, são de esquerda ou de direita? A pergunta poderia ser repetida em torno de Juan Domingos Peron, que tirou a Argentina da porta do primeiro mundo para colocá-la nessa situação que nem um tango lamurioso a define hoje com alguma clareza. Ou em torno do venezuelano Juan Vicente Gomez, do equatoriano José Velasco Ibarra, do mexicano Porfirio Dias. Acho isso fantástico: fica difícil de afirmar o que é (foi) de direita e o que é (foi) de esquerda quando se trata desses cavalheiros que, geralmente em tom messiânico, agarram o comando de seus países e lá se instalam, como mala e cuia, como se em suas fazendolas estivessem.

O paizão assume o poder (às vezes na marra, outras vezes em eleições diretas nem sempre totalmente limpas) e governa com mais ou menos mão de ferro enquanto pode, dando tudo aos bajuladores e amigos e pão mofado e água (muitas vezes também cassetetes) aos adversários, sempre tido como inimigos do povo. Aliás, o paizão tem essa indefectível capacidade de arrumar um poderoso inimigo interno do povo e um arrogante inimigo externo desse mesmo povo. Isso de arrumar inimigo feroz do povo funciona que é uma beleza: as tais das elites, internamente e, em regra, o imperialismo, externamente tem sido de eficiência impar. Nós, os babacas, vamos às ruas com facilidade berrar contra as elites e contra o imperialismo, enquanto o paizão usufrui todas as delicias do poder. E quando o paizão não consegue fazer mais é porque nós, os babacas, não estamos sendo eficientes contra os inimigos (internos e externos).

E, como parte de uma receita única, o paizão procura evitar, de todas as formas, que a população passe de um aglomerado tangido como gado obediente à sua vontade para se tornar uma Nação forte, consciente, capaz de contribuir de modo consistente para o futuro da Pátria. Esse é o traço mais forte entre todos os governantes desse gênero nesta parte (e em outras partes) do Planeta. O paizão é o porto seguro, é o grande condutor do povo (e como nossa indolência adora isso!) e quando ele morre – como foi o caso de todos os citados –deixa o vácuo, deixa a massa informe na orfandade e uma ausência de rumo seguro como herança trágica.
Afinal, o que é o peronismo? E o getulismo, o que realmente significa? O que é o chavismo?

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Por Ivaldino Tasca

Jornalista e radialista. Natural de Barra Funda/Sarandi-RS. Reside em Passo Fundo, onde já foi secretário de Meio Ambiente e de Cultura. Atuou na Cia. Jornalística Caldas Junior por dez anos, foi chefe de redação e diretor de O Nacional, mantém coluna no jornal Diário da Manhã e programa sobre ecologia na Rádio Uirapuru de Passo Fundo.
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