À curta distância

Pai, mãe e 6 filhos; a casa embora de 2 pisos não era tão grande.

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O quarto do casal e mais 3 para os filhos; duas moças e quatro rapazes. De fato não havia distância física entre eles, sempre se viam, vez por outra se esbarravam, ora brigavam ora riam. Ainda assim havia uma distância, distância de pensamentos e opiniões; e brigas, muitas brigas, mas elas se limitavam ao pai, seu Ernesto e Manoel, o filho caçula, prestes a completar 18 anos.

Seu Ernesto no final dos anos 90 estava com 54 anos, mas mantinha o estilo de pensar antigo, ou pelo menos com as suas razões. Seu nome podia ser, Trabalho e também, Responsabilidade, esta última ao seu ver e entender como a única certa, a única aceitável a um homem. Já havia trabalhado como servente de pedreiro e chegou a se tornar pedreiro profissional. Depois de problemas com labirintite tornou-se vendedor de caldo de cana. Para seu Ernesto sua perda de sono, apetite e até falta de concentração no trabalho era Manoel, seu caçula. O rapaz trabalhava, mas era demais ousado ao ver de seu Ernesto; irresponsável ao seu ponto de vista.

O modo como Manoel vivia e divertia-se em muito incomodava o velho pai. Bebia, fumava, trabalhava, curtia o suado dinheiro em especial nas noites de sábado; festas e mais festas, fossem elas nas praias ou nos bares e clubes. Finalmente, completou 18 anos e uma semana depois comprou uma moto. Um pouco de dinheiro havia guardado, a maior parte um parcelamento. Agora seu Ernesto fora à loucura. As brigas se intensificaram. Para o pai o jovem filho não conseguiria pagar o financiamento, gastava demais. E para deixar seu Ernesto ainda mais nervoso, Manoel, ao sair com a moto acelerava ao máximo; por vezes saia empinando a moto. “Esse moleque irresponsável vai acabar se matando”, dizia ele a sua esposa, dona Maria. A mãe do rapaz tentava acalmar o companheiro de 35 anos de união: “Calma, homem. Vocês também não conversam; custa você sentar com ele aqui na sala ou lá na cama dele e tentar conversar pelo menos uma vez na vida?”, afirmava e indagava ao mesmo tempo dona Maria, como qualquer boa mãe faria para unir pai e filho tão diferentes e quem sabe tão parecidos. “E lá adianta falar com aquele cabeça dura? Ele não me ouve, só escuta os amigos dele!”, reafirmava seu Ernesto.

Dona Maria chegava a dizer: “Nunca vi vocês dois conversando de verdade, o homem teimoso; um pior que o outro, também”.

Seu Ernesto não bebia, talvez lá uma vez ou outra num churrasco com a família, não era frequentador de bares como muitos de seus vizinhos e amigos, talvez colegas.

Numa tarde de sábado enquanto Manoel descansava já pensando em aproveitar à noite, seu Ernesto lembrou das palavras da mulher, afinal de contas a esposa e companheira de toda uma vida era também mãe, também devia se preocupar, raciocinou ele, “quem sabe vou até o quarto desse cabeça dura e conseguimos conversar uma vez na vida”. Chegou até à porta, mas um orgulho de pai sabido, vivido e experiente o levou a dar meia volta. Pensou que não era momento, o momento chegaria e o filho teria que ouvi-lo de um jeito ou de outro.

À noite chegou. Manoel tomou banho, fez a barba, arrumou-se e passou um bom perfume. Ajeitou os cabelos cortados naquele mesmo dia e foi até a mãe. A beijou e a abraçou. A mãe o beijou mais uma vez e pediu para que se cuidasse. Olhou para o pai que lia o jornal sentado no sofá. Seu Ernesto pelo canto do olho direito percebeu que Manoel estava o olhando por poucos instantes, mas manteve a postura de sempre. Manoel saiu e deu partida na moto, acelerou mais do que nunca; seu Ernesto pensou que fosse pura provocação. Dona Maria, gritou: “Ai Jesus Cristo que esse rapaz sai correndo desse jeito, meu Deus”. Seu Ernesto manteve os olhos na leitura do jornal ainda que com pouca concentração. Tomou um banho, jantou e junto à dona Maria foi dormir.

O toque do telefone interrompe o sono da família às 2 horas da madrugada. Seu Ernesto chega à sala e um de seus filhos está trêmulo, outro filho tira o telefone da mão do irmão e continua a conversa. Seu Ernesto está confuso e pergunta o que foi. Chega a dizer: “Teu irmão me aprontou alguma?”. O olhar de filho Josias, carregado de lágrimas, dá uma resposta sem palavras a seu Ernesto. O filho se entrega ao choro e abraça a mãe que vem em sua direção. Seu Ernesto endente e senta-se no sofá, no mesmo onde horas antes lia seu jornal e evitou deixar seus olhos encontrarem os olhos de Manoel. Como saberia que o olharia para última vez?

O velório ocorreu no domingo naquela mesma sala. A segunda-feira, a terça, a quarta; nunca jamais um dia seria o mesmo para seu Ernesto. Às vezes simplesmente parava em frente a porta do quarto do filho e imaginava se tivesse entrado naquele sábado. Naquele sábado, como saber que seria o último? Outras vezes quando não havia ninguém em casa, seu Ernesto entrava no quarto onde dormiam Josias e Manoel e sentava-se na cama do tão saudoso filho. Criava em sua mente uma possível conversa com Manoel. Em algumas imaginações terminavam brigando, em outras se acertavam, riam e se abraçavam. Seu Ernesto perdeu o gosto não só no trabalho, mas na vida. Cinco meses se passaram e seu Ernesto não suportando a dor da saudades, mais a dor de uma culpa a qual o massacrava cada minuto do dia das intermináveis noites, resolveu render-se ao seu modo. Juntou tudo o que podia de produtos químicos e remédios controlados e os tomou. Se o gosto era terrível não era nada diante a dor no coração provocada por uma mistura de saudades e remorsos.

Josias encontrou o pai desacordado numa tarde de sábado. Rapidamente chamaram ajuda profissional. Se os produtos e os remédios não fossem o suficiente suas dores mais íntimas dariam o que ele imaginava precisar. Cinco meses depois naquela mesma sala os familiares e amigos choravam outra perda.

Uma casa de dois andares, mas não grande o suficiente para impedir os encontros. Pessoas muitas vezes próximas fisicamente estão distantes pelos mais simples motivos, embora pareçam complicados; assim pensava dona Maria que em apenas 5 meses perdera seu filho caçula e o marido.

À curta distância entre pai e filho havia se tornado como um abismo. Abismo só em suas mentes; nenhum deles conseguiu dar um primeiro passo, talvez só um passo fosse o necessário para encurtar uma distância de pensamentos. O tempo e a vida não guardam distâncias tanto quanto os humanos. O tempo e vida não aguardam o nosso tempo.

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