A Dama de Ferro e nossas ilusões

A morte de Margaret Thatcher, uma das maiores expressões da política mundial do século passado, definida como Dama de Ferro por jornal russo e primeira-ministra da Inglaterra por 11 anos (1979-1990), recolocou em pauta o eterno debate: como superar as distorções econômicas que colocam milhões na penúria? Odiada pelas esquerdas de todos os matizes é apontada como salvadora da economia que comandou sem firulas fazendo justamente o contrário do que executam as republiquetas populistas.

E o mais interessante neste recente debate é que a senhora Thatcher, tida como de extrema direita é desaforada, até tripudiada, por aqueles que nunca conseguiram alcançar um mínimo de sucesso econômico com suas teses, suas receitas: a esquerda. Alguém conhece alguma economia de esquerda que está dando certou ou que deu certo?

Se há setor onde as ideias não evoluem é esse, ficamos como cachorro querendo morder o próprio rabo, sai geração, entra geração, e a lengalenga não muda. E a praga subjacente nesse debate é que o discurso de esquerda fala aos corações e o da direita para a razão. E a razão, como a natureza, não tem piedade. Assim, o cara de esquerda é de bom coração, é solidário, quer o bem comum e o de direita é malvado, individualista, bandidaço; não importa se o cidadão de esquerda passe vida no leguleio ideológico que busca repartir o que os outros possuem, e o de direita levante mais cedo, trabalhe além da hora, empregue gente, faça inovações.

Guardadas as proporções é nessa esquizofrenia que nos jogou a intelectualidade que patina na areia movediça tendo certeza sobre o que não é bom, mas nunca definindo o caminho para superar as mazelas que produzem dores. Não é por nada que a esquerda (a história mostra à exaustão) se forme mesmo onde há abundancia. Nessa linha quem contesta Ricardo Setti: “Se fizessem pequena pesquisa histórica, descobririam que, no Ocidente, os partidos de esquerda crescem mesmo é nos momentos de bonança econômica, quando o capitalismo produz excedentes econômicos bastantes para sustentar a imensa turma de socialistas e assemelhados que invariavelmente ganham a vida sem trabalhar. Foi assim nos Estados Unidos.”

Mais fica esse papo repetitivo e complexo escorado na passagem da Bíblia que diz que é mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Embora, quando no exercício do poder, os esquerdistas (é regra universal) sigam tudo o que condenaram e fiquem milionários (a começar pelo Brasil).

Passamos o século vinte nesse dilema e, como ficou claro na morte da Senhora Thatcher, passaremos outro século sem que alguém traga luz para a formulação da tão sonhada terceira via. Afinal, por que estaríamos condenados a optar entre o comunismo-socialismo e o capitalismo? Não estamos, mas há essa impossibilidade de formular opção consequente ao que funciona minimamente porque nos falta serenidade para debate sereno. Reinaldo Arenas, o grande escritor cubano perseguido pelo regime de Fidel Castro e seus asseclas e expulso da Ilha por ser homossexual dizia que a diferença entre comunismo e o capitalismo é que no primeiro os governantes dão um chute na bunda e não toleram reclamações e no segundo recebemos o mesmo chute e podemos berrar, espernear, reclamar a vontade com pouco risco de ser fuzilado.

Ah, sim, sobre a Senhora Thatcher ter se relacionado bem com o tirano Augusto Pinochet, pouco se importando com a ditadura chilena dizem que ela fez isso apenas para fazer rusguinha com os apoiadores do tirando Fidel… seria coisa de geopolítica! Nisso não me meto, pois tanto esquerda quanto direita adoram uma ditadura…

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Por Ivaldino Tasca

Jornalista e radialista. Natural de Barra Funda/Sarandi-RS. Reside em Passo Fundo, onde já foi secretário de Meio Ambiente e de Cultura. Atuou na Cia. Jornalística Caldas Junior por dez anos, foi chefe de redação e diretor de O Nacional, mantém coluna no jornal Diário da Manhã e programa sobre ecologia na Rádio Uirapuru de Passo Fundo.
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