A desilusão de um apaixonado por rádio

Tenho um amigo apaixonado por rádio. Já trabalhou na Inglaterra, em alguns meios de comunicação no Brasil, mas nunca pode assumir funções definitivas numa emissora de rádio por conta da falta de um registro profissional.

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Como paixão não tem limites, lá foi o meu amigo para a UNIRB, uma faculdade de Salvador, Bahia, fazer o tal curso de radicalismo e esquentou cadeira durante dois anos, aprendendo coisas que nunca vai poder utilizar, para ter o tão sonhado certificado e registro profissional.

Feliz com sua formação caiu no mercado e foi sentir de perto a realidade, na verdade, um pesadelo insuportável para qualquer pessoa séria. A seguir, reproduzo um e-mail que me enviou esta semana, mostrando sua decepção e frustração, o que deve estar acontecendo com muitos outros profissionais na mesma situação, não apenas da Bahia, como ele. Para protegê-lo da ira dos incompetentes, não vou citar seu nome.

Minha despedida do meio de Rádio.

Descobri pela maneira mais dura que, na Bahia, não dá mesmo.

O meio é dominado por ignorantes, religiosos oportunistas, exploradores, políticos canalhas, donos de rádio frouxos e mentirosos e seus laranjas mais abjetos ainda.

São pessoas dessa “qualidade” que dominam os meios de comunicação na Bahia e me afastam inexoravelmente dos estúdios e salas de produção.

No meio rádio baiano, não existe salário, plano de carreira, mérito, Ascenção por competência e talento. Até a sagrada comissão dos departamentos comerciais foram engolidas pela terceirização. Eles terceirizaram tudo: as vendas, os programas, suas imagens, suas consciências.

Há uma maioria esmagadora de donos de rádio que nunca se interessou por seus veículos. São radiodifusores omissos, não se colocam à frente de seus empreendimentos, entregam nas mãos de incompetentes que deitam e rolam diante da absoluta omissão do poder concedente, cúmplice imoral dessa fenomenal bagunça, dessa farra com concessões públicas.

O mais grave é que formam uma corrente devastadora de empresários que estão levando o meio rádio para o fundo do poço, destruindo seu patrimônio maior que é a qualidade de seu produto e a credibilidade do ouvinte.

Mais grave ainda é a absoluta falta de compromisso com o aspecto cultural, já que utilizam seus meios de comunicação para todo tipo de anti-cultura, como músicas de péssima qualidade, programas sem elaboração, apresentadores sem qualificação, sensacionalismo irresponsável e concessão para religiosos inescrupulosos.

Eles receberam de graça essas concessões de Rádio apenas como ferramenta política, que transformam covardemente em arma contra adversários e atentando contra a democracia, ao interferir deslealmente na opinião pública. Eles não merecem a denominação de “radialistas”. Eles envergonham os verdadeiros radialistas.

A dor que sinto agora neste desabafo devia ecoar Brasil afora para que nunca mais seja concedido a estes vermes a posse de uma ferramenta de comunicação tão grandiosa.

São eles, em parceria com um poder concedente frouxo, os principais responsáveis pela degradação dos costumes com essa enxurrada de notícias sensacionalistas e sem propósito, dramatização da fé e da dor alheia. E para piorar, ainda divulgam o pior da música, sem letra, sem melodia, sem história e sem valor cultural. Insistem em chamar estas músicas de sucessos que o povo gosta de ouvir, mas não aceitam que, se as pessoas consomem essas porcarias é porque eles recebem propinas grandiosas para executá-las, num processo de lavagem cerebral tão nociva quanto o “crack”.

Todo indivíduo esta apto a se aprimorar, desenvolver-se intelectualmente e se educar, se a ele for oferecido um bom produto, de música e entretenimento com qualidade. Isso vale para todos os conceitos. É como água e alimentos de boa origem e qualidade. Hoje a massa pobre e com poucos recursos financeiros e sociais esta fadada e condenada a continuar neste processo de envenenamento sócio cultural. Quanto mais estas pessoas forem influenciadas e mantidas neste perfil, mais tempo levarão para se transformarem em verdadeiros cidadãos, com direito a escolherem seus destinos.O mais grave é que o poder concedente exige nos editais de concessão que todos esses aspectos sejam contemplados, ou seja, o meio deve divulgar cultura, informação de qualidade, respeito a cidadania, etc, etc, e nada é respeitado.

Foram quase duas décadas me dedicando e tentando fazer algo pelo meio de Rádio, mas fui vencido pelo cansaço. Não deu mais para continuar sendo enrolado por imbecis assustados e inseguros com a possibilidade do novo, do qualificado, do segmentado, do produto de melhor qualidade.

Eis ai, amigos, o desabafo de um profissional altamente competente e sério, impossibilitado de exercer sua profissão por causa da mediocridade do meio que oferece pouquíssimas oportunidades e, a cada dia, encolhe mais.

3 respostas
  1. Abel Araujo says:

    Eu como radialista VERDADEIRO,assino em baixo palavra por palavra da publicação de J.Pimentel meu amigo e companheiro de tantas jornadas.Infelizmente a mediocridade tomou conta deste tão importante veiculo de comunicação,não estou vendo nada que possa reverter no momento a situação calamitosa em que se encontra o nosso querido RÁDIO.Sou radialista desde 1966,vivo há 20 anos fora do rádio.Abel Araújo registro profissional na DRT de Salvador BA Numero 3.170

  2. Ivy Ribeiro says:

    Faço parte desse “nova geração”. Realmente não tenho mais esperança de escutar uma boa programação musical nas rádios baianas, com programas cada vez mais sem conteúdo, tanto musical como cultural, não escuto mais as rádios.

  3. Faustino H. Dorofei says:

    Parabéns J. Pimentel. Faço minhas suas sábias e justas palavras. Também sou radialista. Estou fora do meio a bastante tempo. Nasci na cidade de São Paulo. Conheço bem o rádio da capital, inclusive ouvi bastante América nos anos 80. Sou fã incondicional de um rádio bem feito, algo que quase não existe mais. O que acontece aí na Bahia, acredito que acontece em muitos outros lugares deste país. Em Araraquara, é um exemplo. O monopólio é escancarado e até hoje não ví ninguém que tivesse peito para acabar com esse domínio, pelo contrário, estão colecionando cada vez mais emissoras na região. É MUITO TRISTE VER E NÃO PODER FAZER NADA !!!
    Será que um dia isso tudo vai acabar ???

    FHD

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