A dúvida

O radialista e corretor de imóveis, Álvaro Antunes Carriel é um amante da vida, mas pouco cuida da saúde.

Passa despercebido aos que o ouvem todos os dias; quem iria imaginar que o respeitado comunicador não pratica exercícios físicos, que come mocotó, dobradinha e churrasco com muita frequência? Sem contar aquela cerveja gelada e um bom uísque. Embora Álvaro sempre dissesse que não tinha medo de morrer, dizia também não ter pressa nenhuma.

Já o Felisberto, xará do dono do bar que fica quase ao lado da barbearia do Otávio era o oposto de Álvaro. Felisberto praticava exercícios físicos todos os dias. O viúvo não usava como desculpas nem dia de chuva. Caminhadas, corridas, alongamentos, cuidados com a alimentação, nada de cigarro e álcool muito moderadamente. Felisberto queria passar dos 100 anos.

Num encontro na barbearia do Otávio, Álvaro e Felisberto falaram da vida, das saudades, do futuro e acabaram falando sobre o atual cuidado com a saúde. Um conhecia bem o modo de viver do outro. Álvaro dizia a Felisberto que curtisse mais a vida; que devia relaxar e viver melhor. Felisberto agradecia as sugestões e dava orientações ao amigo locutor, ele deveria se cuidar mais se quisesse viver mais; praticar exercícios, moderar a alimentação e etc. Para ambos os conselhos entravam por um ouvido e já saiam pelo outro. Era como se fossem gratos pela sincera preocupação e ao mesmo tempo diziam em pensamento, “quem é ele para me dizer isso”. Afinal de contas, Antunes Carriel queria viver e não se cuidava; Felisberto se cuidava, mas pouco curtia a vida. O importante era a verdadeira amizade deles.

O dr. Araújo, médico e amigo da turma da barbearia tinha mais de 30 de experiência. Nas horas de folga caminhava até o bar do Felisberto e ali continuavam os bate papos da barbearia. O Felisberto sempre cauteloso com a saúde era o único que ia ao bar do xará só para conversar com os amigos e sempre tomava água mineral; nada de bebidas alcoólicas ou dos salgados servidos ali. Numa tarde de sábado o dr. Araújo convidou os amigos a cuidarem mais da saúde, fosse com ele ou com qualquer outro médico.

Dias depois Álvaro estava a espera da sua consulta em meio a uns 10 pacientes do dr. Araújo. Um tanto nervoso e como nunca tinha se consultado com o velho amigo dos papos no bar e da barbearia resolveu fazer uma breve pesquisa. Perguntou a um homem que aguardava atendimento; o paciente na espera, um sujeito aparentando um pouco mais de 50 anos estava encostado na parede prestando atenção ao programa da Ana Maria Braga. Álvaro se aproxima e diz:

– Bom dia, meu amigo. Por favor, o senhor já se consultou com o dr. Araújo? O que acha dele como médico?

O homem, ainda encostado na parede, disse calmamente:

– É minha segunda consulta com ele, mas gostei. Esse doutor tratou do meu falecido pai, da minha falecida sogra, de um falecido primo; e ah, de um falecido vizinho. Parece bom.

Álvaro não sabe, mas quem está lá dentro naquele exato momento é o amigo, Felisberto.

Doutor Araújo embora amigo de Felisberto faz as perguntas necessárias com todo o seu profissionalismo:

– Felisberto, o que te traz aqui?

– Quero passar dos 100 anos, dr. Araújo.

– O amigo está com quantos anos mesmo?

– 50 anos; completei faz 2 meses.

– Felisberto, você está viúvo há quanto tempo?

– Faz 9 anos, meu amigo.

– Tem alguma namorada ou intenção de casar de novo?

– Não. De jeito nenhum.

– Tem filhos?

– Não. Minha esposa não podia engravidar.

– Mas tem lá suas paqueras, quero dizer, tem vida sexual ativa?

– Não meu amigo. Desde que Maria morreu nunca mais estive com outra mulher.

– Mas costuma ir a bailes, quero dizer, festas, essas coisas?

– Não, meu amigo. Sou muito caseiro. Quando muito vou à barbearia ou ao bar do meu xará.

– Já sei que você não fuma e no bar nunca te vejo bebendo, mas em casa, toma uma cachaça, vinho ou qualquer outra bebida alcoólica?

– Não senhor, nada de álcool, faz mal à saúde.

– Felisberto, você pertence a alguma religião ou participa de algum tipo de organização que ajude ao próximo e a ocupar sua cabeça e seu tempo?

– Não. Essas coisas são incomodação.

– Tens viajado ou tem planos de viagem?

– Nem pensar. Gosto mesmo é da minha casa.

– Quais são teus planos? Afinal de contas, você completou 50 anos recentemente.

– Planos? Nenhum. Vou levando a vida.

O dr. Araújo tira os óculos e aproxima seu corpo de sua mesa. Com os olhos bem fixos em Felisberto, pergunta:

– Não me leve a mal, Felisberto, mas você está ótimo, todos os seus exames indicam uma saúde de ferro. Você tem certeza de que quer viver assim até os 100 anos?

Felisberto, pensativo, sai do consultório e fica surpreso ao ver Álvaro aguardando sua vez. Álvaro cumprimenta o amigo, mas Felisberto devolve o bom dia meio sem vontade, nem um sorriso sequer. O radialista fica preocupado, o que teria deixado Felisberto tão desanimado? Teria ouvido alguma notícia ruim do médico, logo ele que se cuidava tanto? Aquela dúvida não saia da cabeça de Álvaro.

Álvaro faz sua consulta com o dr. Araújo e sai dali determinado a mudar de hábitos; exercícios, alimentação e etc.

Numa noite de sexta-feira Álvaro vai à casa de Felisberto. Toca a campainha, bate palmas e nada. Então uma vizinha se aproxima do muro ao lado e diz que Felisberto havia saído. Disse que estava contente de ter visto o querido vizinho enfim sair de casa. Comentou inclusive que ele fez questão de dizer que iria a uma churrascaria e a um baile. Chegou a perguntar a vizinha se estava bonito. Felisberto estava “super bem arrumado e perfumado”, acrescentou a vizinha. Álvaro agradece a educada senhora e sai ainda mais preocupado.

O que teria acontecido com o amigo, Felisberto? Estaria realmente doente, talvez desenganado? O Felisberto sempre se cuidava e agora o via indo a bailes, tomando uma boa cachaça no bar do xará. Na barbearia do Otávio comentou que faria uma longa viagem. Álvaro queria ajudar o amigo, mas o que dizer a um homem que passou a vida se cuidando e agora acabaria assim? Que vida ingrata, pensava Álvaro.

Certo dia os dois amigos estavam conversando em um restaurante. Felisberto disse a Álvaro:

– É meu amigo, você sim soube aproveitar a vida. Não perdeu um bom momento sequer. Eu o admiro por isso.

Álvaro coloca as mãos sobre a mesa e mesmo com vontade de falar sobre a saúde ou a misteriosa doença do amigo resolve apenas tentar animá-lo. O radialista diz ao Felisberto:

– Não, meu amigo. Você sim sempre soube valorizar a vida. Na verdade eu é que admirava sua força de vontade e disciplina, mas nunca dei valor a vida. Só que depois da consulta com o dr. Araújo resolvi mudar, aliás, já mudei.

Agora é Felisberto que fica preocupado. Será que a visita ao dr. Araújo havia revelado alguma doença grave no amigo radialista? Isso explicaria sua aparência preocupada e as mudanças que fizera; logo ele e tão de repente.

Felisberto olha bem para o amigo e diz:

– Continue aproveitando a vida.

Álvaro sente um nó na garganta e diz:

– Vou aproveitar a vida para me cuidar. Quero viver como você.

Felisberto faz questão de pagar a conta e os amigos saem juntos. A dúvida sobre a saúde um do outro é grande, mas como perguntar? “Talvez devessem apenas fazer os ajustes indicados pelo dr. Araújo e manter a amizade”, pensou Felisberto. “O tempo revelaria o restante, por ora seria melhor se cuidar, mas sem deixar de aproveitar”; pensou Álvaro. Caminharam sem trocar nenhuma palavra; apenas a dúvida sobre o que estava acontecendo os acompanhava.

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