A encruzilhada

Sou do tempo em que o rádio era o principal entretenimento das pessoas. Era um período de transição e diziam que o rádio ia perder seu espaço para a televisão. As novelas migraram do rádio para o vídeo e todos os programas humorísticos do rádio foram adaptados para a televisão. Até “Jerônimo, o Rei do Sertão” saiu das ondas do rádio para a telinha. Mas o rádio não acabou. Mudou para música e notícia, um espaço imenso ainda inexplorado, até porque não havia também FM. Antes de continuar ouça Jerry Adriani numa gravação da década de 1970. Ele canta Doce, Doce Amor, de autoria de Raul Seixas que assinava suas composições à época como Raulzito. Raul fez parte de um grupo musical, Raulzito e seus Panteras que acompanhou Jerry durante três anos. Essa música foi gravada em 1969 em Lp de 12 polegadas.

A interação com o ouvinte era feita através de cartas e telefone e as rádios se dividiam entre ecléticas e musicais.

As ecléticas tinham os apresentadores, com suas características pessoais, sua forma de comunicação, sua capacidade de sedução. Cada um procurava o melhor conteúdo para seus programas e diversos quadros foram criados, como sessão de horóscopo, culinária, entrevista, enquete, utilidade pública, reportagem dos bairros, setorista na policia e nos hospitais e assim por diante.

Os apresentadores tinham até fã clube e distribuíam autógrafos nas portas das rádios. Eram figuras importantes e indispensáveis nos shows de finais de semana nos bailões, circos e salas desativadas de cinema.

J.Pimentel e Jerry Adriani, em 1980, na rádio Tupi de S.Paulo. Logo em seguida a rádio seria definitivamente fechada.

J.Pimentel e Jerry Adriani, em 1980, na rádio Tupi de S.Paulo. Logo em seguida a rádio seria definitivamente fechada.

Eu mesmo tinha um fã clube na rádio Tupi com mais de 200 participantes fixos. Juntamente com Jerry Adriani e uma cantora chamada Mayra, de quem não tive mais noticia criamos o “Dia da Fã”. Nesse dia nós prestávamos nossas homenagens às nossas fãs em festas que elas mesmas organizavam.

As rádios ecléticas dividiam a audiência com as rádios musicais e todas tinham grande audiência, o IBOPE fazia pesquisa todos os meses, cujos resultados esperávamos com muita ansiedade e os resultados balizavam nossa criatividade. As verbas publicitárias diante disso eram relativamente generosas, se compararmos com os dias de hoje.

Depois vieram as rádios em FM, das quais fui um dos pioneiros, saindo de AM, onde era coordenador e apresentador para implantar emissoras em FM.

Ai decretaram outra vez o fim das AMs. Não foi desta vez. Ela se refez com programações voltadas para noticia, uma revolução que deu certo e dura até hoje em grandes centros. Espaço que lhe vem sendo retirado e transferido para FM.

Agora estamos num novo impasse. O que fazer com esses meios de comunicação, incluindo ai também as FMs. Qual a revolução? Que segmento buscar? Que espaço ocupar? Será que desta vez acaba mesmo e seu destino é a religião? As verbas publicitárias minguaram, outros meios alternativos ocuparam muitos de seus segmentos e a tecnologia avança sobre a passividade do rádio.

Recentemente pude constatar a importância do rádio, num país em guerra, Angola (hoje em paz) o que reforçou a minha crença na incrível força desse meio tão combalido e mal utilizado.
O rádio era o único meio de comunicação efetivo entre o governo e a população. Exatamente por isso os rebeldes destruíam as rádios provinciais para que elas não prestassem informação ao povo carente de noticias. Ao meio dia tínhamos um programa apresentado por ex-combatentes rebeldes radialistas. Eles eram os interlocutores entre governo e guerrilheiros. Houve uma ocasião em que pequenos receptores de rádios foram jogados nas selvas para que os guerrilheiros e populações isoladas tivessem acesso às informações e isso fez toda diferença.

J.Pimentel nos estúdios da Rádio Nacional de Angola. O conjunto de rádios da capital e das prov?ncias foi fundamental como elemento agregador para se chegar à paz, depois de anos de guerra naquele pa?s africano.

J.Pimentel nos estúdios da Rádio Nacional de Angola. O conjunto de rádios da capital e das províncias foi fundamental como elemento agregador para se chegar à paz, depois de anos de guerra naquele país africano.

Na Rádio Nacional de Luanda, aos sábados, havia um programa que debatia os principais temas nacionais, com a presença de pensadores, políticos e intelectuais do país.

Discutia-se a poligamia, a AIDS, a guerra, o futuro, o passado, costumes, educação, saúde, os museks e as consequencias da guerra.

O resultado era tão comovente que, num pais onde as comunicações eram precárias, o povo ia para a porta da rádio e participava do programa pelo interfone da portaria. Era o único caminho que encontravam para se fazerem ouvir.

Neste nosso país continental, com tantas diferenças regionais e tantas carências sociais, creio que haja um grande espaço a ser explorado, mas não vejo um planejamento integrado para se chegar a algum resultado animador. Mas presumo que os radiodifusores estejam discutindo com cuidado o assunto e encontrando soluções.

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