A Farra do Boi

A vida de repórter é fascinante, incluindo o risco à integridade física. Já vivenciei momentos inesquecíveis na profissão. Estive perto de tiroteio, desastre, seqüestro, miséria, indiferença e dor.
Por Léo SaballaTestemunhei situações extremas do ser humano. Além da indignação, esses acontecimentos servem de degraus importantes para o entendimento global das coisas.

Geralmente o que hoje é visto como tragédia, fatalmente será cômico amanhã. Lembro que fui escalado para cobrir o indevassável ritual da farra do boi no Balneário de Barra do Sul, numa época em que os representantes da imprensa corriam risco de linchamento. Percebi a gravidade do problema em que estava me metendo quando nenhum fotógrafo do jornal concordou em me acompanhar nesta missão. Jamais a tal farra do boi na Barra do Sul havia sido registrada jornalisticamente, tamanho era o medo do profissional e a certeza do castigo físico.

Tomei a decisão de cumprir a minha tarefa e depois de muita conversa convenci o fotógrafo Roberto Adam, especializado em coluna social, a me acompanhar. Ele não tinha a menor noção da roubada em que estava entrando.

Para chegar até o local várias vezes precisamos descer do carro e retirar imensas pedras que obstruíam o caminho. Por fim, seguimos a pé até um descampado onde pessoas alucinadas partiam para cima de um boi cansado, ferido e apavorado. O animal também avançava e quando derrubava alguém, era o ponto alto do espetáculo. Garrafões de pinga passavam de mão em mão, naquela noite tenebrosa.

O clarão da máquina fotográfica denunciou a nossa presença. Foi o suficiente para o boi ser esquecido e nós virarmos a atração principal do evento. Um grupo cercou o fotógrafo de forma ameaçadora enquanto eu era flagrado atrás de uma árvore.

Roberto tentou conter os ânimos exibindo a sua carteira funcional:

– Calma pessoal, nós somos do jornal A Notícia e só queremos divulgar esta bela tradição de vocês.

Mal terminou de falar e uma massa considerável de bosta de vaca ainda quente explodiu na careca do fotógrafo. Levamos algumas pauladas e pedradas pelo corpo enquanto corríamos na direção do carro.

Quando pensei que havia acabado, uma verdadeira chuva de esterco começou a ser direcionada para nós. Chegamos em Joinville literalmente adubados. A matéria foi publicada e a foto do Roberto ganhou destaque na capa.


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Por Léo Saballa

Radialista, publicitário e produtor cultural. Residente em Joinville/SC, atuou em diversas emissoras de rádio em Santa Catarina. Como jornalista, foi editor de Política e de Geral no jornal A Notícia de Joinville, onde é cronista no caderno AN Cidade. Léo tem prestado assessoria de imprensa para entidades filantrópicas.
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