A Filha Bonita do seo Cadinho

A placa, escrita com letra bonita de professora, anunciava: Cadinho Secos e Molhados em Geral, o que, em bom português, significa: vende-se arroz, feijão, trigo e açúcar, pau-de-sabão, réstia de cebola, fortificante, tábua pra lavar roupa, urinol, tamanco de madeira e chinelo de matéria plástica, retrós de linha, elástico e fita de cetim, grega pra enfeitá vestido, vassoura de piaçaba, faca e facão, enxada, canivete, foice e martelo, caixa de fósfro, grampo de cabelo, fumo de corda, bala queimada, cocada, cartucho de amendoim e querosena, fio de nailo, aguardente da boa, panela de barro e de alumínio, banha de porco, arreio de cavalo, carne seca e linguiça de boa procedência, bacalhau e demais gêneros de primeiríssima necessidade. Cadinho era o dono do estabelecimento.

O tal do homem só sabia fazer duas coisas nessa vida: uma era cuidar da venda, outra era cuidar das quatro filhas que criava sozinho, já que a patroa pariu de vereda, com intervalo de um ano e dois meses entre uma criança e outra e depois morreu no parto. Antes disso tinha sido uma moça muito bonita; já ele, coitado, o que tinha de bom tinha de feio, desde pequeno. Ao vê-los de braços dados na saída da missa, a comadre Laurinda, que não sai da janela dizia baixinho: – Ô casal mais disparecido! Quem estivesse por perto, concordava de pronto.

Depois que a mulher morreu, ele nunca mais quis sabê de outra que mulher que nem aquela não se acha duas. Das quatro filhas, apenas ela herdou da mãe a formosura; as outras três saíram o pai, escarrado. A criança quase que não vinga, mas a reza foi tanta que uma santa a recém canonizada se apiedou da criatura, daí o seu nome. Mesmo assim, a pobrezinha passou a vida empalamada, desquarada e intanguida. Mas não é que, à força de tanto cuidado, novena, ovo de pata e feijão com prego, com o tempo a menina arribô? Assim, como por encanto, se lhe abriu o apetite e ela desatou a comer e a ter desejos de paçoca e mariola, logo ela que vivia com fastio. De um dia pra outro a guria botou os peitinhos, arredondou as ancas e criou cintura, passando da infância direto para a mocidade, sem escalas, como se a natureza estivesse só esperando o sinal verde pra principiar e concluir o seu trabalho. Por isso, quando apareceu na igreja junto com o pai e as irmãs ninguém acreditou que aquela coisinha esmirrada de antes fosse essa moça bonita, em plena florescência. Ninguém prestou atenção na missa, nem mesmo o padre que várias vezes esqueceu o diabo da reza.

A guria garrou gosto pela vida. Quis por que quis estudar na cidade apesar da lonjura. – Poj foi só u Cadinhu dexá e a rapariga si perdê! Dipoj du tali di supletivu ela incajquetô di fazê facudadi. I mulhé lá pricisa dissu, mi dij? – Pra ela non tê qui vortá di ônibuj tard’ da noiti, u pai alugô um apartamentinhu pertu da Úfijqui. Foi u qui bastô minha filha! A doidiça bateu na cabeça! Nu começu ela chegava aqui toda simpática, contanu lorota, maj dipoj ela comprendeu qui cumigu é assim: pão, pão, quêju, quêju! Non tem essa di pão di quêjo, nem pão cum quêju! O Cadinhu, coitadu maj a zermã, juro qui ela virô adevogada i qui tem uma banca di adevogacia lá imbaxu. Dij qui tá ganhanu muntu dinheru trabaianu cuma firma i qui qué pur qué qui u pai apari de trabaiá na venda i qui vai morá c’o ela maj a zermã. _ Quem tem banca é pexeru, qui tem banca di pexe! Eu conheçu u’ a pessoa qui ô non posso dizê quem é – só digu qui é parente dela -, qui conheci tudu da vida dela e dij, c’o a mãu nu cantu da boca, qui sabi bem im quê qui ela é dotora!  Tu non ijpalha qui si u pobre du Cadinhu sabi eli morre du coraçãu! – Uma filha qui deu tantu trabaiu, divia di tê maj consideraçãu! – Non dij pra ninguém qui fui eu qui ti contei, qui ô non gojtu di mi metê na vida duj otru, tu sabij, maj mi contaru qui um dia, u pai ijtranhô aj bucica acuandu, foi vê i pegô ela atráj da venda di safadeza cum vendedô di mercadoria, i qui eli botô ela pra rua di casa, i ela foi simbora cum tali du sujeitu, i qui ele passô ela na cara inquantu tevi vontadi i adijpôj jogô ela na rua da amargura qui é lá qui é lugá di mulhé sem-vergonha. Foi aí qui ela foi apará na zona, cheia di doença, de onde u tali du velho tirô ela pra cuidá deli nu fim da vida – cortá uj cabelu duzôvidu, corta azunha duj pé, alembrá ele di tomá ui remédiu, essaj coisa, im troca di ficá cum patrimôniu. – Pelu qui ô sei, ela tinha vinti i cincu anu quandu casô cum velhu di papel passsadu, maj já tava cum ele dejdi ui vinte. Pur ela non pricisava, maj ele insijtiu, sabia qui non ia durá muintu, quiria dexá ela amparada. – Foi assim qui ela inricô!

* conto que registra uma das características mais genuínas das pequenas cidades: a maledicência. Publicado no livro A Minha Aldeia (Papa-livro 2004) Versão reduzida.

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Por Norma Bruno

Natural de Florianópolis/SC. É graduada em História, pesquisadora, cronista e escritora, autora dos livros A Minha Aldeia e Cenas Urbanas e outras nem tanto. Colecionadora de rendas de bilro e revistas antigas. Filha do radialista e técnico em eletrônica Lourival Bruno, gosta de ouvir rádio desde pequeninha.
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