A grama do vizinho é mais verde

[Publicado originalmente em 8/7/99]

Outro dia li uma velha crônica de Rubem Braga em que ele reclamava dos leitores, que tendo tantas páginas para visitar, tantas notícias para ler, tanto material onde descansar os olhos, em todo o jornal vinham justamente parar ali, lendo-o. Logo ele que, naquele dia, estava sem assunto e sem vontade de entreter os leitores. Terminava rogando pragas e enxotando a todos.

Aqui não se trata de falta de assunto, mas bem que vocês poderiam ir adiante, buscar coisas mais interessantes (e as há em profusão em cada uma das páginas deste jornal que, lembrem-se, não encolheu). Hoje, aqui, não haverá uma única linha (exceto esta) sobre a queda de audiência da Rede Globo, não se lerá qualquer frase (exceto esta) sobre o nível dos programas dirigidos aos baixos instintos e em nenhum momento (exceto este) se permitirão referências chorosas à falta de jornalismo no SBT.

Portanto, com um código de conduta tão rigoroso sobram de fato poucas coisas, aqui, que mereçam nosso tempo. Ou seja, usem o poder que vocês tem de mudar de canal e prossigam, zapeando nas demais páginas, lendo um título aqui, o início de uma reportagem ali e histórias inteiras mais adiante. Insisto, tentando ser gentil, que talvez não seja o caso de prosseguir nesta coluna.

Vício saudável deste final de século, zapear é atividade fundamental, que exercita o cérebro, atila a visão e fornece defesa adequada contra o entulho que obstrui o espectro eletromagnético e as frequências transmitidas por cabo. Invenção baseada na existência de controle remoto e de muitos canais, é provavelmente o último recurso dos que não se conformam com a idiotia iluminada.

Como todo viciado, o zapeador pressiona o dedo várias vezes no braço da poltrona quando vai ao cinema e é obrigado a ficar quase duas horas no “mesmo canal”. Na mesa de bar, se tem vários interlocutores quase não sofre, mas se está acompanhado(a) apenas de uma pessoa, sente desejo incontrolável de dar uma olhadinha na mesa ao lado, e na outra e naquela outra mais, enquanto a companhia, agradável e simpática, conta como têm sido seus dias.

Ao manusear jornais e revistas, não segue uma ordem preestabelecida e passa rapidamente pelos vários tópicos: é preciso mais do que uma carinha bonita para fazer um bom zapeador parar, olhar, ler com atenção. Na TV é preciso mais do que uma bunda de fora para fazer com que o sujeito refreie o impulso quase involuntário de apertar o botão.

Quando o telespectador se surpreende vendo, por vários minutos, o Shoptime ou o ShopTour, deve perguntar-se sobre a situação dos demais canais “a nível de interesse geral, enquanto programação de qualidade” (como se ouviria em alguma sala de aula, não raro pronunciado pelo elemento que se diz professor). Ou sobre seu desencanto com essa vida de zapeador.

Não haveria surpresa se alguma dessas pesquisas que brotam como cogumelos depois da passagem da boiada detectasse que os canais de filmes sustentam os pacotes das TVs a cabo. De tudo o que passa na TV, os filmes são, em larga medida, as atrações que mais justificam a perda de tempo que significa postar-se diante daquele aparelho por mais de dez minutos. Mas, dizem os puristas, cinema não é televisão.

E programas de televisão mesmo, ajustados ao veículo, nascidos ali e feitos para entreter-nos existem vários. O problema tem sido conseguir fazer com que o dedo se afaste do mágico botão que, por controle remoto, muda de canal.

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