A GRANDE MILONGA

Capitão Adelino, um jovem alto, com pinta de galã da Atlântida, um pouco gago, era conhecido como exímio conquistador na noite carioca. Serviu um tempo no Forte da Urca no Rio de Janeiro, onde freqüentava a vida boêmia da cidade, farta de bailarinas argentinas, que eram na verdade, a grande atração nesses ambientes alegres e divertidos.
Por Jamur Jr.

Os freqüentadores dessas boates, a maioria da elite local, não escondiam sua predileção pelas ” importadas” e costumavam ser extremamente generosos com elas, mesmo que fosse num simples encontro para conversar, tomando “cuba libre” ” Pernauts” e fazendo perguntas indiscretas sobre o “inicio” da carreira” de cada uma. A fama das meninas era tanta que até as brasileiras, mesmo as que tinham a pele bem morena por natureza, se esforçavam para parecer argentinas, falando com um sotaque esquisito misturando um ” portunhol”  estranho com um pouco de chiado carioca pelo meio.  Numa das boates mais famosas de Copacabana , que reunia um elenco de belas moças importadas do país vizinho, capitão Adelino acabou se engraçando como uma delas.
Era uma moça de pele muito clara, como freira de internato, pernas bem torneadas, um olhar vivo e um jeito provocante de falar colocando a ponta da língua entre os dentes muito brancos e bem conservados. Essa ” jóia” portenha era a preferida de uma alta autoridade do governo federal e com forte ligação de parentesco com o presidente. 
O fato de um oficial do Exercito conquistar a mulher amada de um membro importante do governo, quase provocou uma tragédia. O capitão foi desafiado para um duelo e sofreu várias ameaças. Com habilidade evitou o confronto.
 O assunto chegou até o Palácio do Governo, gerando preocupação no gabinete. Foi sugerido que o militar conquistador fosse transferido para algum local remoto, de preferencia uma ilha sem muita chance de retorno.  Alguma coisa parecida com degredo. Pensaram em Fernando de Noronha mas, como não havia transporte para aquela ilha optaram por mandar o jovem oficial para a Ilha do Mel, com  a responsabilidade de comandar a Bateria Independente da Costa que fazia patrulha e observação sobre movimento de navios inimigos na região.
O objetivo era mandar o oficial para longe do Rio de Janeiro e mante-lo ocupado para esquecer da bela bailarina. Adelino recebeu a recomendação em forma de ordem, para não deixar a ilha em nenhum circunstancia. E assim fez. Passava o tempo cuidando de suas obrigações perante o destacamento de soldados, fazendo longos passeios a bordo de um Jeep anfíbio e curtindo uma saudade danada da bela argentina que deu origem ao seu desterro disfarçado.
No Rio de Janeiro a jovem ouvia   os tangos mais tristes de Gardel, LePera, Aníbal Troilo e tantos outros, sofrendo com a ausência do amado e estudando formas  para de alguma maneira voltar para os braços de seu “capitan”. O transporte de passageiros entre Rio de Janeiro e o sul do país, na época era muito precário. Os navios eram raros, em função da Segunda Guerra Mundial que colocava todas as embarcações  em estado de alerta no Atlântico Sul.  Um belo dia, depois de várias tentativas frustradas, ela conseguiu se enfiar num cargueiro com bandeira da Argentina, que tinha como uma de suas paradas o Porto de Paranaguá.
Passou o resto da guerra ao lado de seu amado na Ilha do Mel, desfrutando das delicias e prazeres da paradisíaca ilha.


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Por Jamur Júnior

Radialista e jornalista e foi apresentador noticiarista de rádio e televisão em emissoras de Curitiba e Florianópolis. É autor dos livros Pequena História de Grandes Talentos contando os primeiros passos da TV no Paraná e Sintonia Fina – histórias do Rádio. Jamur foi um dos precursores do telejornalismo em Curitiba.
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