A Guaíba acompanha a Missão Apollo

O ônibus lotado de jornalistas pára próximo de uma casamata. Dali, saem três homens: Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins. Horas depois, em um foguete Saturno V, eles vão partir em direção à Lua. Luiz Artur Ferraretto

O inesperado desvio de rota no transporte até o ponto em Cabo Kennedy, onde vão acompanhar o início da Missão Apollo XI, surpreende os representantes da imprensa, entre eles o enviado especial da Rádio Guaíba e da Companhia Jornalística Caldas Júnior, de Porto Alegre, Flávio Alcaraz Gomes.

Como se vissem Cristóvão Colombo a embarcar nas caravelas para o Novo Mundo ou, se alguém preferir, Leif Erikson em seu drakkar viking rumo às terras geladas  em que a América encontra o Ártico, cada um dos presentes deixa de lado câmeras cinematográficas, máquinas de fotografia, gravadores, blocos, canetas… Naquele momento, abandonam a simples condição de profissionais e se tornam, acima de tudo, seres humanos. E aplaudem os protagonistas de uma das maiores epopéias da história.

Neste mesmo dia 16 de julho de 1969, ainda carregando esta emoção, Flávio narra a decolagem da Apollo XI ao microfone da Guaíba, sentindo no peito a vibração do próprio foguete que conduz a cápsula:

– Faltam agora – Atenção, ouvintes! – um minuto e cinco segundos para a Apollo decolar. Muita gente, postada aqui na frente, agachada com medo da explosão. Eu me encontro, precisamente, a três milhas de distância em linha reta do foguete Saturno. É o lugar máximo permitido para a presença de homens de rádio, de televisão e de jornal. Há, na verdade, em volta da Apollo, câmeras de televisão embutidas em casamata que permitirão que os espectadores de todo o mundo acompanhem a decolagem da nave. Atenção, ouvintes! Faltam 25 segundos, faltam 24 segundos, faltam 23 segundos…

Atenção! Começou a subir a Apollo XI. Chamas a envolvem… É o espetáculo mais emocionante jamais testemunhado por este repórter. Lá, começa a subir. Lentamente, muito lentamente, levemente inclinada para a direita. Ouçam o ruído, ouvintes da Rádio Guaíba…

Dias depois, em 21 de julho, acompanhando a alunissagem pelos televisores do Centro de Imprensa, ele volta à carga, descrevendo para os ouvintes da Guaíba, no Sul do Brasil, e da Carve, no Uruguai, o principal momento do Projeto Apollo:

– Vinte segundos, 19, 18, 17 segundos… Atenção, Brasil! Atenção, Uruguai! Atenção, Brasil, e atenção, Uruguai! A Apollo XI através da Águia acabou de pousar na superfície da Lua.

E em seguida:

– Agora sim… Ali o pé dele, o pé direito descendo, muito mais rapidamente do que na simulação, o pé esquerdo em seguida. Tocou o pé na Lua. Ali está, ali está a sombra do primeiro homem a desembarcar no solo lunar. Tomem nota, ouvintes do Brasil. São 23h57 aqui nos Estados Unidos. O comandante Neil Armstrong está desembarcando no solo da Lua. Outra perna, a esquerda. Ele, agora, parece que se firmou na superfície lunar. Nós divisamos apenas a sua silhueta, mas não há dúvida nenhuma: é uma silhueta de um bípede, de um homem, de um homem como nós, de um representante da espécie humana tomando posse, em nome da humanidade, da Lua.
Para os ouvintes do Sul, esta última frase vai rivalizar então com a do próprio Neil Armstrong: “Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade”. A do astronauta, no entanto, é peça do bem montado marketing dos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria; a do Flávio, um arroubo, acabaria tornando ainda mais inesquecível aquela transmissão.


{moscomment}

Categorias: , Tags:

Por Luiz Artur Ferraretto

Nasceu e cresceu ouvindo rádio e as histórias do rádio. Aos poucos foi descobrindo que não queria ser só ouvinte. Formou-se em jornalismo pela UFRGS e começou a trabalhar no rádio. Doutor em Comunicação e Informação é professor do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul/RS. É autor de vários livros.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *