A herança do mensalão

selo-apontamentosQuando se observa os movimentos dos últimos dias em torno do julgamento dos réus do mensalão concluímos que existem mais coisas do que apenas aviões de carreira no ar. É o que repetiria numa hora dessas – dá para apostar nisso –, o gaúcho Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o inesquecível Barão de Itararé. Ele diria mais, com certeza, ao constatar que falta gente no banco dos réus: a pessoa que se vende recebe sempre mais do que vale. Mas afinal, o que corta o espaço aéreo além dos aviões de carreira? Desconforto, grande desconforto. Dúvidas, enormes dúvidas. A análise da enxurrada de informações sobre o assunto gera a péssima sensação de que estão preparando o espirito da sociedade brasileira para algo rotineiro (quase cultural) entre nós: nossa incapacidade de punir os poderosos.

Quando se fala no julgamento do mensalão constata-se que cabe uma tarefa gigantesca aos ministros do Supremo Tribunal Federal, isso é inegável, como é inegável que um deles deveria se sentir impedido de participar do julgamento.  Como publicou o jornal Folha de S.Paulo, não se trata somente do maior processo nos 121 anos do STF, mas também o mais complexo e o de maior impacto político. O que significa, dizer, ainda, que é a ação que mais mexe com os nervos da população.

O processo sobre o mais vergonhoso esquema de corrupção montado dentro do governo federal (é tão escabroso que remeteria, hoje, o julgamento ex-presidente Collor ao juizado de pequenas causas, segundo mencionou o senador Pedro Simon) aglutina 38 réus, cerca de 50 mil páginas, mobiliza mais de 50 advogados, ouviu aproximadamente 600 testemunhas e vai exigir mais de mil decisões individuais por parte dos ministros.

No contexto de dúvidas e desconfortos dois aspectos se sobressaem. O primeiro é o fato: muita gente pode ser absolvida, mas a montagem e o funcionamento de um esquema para corromper parlamentares federais (de vários partidos) com dinheiro público são impossíveis de negar. O testemunho do ex-presidente Lula, em 12 de agosto de 2005, após as denúncias do então deputado Roberto Jefferson, confirma tal tese. Ao Brasil, por todos os meios, Lula disse se sentir “traído por práticas inaceitáveis” e pediu que o seu partido, o PT, pedisse desculpas ao país. Quem diz algo assim?

O segundo aspecto? O mensalão deixará como herança para a história política brasileira como um todo e das chamadas esquerdas brasileiras em particular uma nódoa, uma mancha, um desdouro, um estigma difícil de ser esquecido. Alguns ou todos os corruptos (quem sabe dizer ao certo neste momento?) poderão estar rindo logo adiante – entre eles os milionários que negociaram seus ideais nas sarjetas – mas o estrago para a montagem de novas utopias é profundo.

Nos anos de 1960, sob circunstâncias duras, inicia a gestação de algo novo, ali se apostou na construção de algo vigoroso, libertador, redentor. Muitos pagaram o preço com vida, dor, sangue, tortura. Meio século mais tarde parte da utopia está na delegacia de polícia revelando que a esquerda brasileira conseguiu ser muito mais corrupta do que a direita que combatíamos! Que herança, hein!

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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  1. Carlos Correia says:

    Patético o texto do colega jornalista. Patético em dois dos sentidos da palavra: pelo que tem de esdrúxulo e pelo o que remete ao choro (aqui, o pranto pode advir de novamente esbarrar com um texto mal informado – e que informa mal). De começo, dois ministros, ao menos, deveriam se ver (se ver) impedidos de julgar o caso. No texto, o autor parece referir a Dias Toffoli (cujo possível impedimento ético dá-se por ter sido, em síntese rápida, advogado de uma das partes). Esqueceu-se (ou desconhece) da situação problemática de Gilmar Mendes, este que agora surge em documento como destinatário do caixa 2 tucano, de 1998, e que deu voto favorável à Azeredo numa das instâncias do caso do “Mensalão mineiro-tucano”. O mesmo Gilmar das relações amistosas com Demóstenes Torres, das relações amistosas com Carlinhos Cachoeira, das relações amistosas com Policarpo Jr (da sucursal de Veja em Brasília). O mesmo Gilmar que, a despeito da responsabilidade do caso, está a todo instante a declarar a culpabilidade dos reus, fora dos autos e da corte. Doutra, o autor do texto infere a inegabilidade do uso do dinheiro público; no mínimo, assume a responsabilidade por algo controverso, incomprovado e indocumentado (e – aqui a síntese tem de ser rápida – lembro a recente decisão do TCU sobre o caso Visanet, que é até agora o único aventado como possível alocação de reursos públicos, e que foi dado como idôneo pelo referido órgão). E quem disse que o testemunho de Lula confirma tal coisa? Puro sofisma. A discussão séria refere-se a que nós todos tenhamos em mente que o crime documentado e reconhecido de caixa 2 é gravíssimo, deve ser punido rigorosamente, e se liga a uma das maiores fragilidades de nosso sistema político: o financiamento privado de campanhas (e este foi o erro apontado por Lula). Esse é o tema que incomoda ao poder econômico e seus asseclas partidários, e que ameaça a democracia brasileira (e que é tão mal tratado por um jornalismo inepto). E que tenhamos em mente que o “mensalão”, tal qual narrado por Roberto Jefferson e a mídia hegêmonica, como improvável “compra de votos”, é uma construção (porque inexistente na prática, na realidade, como percebe todo aquele que leu tanto o relário da CPI dos Correios quanto o relatório dos procuradores-gerais), é uma construção, dizia, que serviu a interesses específicos: impedir o primeiro de quedar solitário antes às denúncias de seu feudo nos Correios, e dar ao segundo grupo uma arma com a qual negociar e pôr à parede mais um governo eleito (neste, o PT de Lula, um governo que não fora e não é um aliado preferencial e “confiável). O autor endossa a tese do mensalão facilmente, e da maneira como se vê nas ruas, nos bares: sem crítica, sem informação alternativa, sem embasamento. Além do mais, quer fazer valer que o caso mexe com os “nervos da população”, quando em verdade mexe com os nervos de uma mídia em crise existencial e de qualidade. Ora, para o bem e para o mal, o que se chama de mensalão foi digerido pelo pleito de 2006; e a população não atestou o julgamento dominante que disseminava – e dissemina – a grande mídia. A herança que me incomoda verdadeiramente é a da imprensa, maculada com uma cobertura voltada para a confusão, não para o esclarecimento. Sugere-se ao autor Ivaldino Tasca a leitura, em sua conhecida Folha de São Paulo, do artigo de ontem, 31 de julho, de Jânio de Freitas, “O julgamento na imprensa”. E quanto às utopias desfeitas, sugere-se ao autor o divã, ou, talvez melhor, o exercício da observação atenta e realística das realidades sociais no Brasil e no mundo.

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