A história do padre gaúcho que inventou o rádio

No último dia 30 de junho, completaram-se 91 anos da morte, ocorrida em 1928, de uma das grandes personalidades gaúchas: o monsenhor Roberto Landell de Moura.

Padre Roberto Landell de Mouta (1861-1928)
Reprodução

Nascido em Porto Alegre, em 21 de janeiro de 1861, ficou conhecido como o padre cientista, graças a sua dedicação à pesquisa, especialmente da radiotelegrafia e da radiotelefonia.

Após estudar Direito Canônico na Itália, voltou ao Brasil em 1886 e, no Rio de Janeiro, rezou sua primeira missa, com a presença de Dom Pedro II e sua corte. No ano seguinte, o Padre Landell retornou ao Rio Grande do Sul.

O padre “bruxo”, como era chamado pelas beatas da época, foi perseguido por atribuírem poderes mágicos a seus inventos. Na opinião de Marques de Mello (1943-2018), doutor em Comunicação, caso tivesse nascido na Idade Média, nosso cientista, com certeza, sofreria, por ordem do Santo Ofício, o suplício da fogueira.

Surpreendendo os que duvidavam do êxito de seus experimentos, ele foi o primeiro a transmitir a voz humana por meio de ondas eletromagnéticas, antecedendo em suas experiências científicas o canadense Reginald Fessenden (1866-1932) e o italiano Marconi (1874-1937). Nascia, no Brasil, o rádio. Segundo Ernani Fornari (1899-1964), um dos seus biógrafos, que teve o privilégio de conhecê-lo em vida, o início das suas experiências se deu entre 1893 e 1894. Três anos antes dos europeus, em 1899, em São Paulo, por meio de seu telephoro, ele atingiu o recorde de transmissão radiofônica, com uma distância de sete quilômetros.

Devido a sua visão futurista, o padre cientista pagou um ônus caro. Não deram o devido crédito às suas invenções e ele não obteve patrocínio algum. Acusado de ter feito pacto com o demônio, destruíram os seus inventos, além de ele ser “forçado”, de acordo com as suas próprias palavras, a se afastar da carreira científica. Os estudos sobre hipnose e espiritismo, aos quais também se dedicou, catalisaram, ainda mais, as críticas de seus adversários.

Quero mostrar ao mundo que a Igreja Católica não é inimiga da ciência e do progresso humano.
PADRE LANDELL DE MOURA
Inventor do rádio

Seu esforço para mostrar que a ciência não rivalizava com a fé não modificou, na época, a mentalidade conservadora do clero, embora o Estado laico tenha se estabelecido com a Proclamação da República (1889). A falta de apoio às suas pesquisas resultou, mais tarde, na necessidade do Brasil de importar tecnologia, quando, na realidade, teve a oportunidade histórica de liderar e ser autossuficiente quanto à produção de tecnologia na área da comunicação.

Três de seus inventos chegaram a ser patenteados nos Estados Unidos: o wireless telephone, o wireless telegraph e o wave transmitter, sendo as patentes requeridas, respectivamente, em 1901, 1902 e 1903 e concedidas no ano de 1904.

Padre Landell é patrono dos radioamadores brasileiros e de outras instituições importantes, como a Fundação Educacional que leva seu nome, fundada em 1967, em Porto Alegre, assim como o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Padre Roberto Landell de Moura, instalado pela Telebras em 1976 na cidade de Campinas (SP).

Revista Eco, editada pelos jesuítas do Ginásio Anchieta, 1932
Reprodução / Acervo Musecom

Em maio de 1932, a revista O Eco publicou o artigo “Iluminação a distância”, assinado apenas por J. J. Ele trata da 1ª Feira de Amostras, ocorrida no Brasil em março daquele ano. A iluminação, conforme o registro, foi coordenada pelo senhor Spinelli, desde o Rio de Janeiro, então capital federal. O Museu da Comunicação Hipólito José da Costa (MuseCom) tem, em seu acervo, uma edição desta revista. O público considerou o fato um prodígio. A iluminação da nossa 1ª Feira de Amostras só foi possível, claro, devido ao pioneirismo do já falecido Padre Landell.

Ivan Dorneles Rodrigues (1946-2019), falecido em abril deste ano, foi um dos mais dedicados biógrafos de Landell de Moura. Sua profunda pesquisa elucidou fatos relevantes sobre a vida do cientista. Criador do Memorial Landell de Moura, Ivan frequentou os espaços de memória e pesquisa, como o MuseCom, onde há uma das maiores hemerotecas da América Latina, e o Instituto Histórico e Geográfico do RS. Em um dos obituários de Ivan, o professor Luiz Artur Ferraretto, especialista em história do rádio, escreveu: “Fico pensando qual será o futuro do Memorial em um país pobre de dedicação e de esperanças. É o desafio que fica para as instituições de Ensino Superior. Temo que sigam sem compreender a importância do Ivan e da sua obra (…)”.

Em 2002, os restos mortais do Padre Landell de Moura foram transladados para a Igreja Nossa Senhora do Rosário, no centro da capital gaúcha, onde, em 1863, ele foi batizado.

O texto é uma colaboração de Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite, pesquisador e coordenador do setor de imprensa do MuseCom.

(GAÚCHAZH, 10/07/2019)

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