A Ilha é boêmia e de cultura rica

O jornalista  e escritor Ilmar Carvalho fala do carnaval, das modinhas e diz que Florianópolis não pode se transformar em uma cidade de descartáveis e sim resgatar e valorizar a sua cultura.

ilmarcarvalhoIlmar Carvalho trocou a boemia de Florianópolis pela cultura carioca no final dos anos 70, sem, contudo, renunciar à indolência noturna.

Transformou-se em um apaixonado crítico da música popular brasileira e integrou, por vários anos, o júri do carnaval carioca.

“O compositor de marchinha sumiu, dando lugar aos músicos de Sapucaí, Nêgo Quirido e de outras passarelas de escola de samba”, apimenta Carvalhinho, para quem o carnaval só não despareceu por teimosia do povo, que gosta de se divertir nas ruas, salpicando a folia com as marchinhas tradicionais.

– “Allah-La Ô”, de Haroldo Lobo; “Touradas de Madri” e “Chiquita Bacana”, de Braguinha; “Aurora”, de Mário Lago; “Pastorinhas”, de Noel Rosa”;”Cachaça não é água”, de Carmen Costa; “Máscara negra” de Zé Keti; “Me dá um dinheiro aí”, de Ivan Ferreira; “Mamãe eu quero”, de Jararaca e Vicente Paiva, são músicas cantadas até hoje nas ruas.

Agora, qual o brasileiro que canta por inteiro as músicas de escolas de samba? Claro, os que desfilam nas escolas as decoram, mas as marchinhas, bem como o frevo em Pernambuco e os rituais de culto africano da Bahia predominam e caracterizam bem o entrudo nesses estados”, defende.

Ilmar nasceu em 1925 em Joinville e passou grande parte da sua vida em São Francisco do Sul, onde o casamento lhe rendeu cinco filhos. O pai César Augusto Carvalho foi um jornalista irrequieto e provocador, enquanto a mãe Ritinha cultivou a sobriedade da família de Jaraguá de Sul, de convivência germânica.

Mas foi em Florianópolis que Carvalhinho viveu intensamente. “Eu simplesmente não dormia; esperava pelo sol bebendo no bar ou no restaurante da Trajano”, lembra em meio a gargalhadas.

– O interessante é que nunca faltava amigo para beber. Bebíamos só em dia de feira: de segunda à sexta, mas no sábado e no domingo sempre havia outras feiras, resfolega Ilmar, que desaprendeu o sotaque germânico para acompanhar a verborragia cultural da Ilha.

Carvalhinho, prestes a se mudar para o Rio, lançou, em meados de 70, um livro de crônicas intitulado “A vantagem de ser jovem no Estreito”. E inicia a crônica afirmando: “nenhuma”. Nesta época, ele residia no Balneário do Estreito e confessa que “nunca senti nada por esse bairro, porque a boemia estava na Ilha ou em Coqueiros”.

– Havia no Estreito um bar famoso, cujo principal frequentador era o doutor Aderbal Ramos da Silva. E, é claro, o bar lotava de puxa-sacos do doutor Deba, chocalha Carvalhinho, que este ano chega aos 90 de existência.

Foi no jornal do doutor Deba – O Estado – que Carvalhinho publicava suas crônicas e reportagens. Quem sabe inspirado em João do Rio – o jornalistas-cronista que reportava para o papel o dia-a-dia das ruas cariocas – Ilmar tenha se apaixonado pelo cotidiano da Ilha.

– Era uma maravilha! Comia-se e bebia-se muito bem, Além disso, era impossível não enxergar amigos na rua Felipe Schmidt e adjacências. Todo o dia era de festa, isto porque a Ilha era de música, de poesias. Zininho era o papa musical, mas havia muitos cardeais dos bons. Além disso, existiam as figuras folclóricas, a “Marta Rocha” e outros personagens de rua, lembra.

Para Ilmar, marchinhas carnavalescas de Florianópolis tinham o alcanço de sucesso como as do Rio de Janeiro nos anos 60 e 70.

carnavalIlmar– Quem subir lá no morro/Vai ver a magia que o morro tem/vai ver cabrocha gingando/vai ver a roda de samba…….. essa música de Zininho é maravilhosa, como outras desse mestre da música: “A rosa brigou com o Jasmin/Ficou tão triste, sentida…….” E, de repente, a Ilha perde a sua musicalidade, a sua poesia. Por quê?

Ele mesmo explica que a cidade convivia ao mesmo tempo com três poderes políticos: municipal, estadual e federal e, assim, prevaleceram os interesses em detrimento da cultura, da identidade social.

– Se formos comparar, Florianópolis tem um potencial cultural bem mais significativo que o Rio. Só que os cariocas foram fiéis às suas tradições e aos seus valores culturais, enquanto a Ilha perdeu-se na mistura de regionalismos fortes, como o gaúcho, paulista e mesmo o carioca. O Rio sempre foi a capital cultural do país. Saíamos do Correio da Manhã e íamos direto para o Bottle, Litte Club, para o Bossa Nova, o Papagalo, enfim a boemia corria solto.

Em Florianópolis não era diferente, porque era uma Ilha recheada de magia e que precisa resgatar e valorizar a sua cultura, sob pena de ser uma cidade qualquer rodeada água por todos os lados.

Carvalhinho ressalta que as gestões da política de miséria não comprometeram a cultura do Rio.

– Teatro, shows musicais e outros espetáculos refletem um Rio cheio de vida cultural. E por que a Ilha não pode ser igual? Porque seus gestores não querem? Absurdo!

Florianópolis não pode perder a sua boemia, sua poesia, a musicalidade, a sua magia e seus valores. Ou será que já virou uma cidade de descartáveis? Ela não pode trocar valores históricos e culturais pelo descartável, adverte.

(Publicado originalmente por Laudelino José Sardá,  ND, 17/02/2015)

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