A influência do Rádio na minha infância

Ainda bem menina, lembro da minha mãe, cantarolando músicas da Carmem Miranda, do Carlos Galhardo, e acredito que na sua imaginação, era ela própria no palco, se apresentando ao público. (Só mais tarde vim, a saber, que era isso mesmo, que ela desejaria ter sido…). Foi por volta dos meus 9, 10 anos, que eu, incentivada por ela, fui cantar na “Rádio Pelotense” (em Pelotas, RS, minha cidade natal).
Por Rute Gleber

Aconteceu num programa infantil,aos sábados à tarde. Os candidatos tinham que comparecer uma hora antes do evento, justo para ver o tom da música que iriam apresentar.
Já existiam cantores mirins de destaque neste programa, mas, mesmo assim eu fui incentivada por mamãe. Eu não tinha idéia sobre afinação ou ritmo, mas o pianista acompanhador foi a salvação: (era uma figura muito especial, que mais tarde se tornou um grande amigo meu). Chamava-se  Valmúrio, era um músico de uma simpatia contagiante, cego e – imaginem – deficiente manual: só tinha polegar e mínimo, na mão esquerda; e na direita, outra deficiência. Mesmo assim, com seu sorriso cativante e animador, acompanhava todos os cantores da época, – infantis e adultos.
Durante muito tempo freqüentei este programa da “Rádio Pelotense”; e a cada sábado que passava, procurava levar mais uma música nova, ensinada por minha mãe. Lembro bem, que num destes programas, na ânsia de apresentar alguma novidade, na hora do ensaio, o pianista Valmúrio perguntou-me o nome da música que eu iria cantar e falei: Valsa dos Patinadores. Ele, para se divertir à minha custa, começou a tocar uma Valsa de Strauss. Fiquei apavorada e fui dizendo que não era esta, e cantarolei a música que iria cantar:
                       “Nós queremos uma valsa,
                        uma valsa para dançar
                        uma valsa que fale de amores
                        como aquela dos patinadores,
                        Vem , meu amor,
                        Vem, meu amor,
                        Um passinho de valsa
                        Que vem e que vai,
                        Mamãe quer dançar com papai”.
Aí, aconteceu um fato curioso: como todos os sábados era escolhido um cantor como o “melhor da tarde”, e eu às vezes me classificava; porem, meu irmão, que por um sábado foi lá, cantar justo esta música, tirou o primeiro lugar, e me desbancou. Ele se diverte até hoje com isso (tornou-se uma brincadeira entre nós), e até a bem pouco tempo atrás, quando a nossa mãe já estava muito doente, meu irmão e eu, relembrando, fizemos um dueto e cantamos para ela.
Era o passado, cheio de encanto e magia, ao qual nós três nos transportamos naquele momento! Para a “Rádio Pelotense”, num dos sábados memoráveis da nossa infância.
Rute Gleber* é maestrina e professora de canto.


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