A institucionalização do teste do sofá

A maioria dos profissionais do mercado de radiodifusão no país tem alguma história para contar sobre o famoso teste do sofá. Se alguém ainda não sabe o que é, vamos explicar: é aquele velho esquema de troca de favores sexuais por uma posição melhor na hierarquia da empresa. Por Alvaro Bufarah

Aparentemente, isso ocorre desde a fundação do setor no país e também em outros países. Mas o que tem me chamado a atenção é a institucionalização dessa prática como um recurso válido para a conquista de objetivos profissionais.

Antes isso acontecia com mais freqüência entre um chefe e uma funcionária, porém, atualmente ocorre entre as mais diversas opções sexuais. Como disse uma coleguinha outro dia: “eu gosto é de gente”, ou seja, não importa o sexo.

Situações como essa passaram a ser cada vez mais frequentes no mercado de trabalho brasileiro. Como antes, poucas mulheres tinham cargos de chefia, os meninos estavam em vantagem. Hoje, com a (mais que justa) ascensão do sexo frágil a altos cargos no setor, a tendência é de equilibrarmos os placar.

Tem um célebre caso do diretor de uma grande emissora paulista que denunciou à esposa de seu colega hierárquico o esquema com a amante que ganhara recentemente um apartamento do chefe. Claro que com isso, o barraco foi formado. Gritos, sopapos, empurrões nos corredores da empresa e evidentemente o fim do caso. O pior é a justificativa: o dedo duro aproveitou a situação para engatar um romance com a ex-amante do colega.

Temos muitas mulheres profissionalmente competentes que não precisam desse expediente para crescer em suas carreiras. Nesses casos, temos a pressão dos chefes em tentar levar a funcionária para a cama a qualquer custo e diante das sucessivas negativas acaba criando histórias tenebrosas sobre essas profissionais criando grandes máculas nos currículos.

O mais espantoso é que ninguém discute isso de forma séria e objetiva dentro das emissoras. Parece que todos sabem, mas ninguém enfrenta o problema.

Há outro caso famoso de um diretor de rádio na capital paulista que é bastante conhecido pelos seus feitos sexuais que incluem ter namorado metade da equipe feminina de repórteres da emissora. Todos conhecem as histórias, pois não é segredo. Mas os superiores do gajo não falam nada. Isso é uma forma de respaldar as ações sem caráter dos que se utilizam de seus cargos para barganharem favores sexuais. A mensagem é: se o cidadão assedia suas funcionárias não tem problema, desde que mantenha a produção de conteúdo em alta.

Sem puritanismo, nem discursos morais. Sou contra esta prática por acreditar que para um cidadão ser respeitado como um bom profissional é necessário que tenha caráter além de competência. Caso contrário, estamos falando de pessoas incompetentes até para se relacionar de forma saudável com seus colegas de trabalho. Por isso, não acredito que sirvam a qualquer interesse coorporativo.

Evidentemente sempre teremos alguma alma desgarrada que irá tentar usar esta ferramenta para dar e receber favores dessa ordem. Mas não significa que temos de aceitar e acreditar que é tudo normal, que faz parte da profissão. Sinto muito, mas lembro que foi-se o tempo em que para trabalhar em comunicação era necessário ter carteirinha registrada na delegacia junto com artistas e prostitutas… Os tempos são outros, alguém já percebeu?

Dica de livro

Como comentei acima, o papel das mulheres é cada vez maior dentro do universo das empresas de comunicação. Por isso, indico a leitura de “A face da Guerra” de Martha Gellhorn. Ela foi uma das primeiras mulheres a trabalhar como correspondente de guerra no século XX. O livro da editora Objetiva traz uma coletânea de artigos escritos que vão desde a guerra civil espanhola até os conflitos próximos da virada do século. Gellhorn assistiu a cenas terríveis e descreveu com textos soltos e objetivos as conseqüências da guerra. Por isso, sua obra é tida como um dos melhores relatos pacifistas de todos os tempos.
Prof. Alvaro Bufarah, jornalista, especialista em política internacional, mestre e pesquisador sobre rádio. Coordenador da Pós-Graduação em Produção e Gestão Executiva em Rádio e Áudio Digital da FAAP.

Colaborou Vera Lúcia Coreia da Silva

1 responder
  1. j.Pimentel says:

    O assunto é pertinente e grave. Não se admite, nos tempos que vivemos, subjugar profissionais em troca de favores, não importa de que tipo. Mas é preciso cuidado para diferenciar o assédio e a atração que ocorre entre pessoas. Eu mesmo, como coordenador da Rádio Clube Paranaense, ainda no século passado, acabei me apaixonando e casando com minha apresentadora. Há um ano reuni num livro oito longas histórias sobre o lado humano dos radialistas. Aventuras contadas nos balcões de botecos, nas madrugadas de chuva ou nas reuniões de amigos, que nunca foram para o papel, mostrando como os fatores humanos funcionam no nosso meio rádio, num turbilhão que não podemos controlar.Infelizmente ainda não encontrei editores interessados na publicação do tal livro,mas, assim que editá-lo, mandarei para os companheiros de CAROS OUVINTES e poderemos até debater sobre o tema.Parabéns ao professor Alvaro e a Vera Lucia por abordarem o tema.

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *