A irreverência que tira a paz da emissora católica*

Está  instalada a polêmica no meio radiofônico sobre quem fala mais alto ao público português. De um lado, a emissora da Igreja Católica, com uma privilegiada estrutura nacional e uma confortável liderança construída em muitos anos. De outro, uma rádio suburbana, com programação barata e sotaque estrangeiro, que rapidamente saiu de amadora para conquistar o país.

Cada uma esgrime seus números e defende seus critérios de pesquisa para afirmar a primazia. Mas não há dúvida de que são todos relativos: diferentes métodos dão em diferentes resultados, nenhum cientista social poria a mão no fogo por um deles. Independente disso, está  aí um fenômeno por ser explicado.

A Rádio Cidade‚ como uma rapariga de belas formas e poucas ideias, cuida bem da aparência e usa cosmético importado: estrutura sua programação musical na criteriosa repetição de uns poucos sucessos. A Idea surgiu em Omaha, Nebraska, no longínquo 1955, quando os programadores Todd Storz e Bill Stewart começaram a observar o comportamento do público nas jukebox das cafeterias: o pessoal gastava moedas para ouvir sempre as mesmas músicas. O formato Top 40 recebeu aperfeiçoamentos nestes anos, mas continua essencialmente o mesmo, porque gera bons lucros onde quer que a radiodifusão seja regulada pela lei da oferta e da procura.

Entre profissionais do setor, o triunfo deste estilo toca-discos sobre programações muito mais sofisticadas causa perplexidade. Mas o toca-discos e o pessoal anônimo que o opera são apenas a ponta de um gigantesco iceberg: a internacionalização dos sistemas de comunicação social. Por trás do que se vê (e do que se ouve) há  uma poderosa indústria fonográfica, com recursos econômicos, técnicos e artísticos impensáveis em escala nacional. A fragilidade aparente apenas oculta o triunfo do mais forte.

A Cidade‚ hoje a emissora que melhor interpreta o formato Top 40 em Portugal, além dos 55 minutos de música por hora, só fala o essencial para ser lembrada e diferenciar-se das outras, o que é muito importante para aparecer bem nas pesquisas. Assim, conta a seu favor até a insistência em falar brasileiro: é uma marca registrada, que se articula … linguagem de alta estimulação – o ritmo forte, o volume alto e o tom estridente. Curiosamente, no Brasil esse tipo de rádio fala português com entonação que imita a do inglês norte-americano.

Nas poucas frases ensaiadas que arrisca a “número 1 do ouvinte” faz da irreverência o seu culto. Talvez o humor de suas gags, spots e promoções acrescentem um pouco de inesperado e nonsense … rotineira vida dos ouvintes, banal mas, se calhar, tem piada. Os adesivos estão aí nos automóveis, por todo o lado: podem valer prêmios como um caixão de defunto cheio de eletrodomésticos.

Voltada para jovens e adolescentes das classes C e D (mas atingindo também outros), esta é uma proposta lúdica e nada mais. Sem informação, sem contribuição cultural significativa. Sem nada que lembre a finalidade local que justificou a atribuição da freqüência. Como tantas garotas de Ipanema – e do Guincho -, a Rádio Cidade pode dar-se ao luxo de ser superficial e fútil, enquanto conserva a forma para seduzir o público. E a Renascença que se cuide: não há  limite para as tentações na era das rádios privadas.

*Título original completo:
A irreverência que tira a paz da emissora católica Cidade FM – 107.2 Lisboa e Porto, 100.1 Algarve

*O texto é uma versão abrasileirada feita pelo Editor, a partir do original veiculado no jornal Público de Lisboa, na década de 1990.

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Por Eduardo Meditsch

Radialista, jornalista, escritor e professor universitário, é Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e trabalhou em rádios de Porto Alegre e Rio de Janeiro. Escreveu os livros O Conhecimento do Jornalismo e o Rádio na Era da Informação. Coordenou as coletâneas Rádio Pânico e Teorias do Rádio.
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