Entrevista: André Neves (Escritor/ Ilustrador de Literatura Infantil)

O site Caros Ouvintes tem a honra de trazer para vocês leitores a entrevista que fizemos com mais um dos grandes nomes da Literatura Infantil: André Neves.

Este é o MURI, um mascote que vigia ideias.

Este é o MURI, um mascote que vigia ideias.

Nascido em Recife, capital do estado de Pernambuco, lá começou sua caminhada no universo da Literatura Infantil, tendo se mudado mais tarde para Porto Alegre, onde vive até hoje. André é formado em Relações Públicas e em Artes Plásticas, é arte-educador e promove oficinas e palestras sobre Literatura Infantil e Juvenil.

Autor e ilustrador extremamente diferenciado, em cada uma de suas obras temos temáticas e sentimentos abordados de forma aprofundada, original e bastante pessoal, sendo que André já conquistou inúmeros prêmios ao longo da carreira, como por exemplo: Prêmio Luiz Jardim (melhor livro de imagem) no ano de 2001; Prêmio Jabuti de melhor Livro Infantil pela obra ‘Obax’ em 2011; Prêmio Açorianos de melhor ilustração; recebeu da Revista Crescer o Troféu Monteiro Lobato de Literatura Infantil; Prêmio Jabuti na categoria Ilustração de Livro Infantil e Juvenil em 2013 pela obra ‘Tom’; sem contar o fato de algumas de suas obras terem recebido o selo Altamente Recomendável, concedido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

O trabalho de André é reconhecido também na Europa, tendo até mesmo uma ilustração sua como capa da revista italiana Andersen, dedicada à literatura para jovens. Certamente o autor/ilustrador é um dos nomes importantes a fazer com que o gênero literário tenha conquistado e alçado patamares cada vez mais altos, conquistando inúmeros leitores e amantes da Literatura Infantil.

André, primeiramente gostaria de saber como foi seu primeiro contato com a Literatura Infantil e também o que costumava ler quando criança?

André: Nunca houve um primeiro contato do despertar para leitura porque os livros sempre foram objetos presentes dentro da minha casa. Muito natural ver, ouvir, acompanhar e ler o que era compartilhado por avós, pais e irmãos. Felizmente, raro e contrário ao que temos hoje, sempre tive mais exemplos em casa do que na escola. Ainda pequeno, recordo-me de Coleções de contos de fadas que pelas imagens e quantidade de contos certamente deveriam ser traduções. Lembro da Sylvia Orthof e seu jogo com as palavras, tão próximos da literatura de cordel. Amava quadrinhos desde Tintin, a turma do Maurício de Souza. Depois descobrindo Cazuza do Viriato Correia. Robson Crusoé, A bolsa Amarela da Lygia e não consegui largar o Kafka e o seu A Metamorfose até terminar. Claro, várias leituras ficaram de fora dessa pincelada, a memoria atual são fragmentos da infância e juventude onde ler era ler.

Quais suas maiores influências em termos de escritores e ilustradores?

André: Na escrita / Sou formado em Relações Publicas. Isso me levou ao Espaço Pasárgada, a casa onde viveu o poeta Manuel Bandeira que era uma espécie de Museu. Na época lidávamos com autores pernambucanos e obras publicadas a partir de concursos públicos. Além de recitais e eventos relacionados a literatura e ao próprio autor. Lógico, Manuel Bandeira tem uma importância ímpar em minha vida. Depois de longos anos estive lá, recentemente. Triste não sentir mais a alma do poeta em sua antiga morada.

Na imagem / Comecei muito mais interessado nas artes plásticas do que na ilustração. Estudei alguns anos com a mestra Badida, artista reconhecida do Recife e me encantei pela obra de vários artistas nordestinos como Cicero Dias, Reynaldo Fonseca, Brennand, Abelardo da Hora, entre tantos outros. As festas, alegrias, arte popular, teatro, dança, música certamente tem reflexos em minha obra. Já a ilustração como profissão foi com a redescoberta dos livros e suas ilustrações. Atraído pela imagem dos brasileiros que me antecedem. Angela Lago, Eva Furnari, Eliardo França, Marilda Castanha, Nelson Cruz, Roger Melo, Graça Lima, Marcelo Xavier, enfim, essa turma toda que ainda hoje batalha e mostra para mim e tantos outros um olhar para encantar a infância em todas as idades.

Mas essa arte hoje virou um universo para mim e tem tanta gente no mundo que faz tantas coisas que fica difícil relacionar nomes. Me encanto fácil. Meu olhar é cheio de metamorfoses.

Em seu processo de trabalho como ocorre a fusão do texto com a ilustração? Você os constrói simultaneamente ou em tempos diferentes?

André: Mesmo que exista um roteiro, um texto longo, curto, uma ideia, um esboço, uma pintura ou uma página em branco. São imagens que pontuam a minha escrita. Tudo vira uma coisa só e o contar só se transforma em livro antes da impressão. Isso em relação a minha obra autoral, texto e imagem. Como ilustrador sou apenas um re-contador visual. Reconto com fantasia, com encanto, com formas e corres e tantas outras coisas que pontuam o meu universo criativo. Quase sempre, muito distante do mundo e das palavras escolhidas pelo escritor.

De onde vem sua técnica de ilustração? Como você a definiria?

André: Vem de uma estrada de estudos, pesquisas e experimentações. A definição exata seria Técnica mista por misturar vários materiais. Porém sempre deixo claro que a tinta acrílica é uma base importante para mim. Quase sempre presente e com ela a intervenção de temperas, Ecolines, Pvcs, pasteis, colagens, lápis, canetas e tudo aquilo que surgir para finalizar uma arte.

Uma das coisas que mais admiro em suas obras é o fato de você realizar um mergulho no âmago de seus personagens, de deflorar suas respectivas almas e mostrar os mais profundos sentimentos que lhes impregnam, consequentemente causando uma empatia imediata no leitor, afinal temos personagens longe de serem unidimensionais, assim, temos a oportunidade de conhecê-los em sua totalidade. Como se dá o seu processo de composição dos personagens, e quais autores te influenciaram/inspiraram em particular nesse aspecto, o de deflorar detalhadamente o interior dos personagens?

André: A vida é feita de escolhas e personagens de ficção também precisam agir, correr atrás dos seus desejos e criar ações. Mas se o intimo desses personagens não estão bem definidos ao criador, encontramos apenas histórias superficiais com personagens carcaças, sem nada por dentro. Toda narrativa, densas, cômicas, pesadas, leves, com estruturas simples ou complexas precisam ter essência de energia em seus personagens, no texto ou na imagem, tudo deve conter significado para possibilitar um convite a questionamentos, reflexões, ações e transformações. Isso é ler. Então penso muito nas minhas escolhas em palavras, formas, cores e intenções para melhor contar. Quanto mais os meus personagens me fazem perguntas, mais me encanto por eles.

Andre Neves. Obra:TomEm sua obra ‘Tom’, o personagem lembra muito as características de um menino com autismo, particularmente me identifiquei bastante com a história, já que no tempo da faculdade trabalhei dando aulas de reforço para alunos com necessidades especiais, entre eles também alunos autistas. É realmente admirável o modo como teceu sua história em que as pessoas ao redor de Tom tentavam conquistá-lo, entendê-lo, e com o desenrolar do enredo tornava-se cada vez mais nítido a importância de respeitar o seu jeito e buscar adequar-se ao seu mundo, ao invés de tentar fazer com que Tom se parecesse com os demais. A obra é uma verdadeira ode a singularidade de cada um de nós e ao respeito a essa unicidade. Gostaria de saber qual a inspiração para a construção da história e também do personagem Tom?

André: Faz muitos anos e surgiu de uma experiência pessoal. Aconteceu com um filho de um amigo, autista em alto grau. Girou completamente, mas aos meus olhos ele dançou em música suave. Mas a criação não foi intencional. O ocorrido se cobriu com as brumas do tempo e ficou apagado por muitos anos até o momento que fiz uma imagem muito parecida para o que se tornou a capa do livro. Era para outros fins não literários. Mas sabia que aquela imagem tinha algo mais a contar, e um dia… aconteceu. Relacionei a imagem ao fato do passado e o vento soprou, levou toda névoa do tempo e a história surgiu. Claro, não declarei o problema do personagem para causar questionamentos fortes. Todos somos um pouco autistas em determinados momentos. Alguns no entanto são por demais especiais. Justamente esses fogem a nossa compreensão.

Olhando para trás, há alguma obra em especial que tenha construído e que tenha vontade de realizar uma continuação? Andre Neves, Obra: MargaridaPreciso confessar que Margarida foi uma obra que me deixou com uma vontade enorme de ter mais histórias da personagem, acho que principalmente pelo carisma ímpar que ela detinha.

André: Margarida, Lino e A Caligrafia da Dona Sofia são histórias que os leitores vez por outra pedem continuação. Mas não, sei que algumas histórias deixam vontades para que o próprio leitor possa imaginar.

Aqui no site ‘Caros Ouvintes’ também comentamos bastante sobre cinema, gostaria de saber se você nos revelaria quais os seus filmes prediletos?

André: Difícil. Filmes são como livros. Vou citar algo recente, dica de amigos porque amo animações. A Pequena Loja de Suicídios (Le Magasin des suicides) 2012. Frances. Patrice Leconte. Mágico!

André, agradeço a entrevista concedida, foi uma honra poder trocar ideias com um autor/ ilustrador de grande importância para a Literatura Infantil. Você gostaria de deixar um recado final e também falar sobre seus projetos para o futuro?

André: Ler é muito mais do que palavras. Mas a leitura literária abre os olhos da mente. Agora trabalho em novo livro: Nuno e as coisas incríveis.

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