A luz que ilumina o berço

[Publicado originalmente em 27/7/1999]

Deve ter caído como um bendengó sobre a boa-fé dos preocupadíssimos telespectadores brasileiros o anúncio das avaliações de um grupo de crentes norte-americanos sobre as sitcoms. Para quem não sabe, um dos milhares de associações pró ou contra alguma coisa que existem naquele grande país amigo “classificou” as séries de TV e alguns jornais brasileiros deram guarida a esse momentoso documento.

Will & Grace, por exemplo, segundo esse tal Conselho de Pais para a Televisão, é a terceira série mais danosa à formação dos jovens norte-americanos “por apresentar uma visão muito atraente do estilo de vida gay”. As duas primeiras, para que todos possam conferir, são Dawson’s Creek (“os personagens têm uma obsessão por sexo”) e Melrose Place (“trajes sumários são um estímulo à vulgaridade”).

Que maravilha. Os Estados Unidos, apesar do plural, são singulares. Lá, quem procura encontra opiniões de todos os tipos a respeito de praticamente tudo. Não surpreende, portanto, que exista um grupo que condene Friends porque os personagens Monica e Chandler conversam sobre sua vida sexual. Deve existir algum outro grupo mais radical que veja algum problema sério até mesmo na certinha Early Edition, considerada uma das mais benéficas e edificantes séries por esse tal Conselho.

Desde que a televisão se instalou nos lares como um eletrodoméstico indispensável, os pais, irmãos, tios, tias, professores e professoras estudam formas de manter aquele aparelho como seu aliado na tarefa de educar os jovens. Em todos os países há tentativas de “educar para a TV” com maior ou menor nível de sucesso e com maior ou menor nível de inteligência.

O “ranking” das séries elaborado pelo tal Conselho norte-americano (vai ver trata-se apenas de uma meia dúzia de três ou quatro sem qualquer importância) não é, exatamente, uma novidade. No Brasil essas coisas servem para aumentar audiência (ou vocês não vão dar uma olhada na chatíssima Melrose Place para ver os tais trajes sumários?). E seria muito engraçado enviar umas fitas para eles com amostras da programação da TV aberta brasileira no horário nobre.

Em todo caso, sempre que surge algum movimento de “pais preocupados” ou alguém rotula este ou aquele programa como pernicioso para a formação, coloco uns três ou quatro pés atrás: geralmente quando o cara não conseguiu cumprir sua parte na criação dos filhos e acha que a obra está mal acabada, procura culpados. Ora, a babá eletrônica, que tantas vezes o livrou da incômoda situação de ter que entreter e cuidar da criança, é a vítima mais fácil e frequente.

O pestinha está se revelando um mau caráter? A culpa é da TV. A desgraçadinha está se lixando para a escola e só quer saber de lamber o pôster do Brad Pitt? A culpa é da TV. O nojentinho fica seis dias sem tomar banho só comendo batatas fritas? A culpa, lógico, só pode ser da TV. Quando a questão é mais séria, envolve drogas, comportamentos antissociais, talvez o elenco de culpados aumente, mas não raro a TV também está entre eles.

Não seria mais sensato achar que a culpa (ou que nome tenha) é sempre dos pais (ou de quem os substitua no ambiente familiar dos primeiros anos de vida)? Até mesmo a culpa sobre o papel que a TV desempenha na vida daquelas criaturas não deveria ser de quem as criou? As criaturinhas captam tudo. E quem convive com elas ensina o tempo todo, principalmente quando acha que não está ensinando.

Alguém mais velho acendeu aquela luz azulada diante do berço.

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