A má qualidade não é casual

A solidariedade foi substituída pela concorrência a qualquer custo e a esperança substituída pela violência, sinônimo social de desesperança.

A propósito do último artigo publicado em “Caros Ouvintes” pelo companheiro Antunes Severo, “Programas Infantis”, sobre a pasteurização e qualidade do rádio (quem não leu, leia porque vale a pena) resolvi voltar um pouco no tempo para evocar minha própria experiência.

Tive a oportunidade de ser um dos pioneiros da Freqüência Modulada no Brasil, introduzido definitivamente pelo governo militar, para neutralizar a força que o rádio AM tinha à época e criar um novo meio de comunicação, mais perto de cada grupo social, pulverizado por todos os lugares do Brasil, de abrangência limitada e manipulado ideologicamente.

Para manter o poder era preciso neutralizar a força política dos intelectuais da época, que não se resumiam aos privilegiados acadêmicos ou à classe dominante, mas que já se espalhava por todas as camadas da população, sobretudo jovens pobres, através dos movimentos estudantis de inspiração cristã.

Sustentado na experiência nazista de Goebbels, o principal articulador da publicidade de Hitler, nossos pensadores do regime militar resolveram que era preciso fazer o mesmo por aqui. Idiotizar as gerações futuras para que não houvesse insurgência contra o governo. E conseguiram. Em menos de 20 anos a cultura musical e intelectual do brasileiro comum se deteriorou, os melhores quadros artísticos e culturais foram banidos, os hábitos e costumes se mediocrizaram. O ensino perdeu qualidade e o pensamento foi substituído pela competitividade. A solidariedade foi substituída pela concorrência a qualquer custo e a esperança substituída pela violência, sinônimo social de desesperança.

Como principal meio de comunicação junto ao público mais jovem, o rádio teve papel preponderante nesse novo processo colonizador. Lembro-me que meu antigo “patrão” certa vez chamou-me para pedir que eu mudasse a linha editorial de sua rádio porque sua atividade dependia da boa vontade do governo militar e ele não poderia se expor com um noticiário que questionava o regime.

Nesse tempo, a Rádio CIDADE do Rio foi uma das primeiras FMs brasileiras a utilizar a tal “Locução Quente”, inspirada nas rádios norte-americanas, jovem e sem conteúdo, como bem convinha ao sistema (apesar do indiscutível talento de sua equipe) que serve, até hoje, como padrão de locução e programação em FM.

Assim chegamos ao fundo do poço. O regime acabou a liberdade se tornou um desafio, mas o mal já estava feito. A mudança de regime político não mudou a mentalidade nem os donos do negócio. Pelo contrário, acentuou a violência contra a sociedade. Basta lembrar o balcão de negócios com canais de rádio nas mãos de Sarney, quando Presidente da República, na busca para seus cinco anos de mandato e Antônio Carlos Magalhães, quando ministro das comunicações, uma vergonha inominável, cujas conseqüências sofremos até hoje.

Agora, depois de tantos anos, alguma coisa começa a ser feita, ainda timidamente. Há um pequeno grupo de rádios com programação inteligente, informativa, ética e um imenso vazio intermediário, ocupado pelas tais rádios populares, preocupadas apenas com o número absoluto de ouvintes e alimentadoras compulsivas da degradação cultural e intelectual que tomou conta do país e que movimentam negócios milionários de grupos musicais e artistas medíocres.

No outro extremo, os oportunistas, formados por políticos e religiosos, que se utilizam dos meios de comunicação para seus negócios, de natureza nem sempre confessáveis. Há, portanto, um longo e tortuoso caminho a percorrer para que possamos nos orgulhar novamente do velho e bom meio de comunicação que é o rádio, cuja importância tão bem conhecemos.

Categorias: Tags: , ,

Por J Pimentel

Criou-se ouvindo rádio até que em 1964 ingressou como locutor nas rádios Difusora e Cultura dos Diários e Emissoras Associados. Foi coordenador das rádios Piratininga, América, 9 de Julho e Transamérica de São Paulo. Em Salvador/BA coordenou a Rádio Cidade de Salvador. Especialista em marketing político no rádio e produtor executivo.
Veja todas as publicações de .

Comente no Facebook

0 respostas

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *