A maior “barriga” da história (literalmente)

O jornalista deve ser um desconfiado por natureza. Remar contra a maré e questionar a unanimidade deve ser primordial.

As famosas sete perguntas (o que?, quem?, quando?, onde?, quando?, por que? e quanto?), não respondidas levam à desinformação dos leitores ou ouvintes.

Leia a notícia retirada do arquivo do Jornal Nacional:

” O Jornal Nacional desta quinta-feira começa com o depoimento do brasileiro Paulo Oliveira. É o pai da jovem grávida que foi torturada por neonazistas em Zurique, na Suíça. Ele falou com exclusividade ao correspondente Marcos Losekan, ainda sob o impacto da brutalidade cometida contra Paula e a dor de ter perdido as netas gêmeas que ela lhe daria.” (sic)

Continua o JN, ainda mais ufanista:
 
“A vítima da selvageria vivida em pleno coração da Europa está sendo tratada no Hospital Universitário de Zurique. No local, a entrada de jornalistas é proibida. Em fotos tiradas na semana passada, Paula Oliveira, de 26 anos, aparece feliz com a gravidez de gêmeas.”

O Jornal afirma com veemência:

“As meninas deveriam nascer em agosto, mas, como mostram outras fotos tiradas há dois dias, Paula acabou sendo vítima de três homens com características de skin heads, integrantes de um grupo neonazista. Na barriga, nas pernas, por todo o corpo, a moça exibe as marcas da tortura que sofreu. Mais de cem cortes de navalha inclusive as letras SVP – sigla do Sheiz Volks Partei, o partido popular da Suíça, conhecido por ser extremamente nacionalista.”

Continua o JN, com soberba:

” Somente nesta quinta-feira, a imprensa da Suíça falou do caso e mesmo assim de forma tímida. Uma das matérias na internet simplesmente reproduz a reportagem de quarta-feira do Jornal Nacional. Assim como os policiais, alguns jornalistas suíços também botam  em dúvida o depoimento de Paula, apesar das evidências gravadas no corpo e na memória dela.”

A verdade apareceu

Prefiro nem citar o depoimento das “principais autoridades”  brasileiras, que beiraram o patético. Além disso, você já ouviu o bastante de Celso Amorin e de Luis Inácio (jamais vou esquecer a marolinha).

Selecionei uma pérola do ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, mais um pseudo-ministro deste inchado governo federal. A conclusão é sua.

Deu no UOL:

“O ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, foi duro ao falar sobre o caso. “Certamente, a autoridade brasileira pressionará para que isso não termine assim, para que haja, primeiro, respeito entre a autoridade policial, que tratou mal a jovem brasileira, e, sobretudo, investigação rigorosa e punição exemplar para esse crime, que é gravíssimo porque tem uma conotação de crime neonazista, que traz de volta toda a temática dos direitos humanos, do horror do Holocausto, da discriminação, do preconceito. Não pode haver tolerância com esses intolerantes” (sic)

O UOL  escreveu:

“Há anos correntes do SVP se manifestam contra a livre-circulação de imigrantes na Suíça. Para muitos, os cartazes que o partido distribuiu por várias regiões da Suíça são racistas”. 

Bem, vamos aos fatos:

O diretor do Instituto de Medicina Forense da Universidade de Zurique, Walter Bär, afirmou, a partir de exames de legistas e ginecologistas, que a brasileira não estava grávida e que teria ela mesma feito os ferimentos em seu corpo. Lamentável a irresponsabilidade da imprensa brasileira, que ansiosa por audiência, não checou a notícia como deveria, tornando os jornalistas brasileiros motivo de chacota no mundo inteiro.

Vocês já sabem do final do enredo. A explicação é clara: não tem justificativa. Qualquer coisa, quanto mais sensacionalista melhor, é notícia, mesmo usurpando uma brasileira doente e infeliz que teve sua vida devassada e que nunca mais se recupera.

Essa é a maior barriga da história do nosso jornalismo, que revela o descalabro a que chegamos em termos de informação ou desinformação. Ou as grandes redes, os grandes portais e os jornais, além das rádios espalhadas por este mundão, que apenas repetem a internet, tal como um mainá desvairado, assumem publicamente a falha, pedindo perdão aos ouvintes, leitores e espectadores, implorando uma segunda chance, ou teremos que mudar nossa maneira de acompanhar as notícias.

Há cerca de três anos, fiz a segunda opção: aprendi a perceber a metalinguagem que norteia os motivos que levam alguém a escrever qualquer coisa sobre algo. Minha fonte de informação principal são os blogs, podcasts e artigos científicos. Quando leio algo relevante, uma simples busca em sites como o Online Newspapers (www.onlinenewspapers.com), o Yahoo Alpha ou com Hakia (www.hakia.com) nos alertam sobre variáveis despercebidas. Evitem o Google, pois o excesso de uso do buscador o tornara uma unanimidade perigosa.

O time da imprensa alternativa é parcial sim. Mas pelo menos deixa claras suas idéias, convicções e interesses,  justamente o que a imprensa de massa mais esconde.

2 respostas
  1. Maria Lucia Sampaio says:

    “o que?, quem?, quando?, onde?, quando?, por que? e quanto?”
    Caro, parece que estas perguntinhas básicas caíram em desuso. Como leitora da Zero Hora “on line” todos os dias vejo, no mínimo, uma matéria de algum diplomado que ignora o que seja informação.
    E isto vai mais longe, já que as palavras são escolhidas de acordo com o gosto de quem escreve. Uma pessoa que esteve um ano com câncer esteve um ano “adoentada”. Fulano estudou para o vestibular em livros didáticos. E a grande frase para homenagear Cândido Norberto foi “Poucos fizeram tanto pela magia do rádio quanto Cândido Norberto Silva Santos”. E por aí vai.
    Quanto à barriga propriamente dita, palmas ao Boechat que se desculpou e riu dele mesmo na Bandnews.
    Atenciosamente, Maria Lucia

  2. Carlos A says:

    Alexandre, sobre a ‘barriga’, foi imensa! Porém, lembro aqui, que eles e elas, querem fazer no Primeiro Mundo, o que fazem aqui. Irão, se dar mal, sempre! Que bom! Independente do nível escolar!

Deixe um comentário

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *