A memória do Ezequiel

Ezequiel mal entrou em casa e já ouviu a Suely perguntar:

– Trouxe o remédio do Marcelo? – Ezequiel sentiu como que uma pontada na cabeça, havia esquecido de comprar o remédio do filho. Começa o sermão da mulher:

– Você só não esquece a cabeça porque está grudada no pescoço. Esquecer o remédio do próprio filho! Deixe, por favor, o meu absorvente no banheiro e guarde o leite na geladeira – disse Suely, impaciente.

Como dizer a brava mulher que ele não havia passado no supermercado, nem absorvente, nem leite, nem nada. Suely, perguntou:

– Ezequiel, onde está o absorvente?

– Sabe querida, eu esqueci.

– Meu Deus, Ezequiel. Por que você não se interna?

Ezequiel nem conseguia responder as investidas da mulher. Reconhecia que era muito esquecido. Esquecera só na última semana o guarda-chuva na barbearia, o celular na farmácia, as chaves do carro não lembrava onde havia esquecido. Ninguém mais lhe telefonara além do barbeiro e do farmacêutico para avisá-lo dos pertences ali deixados.

Ezequiel lembrou que há anos vinha pensando em fazer um curso de memorização, mas nunca lembrava de começar. Alguém havia falado que seria bom para ele, só não lembrava quem havia dito isso. Lembrou que por vezes saiu de casa pensando “de hoje não passa, vou telefonar e marcar o tal curso”. Só quando se deitava a noite é que lembrava que havia esquecido de procurar pelo curso. Por muito tempo tem sido assim. Havia dias em que pegava o telefone e antes de ligar lembrava de algo que havia esquecido e parecia mais importante no momento e lá ficava para depois o tal curso. “Amanhã será a primeira coisa que farei ao chegar ao escritório”, pensou Ezequiel.

Logo cedo lá estava Ezequiel todo orgulhoso. Lembrava no trajeto dentro de seu carro que assim que chegasse ao trabalho a primeira coisa que faria seria procurar pelo curso.

Assim que chegou ao escritório, uma empresa de contabilidade ouviu os colegas:

– Bom dia Ezequiel! Tudo bem Ezequiel? Tem um recado do seu Horácio em sua mesa, Ezequiel. Não deixe de ligar para a dona Elvira, ela quer os documentos para hoje.

Com toda a enxurrada de informações e exigências, Ezequiel sentou e lembrou: vou olhar na internet o curso de memorização. Cumpridas as tarefas do dia, Ezequiel telefonou para a mulher e disse que chegaria mais tarde. Começaria o curso. Suely, do outro lado da linha (nem parecia àquela mulher furiosa do dia anterior), disse em tom bondoso e otimista:

– Que bom meu amor. Vá sim. Aproveite bastante. Já comprei o remedinho do Marcelo e ele está bem. Um beijo querido te amo.

Ezequiel já estava orgulhoso de si mesmo. Havia lembrado logo cedo de procurar pelo curso. Sua esposa estava animada. Saiu da firma, entrou no carro e foi. Com o rádio ligado acompanhou o inicio da Voz do Brasil e ficou atento as informações. Achou estranho chegar em casa tão rápido. Parecia haver algo de errado. Tinha algo para fazer? Menos trânsito? Tinha que ir ao supermercado? “Não, meu Deus, o curso, passei direto, esqueci o curso”, falava Ezequiel enquanto batia no volante do carro como se ele fosse o culpado pela sua falta de memória.

Quando entrou em casa Suely fez uma dupla pergunta:

– Que tal o curso, amor? Por que acabou tão cedo? – Ezequiel respondeu:

– Ah, o professor deu apenas uma pequena tarefa. Amanhã teremos de dizer qual a primeira coisa que ouvimos ao chegar em casa.

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