‘A minha época também é hoje’, diz Chico Anysio

Sem saudosismo, o humorista fala sobre a carreira e as divergências com a Rede Globo. (*)

Chico Anysio em seu apartamento no Rio: “O que eu fiz está feito, isso ninguém tira de mim
RIO – Este ano, Chico Anysio celebra quatro décadas na TV Globo. No entanto, embora continue sendo reverenciado pelo público brasileiro e os colegas por seus mais de 200 personagens, não parece haver motivo para festa. Aos “77 anos e três quartos”, o humorista não está parado: tem show de esquetes em cartaz no Rio até fevereiro, é visto no cinema no blockbuster Se Eu Fosse Você 2 e coleciona projetos, os mais variados, entre livros, uma novela para a Globo e um programa de rádio. Mas desde 2002 não tem programa próprio (só fez participações especiais).  

“Até hoje, em qualquer lugar do Brasil, as pessoas reclamam a minha ausência. Isso me ajuda a encarar essa geladeira”, diz Chico. Sua voz tem um traço de amargura; seu discurso, também. Só que ele não se faz de coitado, preferindo olhar para a frente. Senta-se ao computador todos os dias e escreve sem parar. Também é diária a ida à academia do fisioterapeuta, onde a briga é contra o enfisema pulmonar, diagnosticado há 24 anos (fumou por 40). Nos fins de semana, diverte-se com os netinhos na piscina de seu condomínio, na Barra da Tijuca. A pintura ele parou momentaneamente, por falta de espaço em casa.

Bom de papo, Chico recebeu o Estado para uma conversa de duas horas na quarta-feira, no apartamento em que vive com Malga, sua sexta mulher, e dois cachorros. Sorri muito, comenta algumas “pequenas vitórias”, como a falta de manchas senis nos braços e mãos e o fato de já conseguir caminhar 35 minutos na esteira. “Estou muito feliz com meu enfisema. Pelo tanto que eu fumei (mais de três maços por dia), poderia ter tido um câncer facilmente.”

Você está há 40 anos na Globo. É triste fazer aniversário fora do ar?
É uma vida. Eu entrei um mês depois de o homem fingir que foi à Lua. Não é triste, porque durante o tempo em que estive no ar, eu ajudei a Globo. Eu fui, de certa forma, uma pessoa importante na Globo.

Para você, estar no palco é tão prazeroso quanto estar num estúdio?
É diferente, não dá para comparar. Um é basquete, outro é futebol.

Como é o show De Pai Para Filho, com o qual você e seu filho André Lucas estão em cartaz?
Esse show foi feito a partir do diálogo da velhinha prostituta que nós fizemos no Programa do Jô, que as pessoas começaram a pedir. Eu conto coisas, ele conta coisas, e fazemos cinco esquetes. É muito melhor do que me ver na TV. Não tem contador de histórias melhor do que eu.

O que você assiste na televisão?
Não assisto TV aberta. Eu tenho uma cláusula no meu contrato que diz que sou proibido de dar qualquer opinião sobre programas ou decisões da direção, então, para evitar qualquer problema, não vejo. Seria difícil ver sem falar nada. Sou língua solta. Mas não entendo de TV o suficiente para ficar criticando isso ou aquilo. Eu entendo de humor.

Você não vê nenhum programa de humor, o Pânico na TV ou o CQC, que foi um sucesso no ano passado?
CQC, o que é isso?

Qual é sua opinião sobre o tipo de humor que o Pânico faz?
Há dois tipos de humor: o engraçado e o sem graça. Se for engraçado, funciona, é ótimo; se for sem graça, não presta. É difícil eu te dizer se é bom ou é ruim. Eu teria que ver para emitir uma opinião.

Você tem escrito muito?
Muito. Fiz uma novela com meu irmão (Elano), dirigida ao público da terceira idade. Nós fizemos com a intenção de colocá-la às 17h30, para ela alavancar o Ibope da novela das 18 horas, transferindo Malhação para as 17 horas. Malhação é um programa dirigido a um público certo, que, depois que acaba, desliga. Um dia vai ser aproveitada. Quando acabar meu contrato na Globo, posso negociar essa novela com qualquer televisão, se a Globo não tiver usado ou quiser usar. Quando eu morrer, meus filhos poderão fazer dela o que bem quiserem.

Ficar fora do ar tem te deixado amargurado?
Durante algum tempo, pensei que minha retirada da grade fosse uma coisa momentânea, e, a qualquer momento, seria utilizado de novo. Então, por achar isso, não me deu angústia nenhuma. Depois, eu percebi que era para sempre, que eu estava sendo rifado. Aí eu já estava acostumado a não ir, a não fazer.

Em algum momento você se cansou de fazer algum personagem?
Nunca. É o meu trabalho. Nunca pensei: “Ai, tenho que trabalhar hoje…” É uma glória fazer o que eu faço. Fazer o que eu fiz… É uma história grande a minha. Isso é uma coisa que ninguém tira. O que eu fiz está feito.

Quando tiraram a Escolinha do Professor Raimundo do ar, em 2002, o que lhe foi dito, exatamente?
Falaram que na véspera ela tinha perdido no Ibope. Aí eu disse: “Mas ontem foi a primeira vez que perdeu. E ontem o Silvio Santos colocou no ar O Exterminador do Futuro, que ganharia de qualquer atração.” Isso me doeu muito, por dois motivos: foi na semana do Natal e a cinco meses antes de a Escolinha fazer 50 anos no ar. Também me desgostei porque não me deixaram fazer a despedida. Fiz um texto legal, agradecendo a audiência por 49 anos e 7 meses. Aí eu passei a achar que ela voltaria. Depois é que eu percebi que não.

E você gostou de fazer participações especiais em outros programas?
Gostei. Mas nenhum papel foi importante. Se eu não puder ir hoje, botam outro no meu lugar. Não é um papel que faça falta.

Você tem uma situação financeira confortável, não?
Não tenho dinheiro guardado. Eu tentei guardar, mas eu tenho cinco divórcios. Não tenho nenhum imóvel. Como se dizia, eu não tenho onde cair morto (ri). Eu tenho uma casa na Serra, em Petrópolis, que eu dei para os meus filhos.

Como é seu relacionamento com seus dois filhos caçulas (Rodrigo, de 16 anos, e Vitória, de 14, do casamento com a ex-ministra Zélia Cardoso de Mello), sendo a diferença de idades entre vocês tão grande?
Eles moravam na América e agora estão morando aqui. Mas não vão ficar. Eles são americanos. É inútil querer tapar o sol com a peneira. Pensam como americanos, falam “Posso ter uma coca?”, como “May I have a coke?” A convivência tem sido boa, pelo menos para mim.

Você acha que a audiência medida pelo Ibope é muito valorizada?
Sempre foi. Acho até que mais do que devia, porque o Ibope pode dizer quantas pessoas viram, mas não quantas gostaram. E é muito difícil nos dias de hoje haver casas com uma TV só. Aqui, se puser no quarto da Vitória, vai dar MTV; no Rodrigo, ESPN; na cozinha, SBT; na sala, SporTV, que é o que eu vejo. Vejo também Law & Order, House, Smallville, Two & A Half Men.

Você tem um personagem preferido, entre os 209 que já fez?
O Professor Raimundo. Foi o primeiro que eu fiz no rádio, me deu sucesso no rádio. Depois eu levei para a televisão. Através dele, muita gente começou. Zilda Cardoso, Mussum, Zacarias, Ary Leite, Castrinho…

Você se incomoda de ver a Escolinha sendo feita por outras pessoas?
A Escolinha da Record não me incomodou porque deu emprego a vários que estavam na minha escola e tinham perdido o emprego. Mas quando aparece uma, como na Bandeirantes, que é uma cópia, eu tomo uma atitude. Não existe Escolinha do Professor Raimundo sem o Professor Raimundo. Se quer fazer, me contrata.

Você recebeu propostas de outras emissoras?
Muitas vezes. Não quis. Eu dizia: “Doutor Roberto, eu me sinto dono de uma dessas pilastras!” E ele dizia: “Chico Anysio, a Rede Globo toda é sua!”

Você pede para voltar ao ar?
Não. Eu já mandei 16 projetos, e nem leram. Se não tive resposta, a resposta é não. Quem cala consente só vale para a vida. Na Globo, quem cala não deixa.

Quais são as lembranças mais fortes da Globo?
A decisão de fazer da Escolinha um programa diário. O Boni propôs e eu topei na hora. Há outra coisa que eu não posso esquecer: era o único programa que ganhava do Pantanal (novela da TV Manchete exibida em 1990). O Jayme Monjardim (diretor) perguntava: “Mas que escolinha é essa?”

Como criou seus personagens?
Até tinha uma coisa de sentar para criar, mas uns nasceram pela voz, outros pelo tipo, pela personalidade, pela caracterização. Sempre fiz questão de que eles fossem encontrados sem que eu estivesse presente. Que alguém dissesse: “Na minha terra, tem um Pantaleão”; “No Rio tem muito Azambuja”.

A TV hoje está melhor ou pior do que já foi?
Eu acho que tem pouco humor na TV. Acho que houve uma queda na audiência de novela, até na novela das 8. Eu me lembro quando O Astro foi para o ar. Teve 96% dos televisores ligados. Isso não acontece mais. Peguei uma dessas revistas e vi um artigo falando que a Rede Globo perdeu 14 pontos no ano passado em relação ao retrasado. A Record cresceu 6 pontos. A TV fechada não faz cócegas. O canal mais visto da TV fechada é a Globo.

Como vê a briga pela audiência entre Globo e Record?
O “padrão Globo” é “conseguível”. Tudo depende de dinheiro. A Record só não passa porque não quer.

Você é saudosista?
Não. Nunca usei essa expressão “no meu tempo…” Meu tempo é hoje, ou melhor, hoje também é meu tempo.

Você lê jornal todo dia? Acompanha o noticiário político?
Eu acho que o Lula está fazendo um belo governo. Depois do Juscelino, Lula é o presidente de maior carisma que o Brasil já teve. Mas ele só elege ele mesmo. Não sei se foi bom para a Dilma (Rousseff), politicamente, ter ficado mais bonita. A figura antiga era mais austera. Ninguém assobiaria para ela na rua.

E a eleição do Obama, te emocionou?
Sim. Vou assistir à posse pela TV. Na América, sou Democrata. Preferia a Hillary Clinton. Mas tenho medo pelo Obama. O racismo na América é brutal, podem matá-lo. Não atiraram em Reagan, mataram Kennedy, acertaram o papa?

(*) Roberta Pennafort – O Estado de S. Paulo

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