A MORTE DE LUIZ FIGUEREDO, UM DOS PRINCIPAIS JORNALISTAS GAÚCHOS

Este não é um texto sobre rádio, como define por si só a sua publicação no site do Instituto Caros Ouvintes, ou de fundo histórico, como quer a ciência. É um texto sobre comunicação, jornalismo em geral, profissionalismo e, mais do que tudo, trata das relações humanas, algo tão raro hoje em dia nos chamados ambientes de trabalho. É sobre lembranças de um grande colega, falecido na semana que passou. Por Luiz Artur Ferraretto

Falei com ele pela última vez num sábado destes de férias, de verão, de sol forte e céu azul sobre o bairro Bom Fim, aqui em Porto Alegre. Faz menos de uma semana quando escrevo agora, mas parece que passou um tempo enorme. O Fig estava de bermudas e fazendo compras no supermercado. Tinha no rosto o sorriso de quem dias antes acrescentara um neto à família de cinco filhas e uma dezena de irmãos. Se despediu com o humor de sempre e é esta a imagem que quero guardar dele. Não aquela, a da terça, o corpo velado pela família e pelos amigos, a da fala emotiva de uma das filhas, a Bela, minha ex-orientanda de tempos atrás no curso de Jornalismo da Universidade Luterana do Brasil. Quero lembrar da alegria do Fig na formatura desta mesma filha. Ele me apertando a mão e agradecendo num dos auditórios da universidade. E quero lembrar de uma tarde de outubro há uns três, quatro anos, longa conversa em um tempo roubado em meio à grande quantidade de tarefas suas na assessoria de imprensa da Ulbra. A cada pergunta minha para registrar o papel dele na história do rádio do Rio Grande do Sul, o Figueredo citava outros nomes, relativizava a sua importância, ora com ironia, ora com um pouquinho de sarcasmo, mas sempre com muita humildade.


Luiz Figueredo

Por tudo isto, não consegui, não tive coragem de ir nas cerimônias que antecederam à cremação. Li que lá estavam 200 ou mais pessoas. É pouco pela importância dele. Acho que muitos querem guardar lembranças como estas. Afinal, o Figueredo tinha a simpatia e alegria que só os gordos possuem. Desde o início dos anos 90, ele trabalhava na assessoria de imprensa da Ulbra, em Canoas, na Grande Porto Alegre. E é muito duro saber que, nas próximas semanas, não vou cruzar nos corredores da universidade com ele ou ouvir a sua voz dizendo:
– Guri! Tenho um pepino pra ti.
Desde 1996, quando assumi a gerência do atual Centro de Produção Audiovisual da universidade, várias vezes o Fig anunciou, assim, ao telefone algum pedido de última hora para gravação ou produção em vídeo. Também vão faltar aquelas mensagens de e-mail com informações de cocheira sobre o mercado de comunicação. Vou recordar sempre, no entanto, todo o apoio dado ao longo dos 12 meses em que, a pedido da Reitoria da instituição, conduzi e reformulei o curso de Comunicação. Nos outros 12, os anos em que ele coordenou a imprensa da Ulbra, se a universidade ganhou com a presença do Figueredo, os veículos do Sul do país perderam com a ausência de um grande jornalista. E como vai fazer falta o Fig nas redações. Basta voltar os olhos para a sua trajetória profissional e verificar suas realizações, aquelas que ele relativizou numa tarde de primavera para um aluno de doutorado anos atrás.
Nos tempos de colégio, fora uma ou outra tentativa infrutífera nos times de futebol, o guri Luiz Figueredo já se dividia entre o jornalzinho mensal da escola e a locução de notícias transmitidas por um sistema de alto-falante nos recreios. O primeiro emprego com carteira assinada veio aos 17 anos: repórter do jornal Última Hora nas cidades de Novo Hamburgo e São Leopoldo. E seguiu acumulando funções ao longo das quatro décadas seguintes, passando pelos veículos de comunicação mais importantes do Sul do país. Basta lembrar os cargos de chefia, coordenação e direção ocupados em veículos do que são hoje a Rede Brasil Sul, a Rede Pampa e o Sistema Guaíba-Correio do Povo. Para ficar só no âmbito do rádio, lembro do papel do Figueredo na definição ou reformulação de três noticiários fundamentais até hoje nas grades das duas líderes do segmento de radiojornalismo no Rio Grande do Sul: o Chamada Geral, na Gaúcha; e o Jornal da Tarde e o então Correspondente Renner, na Guaíba. Nesta última, por sinal, ele coordenou uma das mais bem sucedidas coberturas eleitorais do rádio deste estado, a de 1982, quando a Guaíba realizou uma apuração paralela quase tão precisa quanto a do Tribunal Regional Eleitoral.
Na segunda, dia 12 de fevereiro, lá pelas nove da noite, um infarto agudo do miocárdio surpreendeu o cidadão Luiz José Biernfeld Figueredo. A terça seria de perplexidade e de tristeza entre profissionais de diversas gerações que cruzaram, nas últimas quatro ou cinco décadas, com o Fig. A respeito dele, talvez a melhor definição tenha vindo do cronista esportivo Wianey Carlet, ao microfone da Rádio Gaúcha, durante o programa Sala de Redação:
– Era um grande ser humano.
Quis a casualidade que o Figueredo, tão cheio de amigos e de colegas que o admiravam e que gostavam muito dele, morresse sozinho na sua casa. Sozinho não. Um fiel companheiro capa preta estava ao seu lado. Iria latir desesperado nos dias seguintes, sentindo a falta do dono. Fidelidade que nunca falta aos animais para provar uma infinita capacidade na identificação de seres humanos especiais e do vazio deixado pela ausência de alguém como o Fig.


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Por Luiz Artur Ferraretto

Nasceu e cresceu ouvindo rádio e as histórias do rádio. Aos poucos foi descobrindo que não queria ser só ouvinte. Formou-se em jornalismo pela UFRGS e começou a trabalhar no rádio. Doutor em Comunicação e Informação é professor do curso de Jornalismo da Universidade de Caxias do Sul/RS. É autor de vários livros.
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