A mulher sem tempo, outra vez…

A moça bonita, de quinhentos cruzeiros, olhava o moço de vinte anos, de forma esquisita, como a estudar seu pensamento, como se soubesse das lembranças que, há pouco, entraram no quarto bonito da mulher bonita. – Tá olhando o quê, meu bem? Parece que você nunca viu mulher pelada… Voltou à realidade. Não. Não tinha visto. Nunca! Podia até jurar! Ela estava nua, nuazinha. – Bem… Vem… Tira a roupa… Começou a se despir, lentamente. Deitou-se. A vergonha de estar ali, ao lado de uma mulher desconhecida, à espera da coragem que não vinha. Ondas de estranha vibração desciam sobre o moço. Uma terrível angústia a sufocá-lo. – Você ta doente, é?

Não, não estava. Ela não compreenderia. Não foi assim que ele idealizou para essa hora, o momento da libertação da sua alma, da sua sede de fugir das algemas do medo de recordar a cena da mulher gorda dos seus dezesseis anos, tantos anos atrás. Sabe como é, não sabe você?

– Meu bem… Sabe…? Eu não tenho muito tempo hoje. Você volta amanhã. Hoje é sábado. – É dia de ganhar dinheiro.

Levantou-se. Não conseguia entender o que estava acontecendo. Era um pesadelo. Não era verdade… Não podia ser verdade. Ela não dizia nada, mas sorria.

Com muito custo conseguiu vestir-se. Balbuciou:

– Desculpe…

– Que nada! Isso acontece…

Aquele sorriso no canto da boca muito pintada encravou-se-lhe na alma.

– Não se esqueça de deixar os quinhentos… Afinal, eu não tenho culpa…!

Os tropeços se multiplicavam à cada passo e a caminhada se obstruiu na vida a dois. Os estímulos converteram-se em sarcasmos dentro da própria casa.

Ninguém acreditava em ideais, em luta, em ânimo.

Quem ontem os ajudava, hoje desajuda e estorvam.

Mãos que atiravam flores de aplausos fizeram chover farpas de incompreensão.

Sozinhos, sim.

Entre a expectativa constante e a solidão, viveu sem esposa e sem parentes, suportando a todos os revezes da sorte sozinho.

O primeiro impulso, normalmente, era o de reclamar coisas insignificantes que não recebia. Um sorriso, até. Mas coisinha à-toa confessava – que somadas no dia-a-dia, chegou à época em que havia uma montanha de incertezas, de caminhos obstruídos, de frases de chacota, de incompreensão e até de receber aplausos.

Nada. Absolutamente, nada no decorrer das horas.

Um dia, transbordou!

Abortou a luz!

Liberdade!

A liberdade, pelo menos de espírito. Como uma vez foi tentado.

Depois do sarcástico sorriso no canto da boca da mulher que não tinha tempo, porque era sábado.

Do livro UMA PALAVRA DE DESPEDIDA, APENAS

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Por Antunes Severo

Radialista, jornalista, publicitário, professor e pesquisador é Mestre em Administração pela UDESC – Universidade do Estado de SC: para as áreas de marketing e comunicação mercadológica. Desde 1995 se dedica à pesquisa dos meios de comunicação em Santa Catarina. Criador, editor e primeiro presidente é conselheiro nato do Instituto Caros Ouvintes de Estudo e Pesquisa de Mídia.
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