A música passada a limpo: Catulo e o Luar do Sertão

Caro ouvinte, a série “A música passada a limpo” tem como objetivo trazer à tona personagens que foram alvo de polêmicas ou são pouco reconhecidos por falta de maiores registros na história da música popular brasileira. Começo com uma das obras mais antigas que cruzou décadas até alcançar o século XXI e que continua entre as mais executadas. Essa procura me levou a Catulo da Paixão Cearense e sua inesquecível Luar do Sertão composta em parceria com João Pernambuco e aqui interpretada por Maria Bethânia.
Catulo, a despeito de seu sobrenome, é maranhense de São Luís. Mudou-se para o Ceará aos 10 anos de idade, onde apreendeu a alma do sertanejo transmitida na forma de canção. A obra foi utilizada como prefixo da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, a partir de 1939 tornando-se conhecida em todo o país e despertando controvérsias sobre suas origens. Como esta, por exemplo:

João Pernambuco, renomado compositor e violonista, reivindicou a autoria da melodia que ele pensava ter sido usada como base para a composição da letra de seu rival. Ambos travaram uma relação conflituosa durante o período em que se encontravam no Rio de Janeiro, realizando concorridas serestas em meio a elite carioca, inclusive no Palácio do Catete, antiga residência presidencial.

Durante a vida, muitas críticas contundentes pairaram sobre Catulo. Mário de Andrade tachou-o de compositor pertencente à categoria intermediária entre o “popularesco” e a música erudita, ou mesmo a música folclórica brasileiras, estas sim, respeitáveis.

Vagalume, grande crítico da época, também não lhe poupou alfinetadas, entendendo sua inserção na alta sociedade como um movimento em direção à ofensiva alcunha de “música comercial”.

Polêmicas à parte, a música folclórica do vasto interior brasileiro sempre foi a fonte e alicerce para riquíssimas composições do cancioneiro nacional. Seja “pernambucana” ou “cearense”, o fato é que sua melodia apresenta toda a simplicidade das primeiras composições sertanejas antes do século XX, sem fazer-se cansativa com a repetição de seus desenhos. Cada nova frase surge como um inspirar profundo que antecede cada uma das longas estrofes, como que a aliviar uma angústia em pequenas doses. Sobre a letra, o que dizer de versos como “a gente pega na viola que ponteia/ e a canção é a lua cheia/ a nos nascer do coração/”. Os sete anos em que passou naquela terra, dos 10 aos 17, mesmo jovem, ficaram gravados profundamente em seu coração.

A canção, de fato fez-se lua cheia, cintilante em suas inúmeras gravações, presente em todos os períodos da história da música popular brasileira. O fato que mais me chama a atenção é seu contínuo poder de sedução, como água fresca que nunca perde seu poder de saciedade. Muitos foram os intérpretes que dela beberam, como que a rejuvenescer mutuamente, intérprete-obra.

O registro que selecionei é de Maria Bethânia, gravado em 1999. A segurança e serenidade de sua interpretação embalam maravilhosamente essa versão que traz quatro estrofes, sendo duas pouco conhecidas da versão original (que compreende doze estrofes). A voz humana encontra o suporte dolente do violão de Jaime Alem, que dialoga com a cantora, além de introduzir a canção, tomada de um sentimento nostálgico.

Muito teriam a aprender a dita “música comercial” e seus artistas ouvindo canção de tal riqueza, longe de fixar-se num tempo, num luar estrelado de outra época. Sua beleza continua enfeitando nossa imaginação, como um marco pré-formador daquela que muitos anos depois seria denominada música popular brasileira. E, lembremos: todos que nela adentram, nela continuarão a alegre sina de serem lembrados.

*Frederico Bezerra é Graduado em Piano pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Mestre em Música pela Universidade do Estado de Santa Catarina. Atua como professor, compositor, regente coral e pesquisador de música popular brasileira, com ênfase para o mundo do samba de Florianópolis. Autor de publicações em congressos e eventos científicos de música pelo país. Transitando entre o popular e o erudito, ingressou em 2008 na ala de compositores da G.C.E.R.E.S. Protegidos da Princesa, de Florianópolis-SC, tornando-se um dos autores do samba-enredo da agremiação para o carnaval 2010.

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