A nova cara da TV Cultura

João Sayad leva para a TV Cultura novas ideias e, em especial, um novo projeto de gestão. Há exatamente um ano ele assumiu a presidência da Fundação Padre Anchieta (FPA), entidade mantenedora da TV Cultura e das rádios Cultura AM e FM. Para avaliar as mudanças ocorridas, entrevistei Sayad e assisti durante um mês à maioria dos programas dessa emissora – que vi nascer em 1969 e sobre a qual tenho escrito com frequência.

Será que agora vai dar certo? É o que tento mostrar neste artigo, mas, a rigor, ninguém sabe. Acompanho a trajetória da TV Cultura há 42 anos, desde quando escrevi a primeira reportagem sobre essa emissora, em 1969. Durante seis anos, participei de seu conselho curador e, como brasileiro, tenho grande entusiasmo pelo projeto dessa TV pública. Por isso, acompanho sua programação com especial interesse, como telespectador e como jornalista especializado.

“Nosso objetivo é a audiência”, enfatiza João Sayad. Mas ressalva que esse não é o único nem o objetivo principal da emissora. O crescimento da audiência, entretanto, ainda está distante.

A economia

Do orçamento total de R$ 190 milhões da fundação, R$ 85 milhões vêm do governo do Estado; R$ 35 milhões das receitas de publicidade; e o restante de serviços de educação e ensino a distância e da Lei Rouanet. Só a folha de pagamento de pessoal consome R$ 140 milhões.

Com outras despesas, o que sobra para novos programas é relativamente pouco. Neste ano, por exemplo, serão aplicados apenas R$ 9 milhões para custear 15 programas novos.

“Nossa ideia é modificar esses números, de modo a poder financiar a nova programação. Neste ano, são 15 programas novos, cujo custo total é de apenas R$ 9 milhões”. Sayad reconhece que é pouco. Será preciso investir muito mais: “Para isso, estamos racionalizando ao máximo nossos custos. A Fundação conta este ano com o apoio de consultorias como a KPMG, a Price Waterhouse, consultor de recursos humanos e advogados trabalhistas, para reestruturar sua economia e racionalizar seus custos”.

O modelo institucional da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) é visto por João Sayad com muita simpatia. Por isso ele diz: “Gostaríamos de ser a Fapesp da TV pública. Com isso quero significar a abertura de nossas prateleiras para o que de melhor existir em termos de criatividade no Brasil, editando palestras, speeches e materiais da melhor qualidade. Sem essa qualidade, não obteremos a publicidade de que necessitamos. E, do ponto de vista essencialmente administrativo e financeiro, acho que uma TV pública precisa ter recursos próprios e não depender de aportes do governo. Só assim será realmente independente”.

Passivo trabalhista

Ao longo dos últimos dez anos, a Fundação Padre Anchieta deixou de cumprir alguns acordos trabalhistas originados de dissídios coletivos. Daí surgiu um passivo trabalhista que, na visão de Sayad, decorre muito mais de uma interpretação ambígua da Justiça do Trabalho, que ora considera o pessoal funcionários públicos estatutários, ora trabalhadores regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Como pagar essa dívida? Sayad explica que, qualquer que venha a ser a definição da Justiça, caberá ao Tesouro estadual pagar o que for devido.

“Mesmo assim, essa situação é desconfortável”, reconhece o presidente da Fundação Padre Anchieta.

Música clássica

Música clássica é um dos produtos nobres da TV Cultura. Mas os custos operacionais para a captação de concertos numa emissora de TV pública são elevados. As gravações de concertos, como os da abertura do Festival de Campos de Jordão, ainda são caras, pois exigem uma equipe de TV de até 60 pessoas, com bom conhecimento musical. Para baixar esses custos, Sayad conta com o apoio de gerentes profissionais dessa área, que esperam reduzir as equipes de 60 para 45 pessoas, com o uso de câmeras automáticas e de outros recursos.

Além de gravações de orquestras e artistas brasileiros, a TV Cultura adquiriu os direitos de programas de grandes orquestras internacionais, entre as quais a Concertgebow de Amsterdã, regida por Mariss Janson, a Filarmônica de Berlim, a de Nova York e outras. A música clássica contará ainda com documentários sobre Tchaikovsky, Bach e Beethoven. Um desses programas recentes mostrou o trabalho do regente russo Valery Gergiev, que dirige a Orquestra Filarmônica de Roterdã. Na grade atual, a música clássica deverá ter mais espaço, além de dois programas já lançados aos sábados e domingos à tarde. Mas ainda é pouco, para uma emissora com a missão da TV Cultura.

João Sayad acha que a divulgação da música clássica, com os melhores intérpretes, inclusive orquestras brasileiras e internacionais, “é uma das missões da TV Cultura não apenas para atender aos que gostam dessa música, mas, principalmente, para incentivar os jovens a gostarem dela”.

Um Estado com a riqueza econômica de São Paulo poderia investir muito mais em música clássica e em documentários de alto padrão cultural, não apenas com recursos governamentais, mas com a participação de toda a sociedade, como ocorre com algumas televisões públicas de todo o mundo, a exemplo do que faz a Public Broadcasting Service (PBS) norte-americana.

Cultura na internet

Nestes tempos de convergência digital, a TV Cultura enfrenta desafios semelhantes aos de todas as televisões brasileiras e dos jornais. Mesmo assim, a emissora já vive a realidade da multimídia, com boa presença na internet. O número de internautas que visitam o novo site da TV Cultura cresce ao ritmo de mil por dia e o telespectador pode ver todos os programas na internet, até com alguma interatividade, com joguinhos e redes sociais, como Facebook, Twitter e outras. “Colocamos na internet tudo que podemos e temos direito”, afirma Sayad.

A tecnologia digital permitiu desde 2009 um salto de qualidade na imagem da TV Cultura, que já transmite todos os programas em alta definição (High Definition ou HDTV). Assim, são valorizados os excelentes documentários adquiridos da BBC (British Broadcasting Corporation), a televisão pública britânica.

A digitalização possibilitou também a uso de mais dois canais na mesma faixa de frequência: os canais 2.1 para a emissora aberta tradicional; o canal 2.2 Univest, mantido pelas universidades públicas paulistas; e o 2.3, denominado Multicultura. Embora ainda quase desconhecidos dos telespectadores, esses canais adicionais prometem novas opções culturais para o público, mas precisam de uma estruturação mais completa.

A programação

A nova programação já revela alguns progressos. Os programas infantis continuam sendo um dos pontos fortes da emissora, tendo o superpremiado Castelo Rá Tim Bum à frente. Vale destacar, também, os magníficos documentários da BBC, gravados em HDTV, com a qualidade dos Blu-ray discs.

O programa Roda Viva, talvez o melhor programa de entrevistas da TV brasileira, é um bom exemplo das mudanças. Ganhou nova dinâmica com Marilia Gabriela e dois jornalistas fixos, Augusto Nunes e Paulo Moreira Leite, que funcionam como âncoras auxiliares, além de dois outros entrevistadores convidados.

O Jornal da Cultura melhora a cada dia, com a espontaneidade de Maria Cristina Poli, uma hora de duração e dois debatedores de alto nível para analisar os temas mais atuais e polêmicos. Três outros programas, que já eram de boa qualidade, estão ainda melhores: o Café Filosófico, o Metrópolis e o excelente Ensaio, de música popular brasileira. No entanto, Sr. Brasil e Viola Minha Viola, programas tradicionais de música brasileira, precisam de uma boa renovação.

Finalmente, uma sugestão na área de telejornalismo, área de vocação comprovada da TV Cultura: a emissora talvez pudesse lançar mais dois programas semanais de entrevistas. Um deles voltado para as artes, a cultura ou a ciência. E outro, essencialmente político, ao estilo do Meet the Press, da NBC norte-americana, com os melhores jornalistas, numa espécie de entrevista coletiva com líderes do País.

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