A nova era do rádio

Campeão de audiência entre os jovens, o veículo retoma o prestígio de outros tempos

Por Sérgio Martins

Revista Veja, 02/03/05Cinqüenta anos depois do fim de sua era de ouro, o rádio parece estar reencontrando o seu vigor. Ele está presente na casa de nove em cada dez brasileiros, é influente na cultura e na política, tem enorme apelo sobre os jovens e ultimamente renovou sua capacidade de revelar estrelas para o showbiz. De acordo com o Ibope, mais pessoas sintonizam o rádio do que assistem a televisão diariamente na Grande São Paulo – um quadro que se repete na maior parte das metrópoles brasileiras.

Claudio Rossi

A turma do Pânico: do horário nobre do rádio para as domingueiras da televisão.

O número de emissoras não pára de crescer no país: são mais de 6.000, soma inferior apenas à dos Estados Unidos. Numa pesquisa recente com jovens de todo o Brasil, 89% apontaram o meio como sua segunda fonte de entretenimento, logo atrás da TV e à frente dos encontros com os amigos. Isso de segunda a sexta. Nos fins de semana, a situação se inverte: os jovens preferem ouvir rádio a ver televisão. A popularidade com a garotada explica, em boa medida, por que o rádio recupera o seu prestígio e volta a fazer estrelas. O radialista Milton Neves, por exemplo, é hoje um dos nomes fortes da Rede Record, enquanto os humoristas do Pânico, revelados pela Jovem Pan, animam os domingos da RedeTV!. E há inclusive quem busque o caminho inverso. O apresentador da Rede Globo Luciano Huck considera o rádio um veículo “charmoso”. É dono de duas emissoras no Rio de Janeiro e comanda um programa dedicado à música lounge. “Estamos falando de um veículo com 83 anos de idade no país, mas um corpinho de 18”, diz Antonio Rosa Neto, do Grupo dos Profissionais do Rádio, instituição que presta assessoria às emissoras.

Nélio Rodrigues/1º Plano

Hamilton de Castro: ele dá conselhos amorosos aos mineiros insones há 29 anos

A influência do rádio se estende por várias áreas. É estratégico para a indústria fonográfica incluir seus artistas na programação das emissoras, nem que seja pagando uma comissão – o velho jabá – aos programadores. O rádio também demonstra força política. Nos grandes centros ou no interior do país, as concessões são disputadas com voracidade pelos políticos. Estima-se que 45% das emissoras do país pertençam a essa classe. “O rádio cria um vínculo entre comunicador e ouvinte que faz dele um instrumento precioso para fins políticos”, diz o sociólogo Fernando Lattman-Weltman. Das câmaras municipais aos gabinetes do Executivo, não faltam exemplos de carreiras fomentadas no rádio, como a do ex-governador fluminense Anthony Garotinho ou a do senador gaúcho Sérgio Zambiasi, que ganharam fama à frente de programas assistencialistas. O rádio é, ainda, uma ferramenta dos grupos religiosos, que detêm cerca de 35% das emissoras do país. Nessa área, destaca-se o padre Marcelo Rossi, o maior fenômeno da história recente do rádio. Seu programa na Globo AM chega a receber 3.500 telefonemas por dia e é ouvido por 2 milhões de pessoas em São Paulo, Rio e Belo Horizonte.

Barbara Wagner/Ag. Lumiar
O humorista Mução, um sucesso no Nordeste: o presidente Lula seria seu fã

Comercialmente, as rádios enfrentam o seu quinhão de problemas. Há anos seu faturamento estagnou-se na casa dos 4% do bolo de recursos de publicidade. Em desvantagem na disputa por verbas com a televisão e outros meios, as emissoras vêm buscando uma nova estratégia, que é a formação de grandes redes. As maiores delas são a Gaúcha Sat e a Jovem Pan, que controlam mais de 100 rádios cada uma. Há duas semanas, a Bandeirantes também atingiu essa marca. A empresa, que já detinha mais de noventa emissoras, acaba de incorporar mais seis, dentre as quais algumas das mais ouvidas em São Paulo, como a Nativa e a 89 FM. As redes são vistas com reserva por alguns especialistas, que acreditam que elas podem pasteurizar a programação musical das FMs. Esses temores, no entanto, têm sido desmentidos pela realidade. “As redes perceberam que têm de dar espaço para os noticiários e os locutores de cada região para não sofrer reflexos negativos na audiência”, diz o publicitário Paulo Gregoraci, do Grupo de Mídia São Paulo. De fato, o rádio tira boa parte de sua força da relação de proximidade com os ouvintes de uma localidade ou região. É isso o que explica o sucesso de um programa como Dona da Noite, que vai ao ar pela rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, e por outras 37 afiliadas da rede. Especialista em aconselhamento amoroso, o locutor Hamilton de Castro acalenta os insones mineiros há 29 anos. “Minha voz faz companhia aos ouvintes”, diz ele, que já foi padrinho de mais de 800 casais que se conheceram no programa ou durante os bailes e excursões que organiza.

Fabiano Accorsi 
Padre Marcelo Rossi: pregações ouvidas por 2 milhões de pessoas em três capitais

Uma tendência no rádio é a segmentação. Emissoras popularescas que martelam axé, pagode e programas policiais sensacionalistas nos ouvintes têm como contrapeso aquelas que se voltam exclusivamente para a música clássica, o jazz ou o rock. Nos últimos quinze anos, surgiu ainda o filão do jornalismo em tempo integral. A pioneira foi a paulista CBN. “Nosso aliado é o congestionamento. O executivo fica preso no trânsito e liga para ouvir notícias e saber quais as vias em melhores condições naquele momento”, diz o apresentador Heródoto Barbeiro. Mas a mais surpreendente contribuição das rádios talvez seja a formação de uma nova geração de humoristas. Dos integrantes do Pânico à trupe do Na Geral, programa transmitido pela rádio Bandeirantes e possível atração futura da TV da mesma empresa, muitos têm conquistado espaço inclusive na televisão.

No ar há dez anos pela Jovem Pan, o besteirol do Pânico é o campeão de audiência na capital paulista do meio-dia às 2 da tarde, o “horário nobre” do rádio. Transmitido por outras 42 emissoras, ele também lidera no ibope em cidades como o Rio de Janeiro. Em sua versão na TV, o programa alcança a média de 6 pontos, um belo desempenho para a RedeTV!. Ainda na linha do escracho, também fazem sucesso os comediantes Paulo Bonfá, Marco Bianchi e Felipe Xavier. Em meados dos anos 90, eles ficaram famosos na 89 FM, de São Paulo, com as piadas dos Sobrinhos do Ataíde. Em 2003 o trio se separou. Os dois primeiros continuam na 89, além de comandar o programa Rockgol na MTV. Xavier criou os personagens Incrível Rosca e Doutor Pimpolho, que são um hit na Mix. O primeiro é um machão sarado que esconde um segredo no armário. Pimpolho é um chefe autoritário, desbocado e mesquinho. Seria inspirado num conhecido empresário de rádio, mas Xavier desconversa quando se toca nesse assunto. “Ele é o chefe de todo mundo”, diz. No Nordeste, o maior fenômeno humorístico é de longe o radialista potiguar conhecido pelo codinome “Mução”. O locutor – cujo nome verdadeiro é Rodrigo Vieira – ganhou fama com um programa em que passa trotes telefônicos que sempre descambam para a baixaria. Os “mandantes” são os próprios parentes e amigos da vítima, que fornecem a Mução informações para brincadeiras enlouquecedoras. Transmitido por 110 emissoras, o programa é abjeto, mas conquistou até gente famosa. “O presidente Lula tem o CD com meus melhores trotes”, afirma Mução. É o rádio no poder.

Rádio de esquerda ou de direita, a escolher

O grande salto tecnológico do rádio será a transmissão digital via satélite, que tem qualidade sonora muito superior à do FM e permite maior variedade de programação. A novidade ainda não chegou ao Brasil, mas na Europa já existem estações digitais abertas – isto é, disponíveis a qualquer um que tenha o aparelho receptor apropriado. Os Estados Unidos – país que tem a maior rede de estações convencionais do mundo – seguiram outro caminho: a rádio digital por assinatura. Há duas companhias que fornecem esse serviço hoje, a Sirius e a XM, cujo público-alvo é o ouvinte que escuta rádio no carro. O negócio ainda é incipiente: somadas, as duas companhias mal atingem 5 milhões de assinantes, em um país onde circulam cerca de 200 milhões de veículos. Bem mais popular é a rádio pela internet. Por meio da rede, muitas estações de AM e FM ultrapassam o alcance limitado de suas antenas. Pelo computador, é possível ouvir estações brasileiras em Tóquio ou Londres.

Entre as mais de 100 estações oferecidas pela Sirius, há uma com comentários políticos “de direita” e outra “de esquerda”, para atender o ouvinte de qualquer tendência ideológica. Na velha rádio aberta, a tradição é menos pluralista. Nos Estados Unidos, o dial é dominado por conservadores extremados. O americano que rejeita jornais como o New York Times e até mesmo os noticiários televisivos por serem muito “liberais” sente-se representado por reacionários fervorosos como Rush Limbaugh. O programa dele é um fenômeno: transmitido por cerca de 600 estações no país todo, atinge 20 milhões de ouvintes. A popularidade do apresentador sobreviveu até mesmo à revelação, em 2003, de que ele era viciado em remédios para dor. Limbaugh foi muito atacado por essa contradição: no rádio, ele defendia penas de prisão para usuários de drogas.

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