A oportunidade perdida

Lembrei de um desabafo do grande radialista Hélio Ribeiro para comentar o baixo nível dos meios de comunicação e a influência que eles têm na formação das pessoas, sobretudo nas crianças e nos jovens.

“O Rádio. Ah, o rádio! O rádio é a maior oportunidade perdida de melhorar o mundo. Perdida porque são muito poucos aqueles que entendem e sentem o poder que esse veículo tem.  Poder de transferir o arrepio. O rádio foi feito para alegrar, dar entretenimento, orientar e ajudar.Tudo ao mesmo tempo, com sabedoria e ciência. Então, o rádio é o grande amigo. Sua irmã mais nova, a televisão também não foi inventada pra isso, não esse lixo que tem ai.  Eles ficam dividindo a audiência. Eu tive oito pontos, ele teve 10… E as pessoas que não assistem nada e não ouvem nada pela baixa qualidade das coisas?” (Hélio Ribeiro)

O carnaval é sempre um grande momento para se medir a mediocridade musical do país. Na Bahia, capital mundial do axé, uma dessas excrescências “culturais” da terra que já ofereceu ao mundo Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Gilberto, Maria Betânia, Gal Costa, Tom Zé, apenas para citar alguns, o “hit” este ano foi “Cadê Dalila”, de Carlinhos Brown, que até é muito talentoso, mas aderiu ao modismo banal da atual musica baiana. Quem gravou e cantou a música em cima do trio elétrico foi Ivete Sangalo, uma grande intérprete, cujas músicas que canta estão muito abaixo de seu talento.

A letra é “genial”, uma repetição de “vai buscar Dalila, ligeiro” e aquele momento apoteótico, para levantar a galera que se resume num filosófico e criativo  “hem, hem, hem, hem, ôôôô!”. A letra tem ainda momentos de profunda literatura, cuja poesia faria Castro Alves, o poeta da praça famosa ( ou a praça famosa do poeta) ter desistido das escritas. É assim: “Esse povo é VIP, vai levando / O futuro existe, vai levando / Ninguém é triste / Eu vi, vai levando”.

A produção musical do país ultimamente é lamentável. Os tais grupos tecno-bregas, Calypso, Calcinha Preta, Psirico, E o Tchan, Mastruz com Leite, Meninas Perdidas, Bruna Surfistinha, Desejos de Menina, Aviões do Forro e tantos outros, não podem representar manifestações artísticas brasileiras, não só pela má qualidade de suas músicas, como pela estupidez de suas letras.

Claro que, diante do fenômeno musical brega, os críticos se rendem. É mais fácil elogiar a mediocridade que enfrentá-la. Li uma matéria na FOLHA, se não me engano, que críticos de música, produtores, antropólogos, todos elogiam o Tecnobrega. Esses intelectuais afirmam que se trata de “um momento maravilhoso da música brasileira, juntamente com o funk carioca, o hip-hop paulista, a tchê music gaúcha, o lambadão mato-grossense, o forró amazonense e todas as manifestações musicais das periferias das grandes cidades.” Colocaram tudo num caldeirão só…

Outro dia uma criança, de uns quatro ou cinco anos, dançava e cantava uma música , Lapada na Rachada, com um grupo chamado Saia Rodada. É uma dessas porcarias que tocam o dia inteiro nas emissoras de rádio. Todo mundo estava achando “bonitinho” a criancinha ali, dançando, repetindo os gestos obscenos da cantora e a letra chula da tal música. Possivelmente, num futuro não muito distante quando estiver levando a “Lapada na Rachada”, seus pais e todos aqueles que acharam “bonitinho” vão se perguntar onde é que erraram.

O rádio e a televisão não são apenas formadores de opinião ou meio de entretenimento. Num país como o Brasil, eles estruturam o caráter e o comportamento das pessoas, que quase não lêem, não estudam e não raciocinam porque não foram estimuladas para isso.

São esses os cidadãos, formados por essa produção cultural, que vão eleger os nossos futuros governantes.  Por essas e por outras, o rádio é a maior oportunidade perdida de melhorar o mundo. Meu abraço ao querido e saudoso Hélio Ribeiro.

2 respostas
  1. José Eli francisco says:

    Como posso esquecer desta voz linda . Hélio Ribeiro foi meu ídolo enquanto esteve no ar mandando na audiência em todo o Brasil . “Bom dia estamos em sintonia com o Show das Dez …… ” inesquecível . “Esse programa é ouvido pela moça do carmanguia (não me lembro como se escreve direito)amarelo ” . Até hoje gostaria de saber quem é essa perua heheheheheheheh. Eli Francisco .

  2. J.Pimentel says:

    Há várias versões sobre a Moça do Kharmann Ghia Vermelho. Quem pode dar a versão oficial é nosso companheiro Jair Brito que foi seu diretor e amigo pessoal. No entanto eu também tenho minha versão que envolve o próprio Hélio. Acho que foi em 1965, por ai. Eu estava muito a fim de uma garota chamada Esmeralda.Hélio Ribeiro,na época diretor da Tupi, também demonstrava interesse na garota, magra, alta, olhos verdes e muito bonita. Eramos então solteiros os dois. Domingo. Eu trabalhando na Difusora e ele na praia. Me parece que ele tinha um Mustang azul, que depois ficou vermelho. Encontraram-se, ele e Esmeralda. Antes que eu soubesse do encontro por outra pessoa, Hélio veio direto da baixada para contar que foi um encontro casual, nada além disso, etc e tal. Foi então que me contou que, no caminho parou para abastecer, quando entrou no posto uma linda mulher, dirigindo um Kharmann Ghia Vermelho, possivelmente ano 63, o carro esportivo da moda.Hélio descreveu-a com seu costumeiro talento para definir o belo,mas não teria conseguido falar com a moça. Resolveu então jogar as fichas no seu programa tentando fazer com que ela aparecesse. Nunca soube se esta foi a versão original, tampouco se a moça apareceu ou não, mas que A MOÇA DO KHARMANN GHIA VERMELHO se transformou numa importante marca de seu programa, não resta dúvida.

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